Pais não precisam de religião para ensinar moral aos filhos.

A discussão sobre a lei da mordaça, digo, Escola sem partido, está rendendo. Um dos pontos levantados pelo projeto é que moral está diretamente ligada à religião, e não pode ser ensinada sem uma base religiosa. Esta falsa afirmação nos leva a um artigo do Los Angeles Times, de janeiro de 2015, falando sobre o aumento do número de crianças que crescem em lares em que ninguém segue uma religião específica. Não são necessariamente ateus, mas também não são fiéis a determinada religião. Seriam como os católicos não praticantes que são maioria no censo brasileiro. Foram batizados e nunca mais voltaram na igreja. Lá, nos EUA, hoje, 23% dos adultos afirmam não ter religião. Quando restringimos a faixa etária para o grupo entre 18 e 29 anos, os sem religião passam de 30%.

Mas o mais interessante dessa reportagem nem é o fato de tanta gente se declarar sem religião. O grande destaque está nas informações ligadas a essas pessoas citadas. O professor de gerontologia e sociologia Vern Bengston, tem estudado há mais de 40 anos o modo como as famílias lidam com religião, e as transmitem a seus descendentes. Ele supervisionou o Estudo Longitudinal de Gerações, e já escreveu um livro, inclusive, falando sobre como a religião é passada de pais para filhos.

Nestes quarenta anos de estudos Bengston descobriu muitas coisas, algumas que o surpreendeu, como altos níveis de solidariedade familiar e maior proximidade emocional entre pais e jovens não religiosos. Talvez, porque em lares religiosos muitos assuntos sejam tabu. Além disso foram identificados fortes padrões éticos e valores morais que foram enraizados e transmitidos aos mais jovens. Muitos pais sem religião tinham mais princípios éticos e os seguia com mais força do que pais religiosos.

Esses pais ensinam desde cedo a seus filhos a grandeza da empatia. A reciprocidade é a grande regra de ouro. Se colocar no lugar do outro e tratá-lo como gostaria de ser tratado. Não que isso não seja ensinado por diversas religiões. Mas se você não coloca isso como regra da religião e sim como uma ferramenta para uma vida melhor, os valores passam a ser mais firmes. Mesmo que questione sua religião, você não irá questionar esses valores.

As descobertas são tão fantásticas que servem para mostrar que o principal argumento contra ateus, o de que quem não tem religião não aprende moral e empatia, é totalmente falso! As crianças filhas de pais sem religião, não se importam em agradar os “legais” da escola, e não sentem uma necessidade de se adaptar às exigências de grupos para serem aceitos. Quando adultos eles tendem a ser menos racistas que seus pares religiosos, (lembre-se que no Brasil tem pastor que diz que negros são amaldiçoados). Além disso, esses adultos tendem a ser menos vingativos, autoritários e mais tolerantes que adultos religiosos.

Chega a ser irônico, isso. Os que não seguem o Deus de amor tendem a ser pessoas melhores que os religiosos. Esses adultos sem religião tendem a apoiar direitos das mulheres e homossexuais e outras minorias, além disso, cometem menos crimes. De acordo com documentos do Departamento Federal de Prisões, dos EUA, os ateus representam menos de meio por cento da população carcerária do país.

Ainda no quesito crimes, os países democráticos com menor índice de religiosos são os mesmos que apresentam os menores índices de crimes violentos no Mundo e contam com os maiores níveis de bem-estar social. Estão entre estes países a Suécia, Dinamarca, Japão, Bélgica e Nova Zelândia. Do outro lado, temos países como o Brasil, né? Altamente cristão e com índices de criminalidade que superam países subdesenvolvidos, acometidos de extrema pobreza. No Brasil, inclusive, temos até mílicias e facções evengélicas, que roubam e matam, mas seguem o Senhor Jesus.

Em 2012, um estudo realizado por diversos cientistas, entre eles Robb Willer, numa parceria entre as universidades da Califórnia, do Colorado e a Universidade Estadual do Oregon resultou em descobertas interessantes sobre compaixão e generosidade, envolvendo religiosos e não religiosos. O estudo foi realizado com mais de 1500 voluntários e concluiu que pessoas menos religiosas tendem a ser mais sensíveis às necessidades de um estranho. Além disso ficou evidente que a compaixão e caridade vinda de religiosos estava mais ligada à obrigação com a religião ou preocupação com a imagem perante outros religiosos e a sociedade em geral.

