Goiás bate recorde de casos de sífilis e registra quase 33 notificações por dia
Estado contabilizou mais de 12 mil casos em 2025, alta de 19,3% em um ano; jovens de 20 a 29 anos concentram quase 38% dos registros

O avanço da sífilis adquirida em Goiás ganhou força em 2025 e levou as notificações ao maior patamar da série histórica disponível. Ao todo, foram 12.012 registros contabilizados pela Secretaria de Estado da Saúde (SES), número que corresponde a quase 33 notificações por dia.
O cenário representa uma alta de 19,3% diante dos 10.070 registros contabilizados em 2024. Em cinco anos, a diferença é ainda mais expressiva: em 2020, eram 4.445 notificações, o que significa crescimento de 2,7 vezes no período.
Para o urologista Luiz Cláudio, diretor executivo do Ânima Centro Hospitalar, a mudança na percepção sobre as infecções sexualmente transmissíveis pode estar entre os fatores relacionados ao cenário.
Na avaliação dele, os avanços no tratamento do HIV contribuíram para reduzir o temor que existia em relação às ISTs.
“Com a eficácia do tratamento para HIV houve uma certa despreocupação generalizada com as ISTs”, afirma o especialista. Segundo ele, essa menor percepção de risco pode ter repercutido negativamente nos cuidados preventivos.
Os números também revelam uma diferença importante entre os sexos. Dos registros feitos em 2025, 7.485 foram de homens, enquanto 4.482 envolveram mulheres; em 45 notificações, essa informação não foi preenchida.
A predominância masculina, no entanto, não deve ser interpretada isoladamente, como comenta Luiz Cláudio. O médico aponta que características da manifestação da doença e possíveis diferenças na identificação dos casos podem interferir no resultado observado.
“Nos homens, as lesões da sífilis primária são de mais fácil detecção. Pode estar havendo subdiagnóstico nas mulheres”, explica.
Para o especialista, também é possível que diferenças nos comportamentos sexuais tenham influência, embora o dado por si só não permita determinar a causa da maior concentração entre os homens.
Faixa etária
O grupo que mais apareceu nas notificações foi formado por pessoas de 20 a 29 anos. Essa faixa etária respondeu por 4.544 registros, quase 38% do total, enquanto os grupos de 30 a 39 anos e de 40 a 49 anos tiveram, respectivamente, 2.953 e 1.725 notificações.
Na avaliação do urologista, uma possível explicação está na maneira como diferentes gerações percebem os riscos das infecções sexualmente transmissíveis. Ele considera que parte dos jovens não vivenciou o período em que a Aids era associada a um temor social muito maior.
“Isso deu a eles uma sensação de falsa imunidade e não estão dando a atenção devida à prevenção de ISTs”, afirma Luiz Cláudio. O especialista também relaciona a faixa etária à maior exposição a relações com múltiplos parceiros, situação que pode ampliar as oportunidades de transmissão.
A sífilis é provocada pela bactéria Treponema pallidum e integra o grupo das infecções sexualmente transmissíveis. A transmissão ocorre principalmente durante relações sexuais, por meio do contato com lesões infectadas.
Um dos problemas para controlar a doença é que os sinais podem passar despercebidos. Na fase inicial, por exemplo, pode surgir uma ferida que não provoca dor e desaparece mesmo sem tratamento, o que não significa que a infecção tenha sido eliminada.
Sem atendimento adequado, a bactéria pode permanecer no organismo e provocar manifestações mais graves ao longo do tempo. Entre as possíveis consequências estão danos cardiovasculares e neurológicos, que podem surgir nas formas tardias da doença.
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