O poder de uma imagem a favor da vida

Márcio Corrêa -
Momento foi registrado no início do ano passado pelo médico Erik Jennings, no Norte do Pará, e divulgado só agora. Para mim, é um símbolo instantâneo da luta contra a Covid-19 no contexto social e político do Brasil. (Foto: Reprodução)

Embora eu não seja médico, como profissional da saúde (sou odontólogo por formação), frequentemente amigos e apoiadores perguntam minha opinião sobre a vacina contra a Covid-19 e sobre todo esse debate a respeito da sua eficácia . Tenho uma formação e uma convicção muito sólidas em defesa da ciência e, consequentemente, a favor da vacinação , além de estratégias de testagem e rastreamento para compreender a dinâmica da disseminação do vírus. Mas uma imagem que correu o País na semana passada me impactou por conseguir representar algo que vai além da discussão científica ou do debate ideológico em torno da vacina.

A foto que ilustra esse artigo é do jovem Tawy Zoé, que carregou seu pai, Wahu Zoé, idoso e com dificuldades de locomoção, durante seis horas, por quilômetros de floresta amazônica, para que ele recebesse uma dose de vacina contra a Covid-19. Aplicada a injeção, Tawy colocou o pai de novo nas suas costas e fez o caminho de volta. O momento foi registrado no início do ano passado pelo médico Erik Jennings, no Norte do Pará, e divulgado só agora. Para mim, é um símbolo instantâneo da luta contra a Covid-19 no contexto social e político do Brasil.

É uma imagem forte demais por tudo que ela carrega: o amor de um filho pelo pai; a compreensão de um indígena sobre a importância da vacina num momento em que muitos dão as costas para os perigos da doença; a tenacidade de um povo para proteger sua aldeia de uma doença mortal. O médico Erik Jennings, em sua postagem, comemorou o fato de que até hoje não foi registrado um único caso de Covid-19 entre os Zoés.

Vivemos hoje um momento de recrudescimento da doença, quando já vislumbrávamos uma luz no fim do túnel da pandemia. Os casos no País subiram mais de seis vezes somente na primeira semana do ano, comparada com a última semana de 2021, e ainda temos mais de uma centena de mortes por dia. É muito menos do que no último auge da doença, mas ainda é um patamar inaceitável.

Na verdade, a luz do fim do túnel ainda está visível, mas só um pouco mais distante com a chegada da variante Ômicron e a possibilidade de novas variantes enquanto o vírus conseguir manter um determinado nível de circulação. E quem ilumina esse túnel é exatamente a vacina, que fez com que os casos graves da doença caíssem drasticamente mesmo com o crescimento de novos casos. É por causa do grande volume de brasileiros imunizados que temos uma margem de segurança para manter as atividades econômicas rodando neste momento de nova onda de contaminações. Caso contrário, talvez agora estaríamos fechando novamente nosso comércio, nossas indústrias, e aprofundando a recessão. Os questionamentos sobre as vacinas colocados até agora não fazem sentido do ponto de vista científico, econômico ou humanitário.

O jovem Tawy Zoé possivelmente não quis passar nenhuma lição com o enorme esforço para proteger seu pai e sua aldeia. Aquele era apenas o dever dele como filho e como membro de uma comunidade. Mas ele nos dá uma grande aula de consciência e humanidade. Nossa responsabilidade vai além da que temos para com nós mesmos. Nossas decisões quase sempre têm consequências coletivas e temos o dever de pensar no melhor para todos os que estão à nossa volta.

Márcio Corrêa é empresário e odontólogo. Preside o Diretório Municipal do MDB em AnápolisEscreve todas as segundas-feiras. Siga-o no Instagram.

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