Quer dizer, que a maioria dos religiosos quando fazem caridade, o fazem por medo de ir para o inferno, ou para ficar bem na frente dos irmãos da igreja. Por outro lado, os “sem religião” fazem caridade, acreditando no benefício que sua obra causará ao próximo, sem se importar com um castigo ou compensação eterna. Eles se importam mais com o próximo.

Veja bem, eu não estou aqui defendendo o ateísmo como única arma pra salvar o mundo. Já aviso, pois sempre aparecem os cristãos mal resolvidos para xingar muito nos comentários (em 99% das vezes tendo lido apenas o título), sem nem ler o texto direito, mas destilando todo o seu amor cristão desejando a morte e castigo eterno de quem não segue a mesma ideologia que a sua. De acordo com o que muitos pastores pregam por aí, pessoas sem religião deveriam ser a própria imagem e semelhança de Satanás, e os cristãos e religiosos exemplos de caridade e compaixão. Porém, estas pesquisas estão mostrando justamente o contrário.

O que vemos aqui é mais uma evidência (científica, diga-se de passagem) de como a maioria dos religiosos, e aqui, voltando para nossa realidade, cristãos em grande número, é hipócrita e vive apenas de aparências. Nesse momento só consigo pensar naquela passagem bíblica em que o fariseu se exalta no templo, por ser um exemplo, um religioso de primeira, que faz caridade, que é fiel à Palavra, que vai nos rituais religiosos e é um grande cidadão, ao contrário do pecador encolhido nos fundos, bem no canto, com a cabeça baixa de vergonha.

A maioria dos cristãos brasileiros que deveriam ser os exemplos de caridade, compaixão e amor ao próximo só estão conseguindo ser exemplos em outro campo: Fundamentalismo, perseguições, preconceito e julgamentos. São estes cristãos, seguidores do Deus do amor, que gritam que Negros foram amaldiçoados, que gays e espíritas devem arder no inferno, e que todos que não seguem suas crenças estão condenados. Se dizem defensores da família e dos bons costumes, mas na verdade só defendem seus próprios umbigos. São os arautos do egoísmo, e com aval da bancada evangélica no congresso, que usa o nome de Cristo, pra disseminar discursos de ódio e impor suas visões de mundo a toda população, mesmo que você não professe a religião deles.

Chega a ser irônico as notícias recentes de que um deputado famoso por suas falas preconceituosas, tanto contra espíritas, como gays e negros, esteja no centro de uma denúncia por tentativa de estupro e violência, querendo forçar uma jovem a ser sua amante, sob ameaças e promessas de vantagens. Logo ele, o principal defensor da família tradicional brasileira. Aquela formada por pai, mãe, filhos, amante e grupo de whatsapp com putaria. O mesmo deputado que aparece em vídeos pedindo a senha de cartão do fiel, incentivando a caridade para com a igreja, e não para com o próximo.

É importante lembrar que não é uma disputa para definir quem é mais caridoso ou abnegado. Tanto os religiosos quanto ateus tem o poder de juntos fazerem a diferença para a humanidade. A igreja católica é a maior instituição caritativa do mundo. Diversos hospitais abrigos e centros de acolhimentos são mantidos por igrejas e voluntários. Diversos outros centros, pesquisas, projetos e ongs são financiados por ateus, como Bill Gates, que já doou bilhões de dólares a pesquisas que possam melhorar a vida de muitos pobres e obras caritativas pelo mundo.

Sinceramente, fico torcendo pelo dia do “juízo final” que muitos acreditam. Assim, talvez, Cristo viria e gritaria na cara de muitos “cristãos”: SAIAM DE PERTO DE MIM! Não conheço vocês, raça de víboras! Espero, porém, que não seja necessário esperar até que aconteça o tal juízo, para quem sabe, corrigir o mundo em que vivemos. Podemos construir um mundo melhor hoje, sejamos religiosos ou não, seguindo apenas a regra de ouro dos Ateus, que também foi ensinada por Cristo: “Ame o próximo, como a ti mesmo!”.

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