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Dois asilos registram surto de Covid mesmo após vacinação

Todos os infectados, trabalhadores e moradores, haviam recebido entre janeiro e fevereiro deste ano as duas doses da Coronavac

Folhapress Folhapress -
(Foto: Arquivo/Zanone Fraissat/Folhapress)

No dia 29 de abril, alguns moradores do asilo Lar do Idoso São Vicente de Paula, em São Luiz Gonzaga (RS), a cerca de 500 km de Porto Alegre, começaram a apresentar sintomas como coriza e dor de garganta. Dois dias depois, outros moradores passaram a sentir o mesmo. Em 3 de maio, funcionários da instituição também apresentaram o quadro.

Na primeira semana de frio do ano no município, a suspeita era de resfriado, mas, de 79 pessoas testadas com suspeita de infecção por coronavírus, 64 receberam testes com resultados positivos -48 moradores e 16 funcionários.
Dois moradores, um homem de 77 anos e uma mulher de 80, morreram devido a complicações da Covid-19. Das 10 pessoas que foram internadas, 4 seguem no hospital, mas nenhuma delas chegou a ser transferida para UTI.

Todos os infectados, trabalhadores e moradores, haviam recebido entre janeiro e fevereiro deste ano as duas doses da Coronavac, vacina produzida pelo Instituto Butantan, segundo Karol Comassetto Hamerski de Morais, enfermeira e responsável técnica do asilo, que não foi infectada. A Secretaria Estadual de Saúde confirmou que os idosos que vivem no local receberam a primeira dose no dia 21 de janeiro e a segunda em 18 de fevereiro.

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Vinte e cinco idosos infectados ficaram assintomáticos -os funcionários também não tiveram sintomas ou apresentaram quadro leve.

“Acho que se não fossem vacinados estaríamos diante de uma grande catástrofe”, diz o neurologista José Renato Grisólia, diretor técnico do Hospital São Luiz Gonzaga e membro da comissão de combate à Covid no município. “Houve proteção, considerando que todos, além de idosos, são portadores de várias doenças. Os dois que faleceram tiveram piora súbita e óbito.”

Entre as hipóteses de como o vírus chegou ao local estão o caso da esposa de um funcionário, cujo teste deu positivo para o coronavírus Sars-CoV-2, e o caso do homem que morreu, que pode ter sido o primeiro infectado. Ele havia se mudado para o asilo cerca de uma semana antes e morava com um casal de cuidadores até então.

“Para entrar aqui, ele apresentou todos os exames que a gente pede, e o da Covid estava entre eles, como negativo. Essa certeza de onde veio, a gente nunca vai ter”, diz a enfermeira.

Outro surto ocorreu em um asilo, também chamado São Vicente de Paula, em São Borja (RS), a 585 km da capital e a 110 km de São Luiz Gonzaga. Do total de 68 moradores, 56 tiveram testes com resultado positivo para a Covid. Entre os 31 funcionários, 9 foram infectados.

Uma idosa de 90 anos, que tinha mal de Alzheimer e problemas cardíacos, morreu no dia 8 de maio. Outro morador, de 78 anos e que também tinha comorbidades, morreu nesta quinta-feira (13). Dez pacientes seguem internados, dois deles em estado grave, mas a maioria teve apenas sintomas leves.

Segundo a SES-RS (Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul), os primeiros caso tiveram sintomas no dia 23 de abril. Este foi o segundo surto registrado no local, em fevereiro, foram confirmados três casos positivos. Os moradores foram vacinados com a Coronavac nos dias 20 de janeiro e 18 de fevereiro.

Por meio de nota, o Instituto Butantan, que produz a vacina Coronavac no Brasil, disse que a eficácia e a segurança da vacina foram comprovadas por meio de testes clínicos com 12,4 mil voluntários em 16 centros de pesquisa brasileiros e pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

O instituto lembra que um artigo científico, divulgado em abril, apontou eficácia global da vacina de 50,7%, chegando a 62,3% quando o intervalo entre as duas doses é igual ou maior do que 21 dias. O estudo indicou ainda que, em casos que precisam de assistência médica, a eficácia da vacina seria de 83,8%, evitando o agravamento do quadro na maioria das pessoas infectadas.

“Cada caso, individualmente, deve passar obrigatoriamente pelo processo de investigação, que não considera apenas a imunização de forma isolada, e sim o conjunto de aspectos clínicos, como comorbidades e outros fatores não relacionados à vacinação”, diz o Butantan.

A Coronavac apresentou uma taxa de efetividade, ou seja, eficácia na vida real, de 98% contra mortes e de 96% contra hospitalização por Covid-19 em profissionais da saúde na Indonésia, segundo dados apresentados nesta semana. Os resultados foram obtidos a partir do uso em 128.290 médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde da linha de frente em Jacarta, capital do país asiático. Eles receberam o imunizante entre janeiro e março deste ano.

O estudo apontou, além da alta proteção contra mortes e internações, uma prevenção de 94% da vacina contra casos sintomáticos de Covid.

Os dados, que ainda não publicados oficialmente, foram anunciados nesta quarta-feira (12) pelo coordenador do estudo e autoridade em saúde no país, Pandji Dhewantara.

Raquel Stucchi, infectologista, pesquisadora da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, explica que, embora na apresentação dos dados sobre a Coronavac a Anvisa tenha pontuado que o número de casos graves foi pequeno nos dois grupos analisados (os que receberam a vacina e os que receberam placebo), com o início da vacinação da população podem aparecer surpresas na efetividade do imunizante.

“[O caso dos surtos] é uma situação que preocupa muito, mas que reforça a necessidade da manutenção das medidas de bloqueio de transmissão, como uso de máscara, distanciamento social e higienização das mãos. Outro ponto importante é saber se foi alguma variante que causou esse surto, porque isso pode nos dar a informação do escape da variante à proteção da vacina”, afirma ela.

Segundo a enfermeira responsável pelo asilo em São Luiz, desde o início da pandemia as visitas presenciais aos moradores foram suspensas. Quando a bandeira que orienta o distanciamento social no estado estava em níveis de menor gravidade, eles podiam conversar com familiares pela janela, a distância.

Morais explica ainda que, embora funcionários usem máscaras e álcool em gel e adotem cuidados, o contato com os idosos é direto devido à natureza do trabalho e que é difícil manter os moradores com máscara. “A maioria tem demência, mal de Alzheimer, e eles não entendem a importância desses cuidados.”

O hospital de São Luiz Gonzaga, que atendeu os pacientes, pediu ao governo do estado teste de genotipagem para tentar descobrir qual cepa do vírus circulou no ambiente do asilo e entender se se trata de uma nova variante ou de alguma já conhecida.

Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, três amostras entre os casos positivos na instituição serão encaminhadas à Fiocruz nos próximos dias. O hospital também encaminhou amostras a um laboratório particular para obter uma resposta mais rápida e planejar ações.

No caso de São Borja, a pasta diz que ainda não foram identificadas amostras do surto para que sejam realizada a genotipagem das mesmas, já que é preciso verificar antes se o teste realizado foi o RT-PCR e se amostras foram armazenadas depois da realização do mesmo.

A secretaria afirma que a vigilância epidemiológica do estado mantém monitoramento de situações para identificar situações específicas. “Entre essas prioridades estão os casos entre pessoas já vacinadas, assim como investigações de reinfecção e a análise de casos de um local que teve expressivo aumento repentino no número de casos”, diz a pasta.

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