Portal 6

Em áudios, atravessador da saúde em Anápolis ameaça entregar cabeça de políticos

(Foto: José Durão)

Ele, que pode voltar para cadeia nesta terça-feira (11), agora aparece na companhia de outro vereador e ostenta várias fichas médicas de alta complexidade

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que atualmente Anápolis tem pouco mais de 380 mil habitantes. É menos que a metade do número de cartões do SUS inscritos como sendo de pessoas residentes na cidade. 

A nítida fraude aumenta cada vez mais a quantidade de pacientes atendidos na rede pública e conveniada de saúde local, colapsando o sistema – já que os repasses do Governo Federal são equivalentes à população real do município.

Mensalmente, a Prefeitura de Anápolis gasta a média de R$ 26 milhões para manter funcionando todas as unidades de saúde pública e também filantrópica do município. A demanda, lembram os gestores, só aumenta e os recursos nunca bastam para que o atendimento seja ágil, de qualidade e eficiente.

Um dos porquês desse drama pode ser explicado pela existência dos chamados ‘atravessadores da saúde’. São eles que vendem ou emprestam endereços na cidade para que pessoas de outros municípios não pactuados com Anápolis recebam atendimento, façam exames, cirurgia e até tratamento de alto custo como se daqui fossem. 

Um desses atravessadores, já denunciados pelo Portal 6, é Edmilson Neves de Souza, de 35 anos, natural de Porangatu, município a quase 373  km de Anápolis, que se especializou em facilitar a vida de doentes, forjando endereços residenciais que lhes garantam a emissão de cartão do SUS.

Sem o documento, criado há quase 20 anos no Governo Fernando Henrique (PSDB), ninguém consegue atendimento na rede pública. Naquela época, os agentes de saúde, ou da Pastoral da Criança, iam de porta em porta para cadastrar todos os integrantes da residência no SUS. Meses depois um cartão magnético personalizado chegava pelos Correios com instruções para o usuário utilizá-lo.

Nos governos seguintes, a orientação mudou. Os próprios usuários ainda não cadastrados procuram as secretarias municipais de saúde, que emitem um cartão de papel numerado após o requerente apresentar documento de identificação e comprovante de endereço.

A mudança de procedimento agilizou a emissão, mas criou problemas ao  facilitar fraudes, gerar mais gastos para municípios com melhor estrutura e encher o bolso de pessoas que burlam o sistema.

A propina

Recentemente, um caso que envolveu o pai do vereador Valmir Martins, de Porangatu, foi parar na polícia. Recorrendo a Edmilson, o parlamentar conseguiu dar um novo endereço fictício em Anápolis para o idoso afim de que o SUS lhe colocasse dois stents farmacológicos.

Porém, apenas um foi autorizado e Valmir, nas palavras de Edmilson, vazadas em diversos áudios aos quais o Portal 6 teve acesso, pagou R$ 10 mil como propina para que um médico da Regulação da Prefeitura de Anápolis liberasse o outro tubinho. 

O plano, que parecia perfeito, não foi executado “como o combinado” e o vereador ficou uma fera. Além de questionar o cardiologista Flávio Canedo, que fez o procedimento no Hospital Evangélico Goiano (HEG), o edil porangatuense decidiu contar o que fez para o prefeito de Anápolis.

Roberto Naves (PTB), para não prevaricar, mandou que seus seguranças, que são policiais militares, encontrassem Edmilson e levassem ele o vereador Valmir para a delegacia. O 1º DP de Anápolis, comandando pela delegada Gênia Maria Eterna, investiga o caso mas ainda não apresentou nenhum novo desdobramento.

Após o esquema cair como uma bomba no mundo político de Porangatu, o mandato de Valmir Martins está ameaçado. Além de um iminente afastamento do cargo, o parlamentar corre o risco de perder a cadeira para o suplente Pastor Chocolate (PSDB).

Já Edmilson, que nesta terça-feira (12) pode ser condenado em segunda instância pelo homicídio do ex-padrasto Manoel Luiz Pereira Gualberto, morto envenenado, ameaça em outro áudio complicar ainda mais a situação do vereador e entregar a cabeça de outros políticos de “gabarito mais alto” envolvidos na negociata. 

Apesar não citar quem seriam os políticos mais graduados aos quais tem constante contato, Edmilson, ao menos se deixou fotografar com um deles, o vereador José Durão (PRB), também de Porangatu. 

É essa imagem, inclusive, que ilustra a capa desta reportagem. Na cena está Edmilson, em frente ao pronto socorro da Santa Casa de Misericórdia de Anápolis, no bairro Jundiaí.

Na selfie feita pelo vereador de Porangatu estão outras três mulheres e um jovem. Nas mãos de Edmilson várias fichas médicas para procedimento de alta complexidade.

Quer comentar?

Comentários

Nosso Twitter

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.