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Falta de água em Anápolis: uma solução possível, mas distante

Em fevereiro de 2003, enquanto prefeito de Anápolis, enviamos um projeto de lei solicitando a autorização junto à Câmara Municipal a abertura do processo para municipalização da Água. Compreendíamos desde aquele momento – mais de 12 anos atrás – que somente com o controle próximo e atento de todo o processo de abastecimento, tratamento e distribuição da água poderíamos de fato sanar a falta de abastecimento que anualmente acontecia na cidade.

Pedimos ao legislativo a licitação para contratarmos uma empresa que fizesse todo o projeto com o compromisso que não faltasse mais abastecimento. Todo o gerenciamento deste processo ficaria a cargo da Prefeitura de Anápolis e, para tanto, criamos em junho do mesmo ano a AMA – Agencia Municipal de Água. Seria esta autarquia quem realizaria o gerenciamento de todo o processo legal e execução do contrato com a empresa escolhida e não mais haveria ingerência do Governo de Goiás, através da já ausente e claudicante Saneago.

Curiosamente, durante este processo, que culminou com a aprovação na Câmara Municipal em unanimidade de toda esta tramitação que retiraria a Saneago de Anápolis, foi iniciado o processo político de intervenção municipal promovido pelo Governo do Estado a fim de interromper um governo democraticamente eleito. Através da efetivação do meu afastamento, ninguém menos que o homem de confiança do Governo de Goiás, o então vice-governador Alcides Rodrigues, foi o escolhido para me substituir.

Um dos primeiros e mais discretos atos administrativos do prefeito-interventor foi justamente o cancelamento e paralisação de todo este processo por intermédio de um único e decisivo ato: a renovação do contrato da Prefeitura de Anápolis com a Saneago, recolocando por mais 25 anos a responsabilidade da captação e abastecimento de água da cidade nas mãos da Saneago. Era a renovação do atraso e da incompetência. Para os interesses da estatal goiana perder Anápolis significaria um duro golpe na receita, afinal, o que a empresa recebe dos anapolinos é reorientado para cobrir outras despesas e não é totalmente reinvestido na cidade. Daí tamanho atraso no investimento de equipamentos e tecnologias que possam por fim ao problema da seca que acomete dezenas de bairros e milhares de famílias ano após ano.

A assinatura desta renovação de contrato, cujo interesse era e ainda é o de retirar receita de Anápolis e não reinvestir totalmente de volta na cidade, recolocou nosso município nos trilhos da desordem como já estava desde os anos 1980, 1990, 2000 e infelizmente ainda é caminho de hoje quando, após longos em períodos de longa estiagem os bairros seguem sentindo o horror que é sobreviver sem o abastecimento de água.

À Saneago, mais que ausência de investimento, modernização de equipamentos e investimentos nos pontos estratégicos de Anápolis, também falta gestão adequada, técnica e não política e, ainda, o compromisso de reinvestir o que arrecada na cidade com a própria cidade e suas demandas. A empresa estatal goiana é a próxima a entrar em colapso seguindo o mesmo caminho triste da Celg. Os motivos são ainda bastante semelhantes: gestão política, interesses alheios à empresa e má administração.

Recentemente fiz uma representação no Ministério Público Estadual para que seja retomada esta licitação que deixamos em aberto em 2003 o mais rápido possível e, com isto, resolva o problema na cidade. Com esta medida envolvendo o MP-GO, evita-se o desgaste político do Executivo municipal com o Executivo Estadual e, assim, o próprio Ministério Público pode se imiscuir no debate, facilitando o procedimento sem gerar rusgas que, muitas vezes, impedem o desenvolvimento de algumas ideias. O problema de fato está longe de resolução enquanto não houver uma empresa com capacidade técnica para realizar adequadamente a captação, tratamento e abastecimento de água nos mais de 300 bairros da cidade de Anápolis.

O atual prefeito e o próximo tem uma excelente oportunidade nas mãos: entrar para a História como o gestor que pôs fim a este problema junto aos anapolinos. Basta realizar o processo que municipaliza a responsabilidade de água em nossa cidade. É preciso coragem política e muito trabalho para enfrentar quem há décadas se beneficia das ações da Saneago em Anápolis mas não devolve em investimentos necessários para corresponder ao tamanho da cidade.

Ernani de Paula é empresário e ex-prefeito de Anápolis

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