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Grávida alega que foi torturada por freiras em convento de Anápolis

Jovem perdeu o marido para a Covid-19 e foi encaminhada ao local religioso imaginando que teria acolhimento, mas viveu um verdadeiro inferno

Rafaella Soares -
(Foto: Ilustração)

Na segunda-feira (18), equipes da Patrulha Maria da Penha de Anápolis acolheram uma jovem de 21 anos que está grávida de oito meses e alega ter vivido uma situação traumatizante em um convento da cidade.

O Portal 6 apurou que a moça perdeu o marido para a Covid-19 há cerca de um mês, no Mato Grosso, e precisou ser encaminhada para uma instituição dirigida por freiras que acolhe gestantes.

Há aproximadamente 20 dias, ela foi mandada para uma unidade de Anápolis e um verdadeiro inferno teria começado.

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Lá, a jovem afirma que teve todos os pertences recolhidos, como documentos, celular, cartão de banco e enxoval do bebê. Durante as manhãs, recebia novelos de linha e, caso não conseguisse fabricar tapetes, ficava sem comida e água durante todo o dia.

Enquanto esteve no local, também era obrigada a realizar tarefas de limpeza, rezar ajoelhada, não podia ter contato com ninguém e, como castigo por não produzir a quantidade exigida de tapetes, teve todo o enxoval do bebê cortado.

Falta de assistência médica

Em um ocasião em que passou mal, a jovem teria pedido para ir ao hospital, porém, teve o cartão do pré-natal rasgado e atendimento médico negado.

A vítima só foi levada para uma unidade de saúde no último domingo (17), porque teria sido obrigada a lavar um freezer ligado na tomada, levou choque e o eletrodoméstico acabou caindo nas pernas dela.

Depois, foi obrigada a voltar a pé para a instituição, mesmo se sentindo mal e com as pernas inchadas.

Fuga

Antes de sair da consulta, no domingo (17), a gestante conseguiu no hospital o telefone de uma assistente social. Para garantir que as freiras não encontrariam, colocou o papel com o número dentro do próprio sutiã.

No mesmo dia, perto do final da tarde, ela teria visto um padre saindo da instituição e aproveitou que o portão estava aberto para, enfim, fugir e pedir ajuda para moradores da região.

A assistente social então apareceu para recuperar todos os pertences dela e levá-la para um abrigo que acolhe vítimas de violência e é gerido pelo Centro de Referência da Mulher do município.

Agora, o caso, que está sendo tratado com sigilo pelas autoridades, deverá ser investigado pela Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM) pelo crime de sequestro e cárcere privado resultando em grave sofrimento físico ou moral e por redução à condição análoga a de escravo.

Nota da redação

De forma tardia e intimidatória, o padre Lodi, presidente do Pró-Vida, instituição religiosa acusada pela então grávida por tortura e cárcere privado, enviou ao e-mail da redação do Portal 6 uma nota que ele apelidou de “direito de resposta”, dando a versão dele para os fatos. O religioso também disse que não processará o veículo por questão de fé. O texto de Lodi foi encontrado no spam no dia 13 de novembro e será veiculado na íntegra por fé no jornalismo sério e responsável que o Portal 6 prática desde a fundação, e também para lembrar ao padre que o Brasil tem Lei de Imprensa e que a diligenciosa leitura dela ajuda a entender a importância deste instrumento à democracia do país.

A seguir, leia a nota do padre Luiz Lodi na íntegra.

Com a palavra o padre Luiz Lodi, presidente do Pró-Vida

Na manhã de sexta-feira, 15 de outubro de 2021, recebemos com festa uma jovem afável, de 21 anos, vinda do Mato Grosso, gestante de 30 semanas, viúva e necessitada de ajuda. Como ela se sentisse mal, foi logo por nós conduzida à Santa Casa de Misericórdia, onde passou o dia inteiro entre consultas e exames médicos.

No dia seguinte, 16, sábado, por volta das 16h45, ela se queixou de uma queda e foi levada novamente ao Pronto Socorro da Santa Casa, onde os profissionais de saúde a tranquilizaram quanto a ela e à criança por nascer. À noite, quando estávamos trazendo nossa hóspede de volta para casa, ela afirmou que havia encontrado no hospital uma “prima” de seu marido, que lhe havia oferecido acolhida. A “prima” na verdade, era uma assistente social com quem a gestante se queixou de estar “presa”, “trancada” em um “convento de freiras” e aspirando pela liberdade.

No domingo, dia 17, ela falou repetidas vezes sobre sua “prima” e sobre a “casa” que lhe fora oferecida. À tarde, passou a gritar e a agitar-se querendo ir embora. Por volta das 16 horas, quando eu abri o portão da garagem a fim de sair para celebrar a Santa Missa, ela fugiu. Quando retornei, pouco antas das 18 horas, nossa hóspede já havia sido “libertada” pela suposta “prima”, que viera levá-la com seus pertences para uma casa de acolhida de mulheres vítimas de violência, mantida pela prefeitura do município.

Na terça-feira, dia 19, um jornal local publicou a matéria “Grávida alega que foi torturada por freiras em convento de Anápolis”[1]. Ao visitar a Delegacia, verifiquei que, de fato, havia sido aberto um inquérito policial em que a hóspede declarava “que era trancada no quarto com duas marmitas e uma garrafa de água”, “que ficou um dia e meio sem beber água e sem tomar banho”, que era obrigada a “fazer tapetes” (!) e, se não conseguisse fazê-los, era privada de alimentação… A conduta minha e das voluntárias leigas (“irmãs”) do Pró-Vida de Anápolis foi enquadrada em “sequestro e cárcere privado resultando em grave sofrimento físico ou moral” (art. 148 §2º, CP) e “redução à condição análoga à de escravo” (art. 149 § 1º, I, CP).

Ao recebermos a visita dos agentes de polícia, foi fácil mostrar, através das imagens das câmeras de vigilância, a alegria com que a gestante foi recebida, as refeições que fazia com as irmãs no refeitório, sua liberdade de locomoção pela casa e a pressa com que ela sempre foi conduzida ao hospital quando se queixava de algo. Tínhamos os resultados dos exames, as receitas médicas, os cupons fiscais das drogarias onde compramos remédios, tudo depondo em favor do excelente tratamento recebido pela hóspede.

No entanto, quando a notícia caluniosa foi veiculada, houve quem me sugerisse propor uma ação judicial por crime de calúnia ou de reparação de danos. Lembrei-me, porém, de Nosso Senhor coroado de espinhos e da honra que era para nós receber em nós algum de seus dolorosos espinhos. Lembrei-me que os Apóstolos, após terem sido açoitados com varas, “saíram do Sinédrio alegres por terem sido considerados dignos de injúrias por causa do nome de Jesus” (At 5,41). Lembrei-me da última das bem-aventuranças do Sermão da Montanha, em que o Senhor nos convida a uma especial alegria:

“Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque grande é a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,11-12).

Lembrei-me, por fim, das palavras de Deus Pai a Santa Catarina de Sena referindo-se àqueles que já progrediram na vida espiritual:

Eles sabem que as perseguições do mundo e do demônio são permitidas por mim. Mesmo num mar de contradições, saem ilesos. São ramos enxertados no tronco do amor.

Alegram-se em todos os acontecimentos. […]. Sempre otimistas, de todas as coisas extraem o perfume da rosa, e não apenas daquilo que é bom. No que se refere as ações que parecem pecado, preferem não emitir juízos. Unicamente sentem compaixão. Oram pelos pecadores e com humildade refletem: “Hoje toca a ti, amanhã a mim, se a graça divina não me proteger”.

Ó filha querida, apaixona-te por este excelente estado de perfeição. Vê como esses progridem sob tão grande iluminação. Como são grandes! Têm o espírito santificado, estão sedentos pelo desejo santo, preocupam-se com a salvação dos outros, porque me amam. Revestiram-se de meu Filho, vivem sua mensagem com inflamado amor. Não perdem tempo a julgar falsamente meus servidores, nem a condenar os que seguem o mundo; não se preocupam com as maledicências contra si e contra os outros: se forem contra si mesmos, suportam-nas alegremente por meu amor; se forem contra o próximo, sentem compaixão e não ficam a murmurar contra o ofensor ou o ofendido; sua caridade para comigo e para com os outros é reta, sem distorções. Assim sendo, filha caríssima, não se escandalizam, nem pelas pessoas amadas nem por ninguém. Tendo morrido sua vontade própria, nunca julgam a vontade alheia; apenas consideram os desejos da minha clemência[2].

Em seguida, Deus Pai recorda a Catarina uma lição que Jesus lhe dera sobre a pureza:

“Desejas chegar à pureza completa? Desejas livrar-te das preocupações, de modo que teu espírito em nada se escandalize? […]: ao veres ou ouvires, de quem quer que seja, afirmações referentes a mim ou aos homens, não pronuncies julgamentos. Diante de um pecado evidente, procura extrair uma rosa do espinheiro. Em outras palavras: oferece tudo a mim com santa compaixão! Relativamente às ofensas cometidas contra ti mesma, lembra-te de mim, pois sou eu que permito tais coisas para experimentar tua virtude. Para experimentar em ti e nos demais servidores. Recorda-te de que o ofensor foi mero instrumento meu, e que ele age muitas vezes com reta intenção. Ninguém tem o direito de julgar o segredo do coração humano. Se uma ação não te parecer pecado mortal claro, evidente, não julgues interiormente além de quanto faço eu, que estou presente naquelas pessoas; se notares um pecado certo, não condenes; procura apenas compadecer-te. Comportando-te deste modo, chegarás à pureza perfeita. Teu espírito não se escandalizará, nem por minha causa nem por causa dos homens. Quando julgais iníqua a vontade de alguém, como contrária a vós, sem perceber no acontecido um desígnio meu, nasce em vós uma certa raiva contra aquela pessoa; tal raiva vos afasta de mim e prejudica vosso aperfeiçoamento. Em certos casos, chega a eliminar a graça, conforme a maior ou menor gravidade do rancor concebido contra o irmão no momento de condená-lo. Tal é minha vontade, para vosso bem! Tudo quanto quero ou permito tem uma finalidade: que atinjais a meta para a qual vos criei! Quem ama o próximo, sempre me ama; quem me ama, acha-se unido a mim. Portanto, se desejas a pureza que suplicas, deves realizar três coisas principais: unir-te a mim no amor com lembrança dos favores recebidos; entender o inestimável amor que vos dedico; não julgar má a vontade alheia, procurando ver nela a minha vontade. Eu sou o juiz; vós, não! Assim agindo, muito aproveitarás”[3].

Anápolis, 8 de novembro de 2021.

Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz

Presidente do Pró-Vida de Anápolis

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