Em crise interna, Biden faz jogada de risco em viagem ao Oriente Médio

Congressistas democratas chegaram a enviar uma carta pedindo ao presidente que não fosse

Folhapress -
Presidente dos EUA, Joe Biden fez ameaças a Vladimir Putin (Foto: Reprodução/ Twitter)

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – Joe Biden embarca para sua primeira viagem ao Oriente Médio como presidente dos Estados Unidos, na noite desta terça-feira (12), pensando tanto nas possíveis vitórias a colher quanto nos problemas dos quais será obrigado a se desviar –o maior deles sendo o timing.

Quando o tour por Israel, Palestina e Arábia Saudita foi anunciado, no começo de junho, o preço do petróleo estava em alta recorde, e a ida a uma região que é grande fornecedora global foi vista como uma tentativa de potencialmente contornar a questão: o americano poderia convencer os países a aumentar a produção e baixar preços.

“Os recursos energéticos [da região] são vitais para mitigar os impactos sobre os suprimentos globais da guerra da Rússia na Ucrânia. E a aproximação via diplomacia e cooperação reduz os riscos de avanço da violência extremista que ameaça nosso território [dos EUA]”, escreveu o presidente em artigo recente no jornal The Washington Post.

A cotação do petróleo, porém, caiu nas últimas semanas: passou da faixa de US$ 120 (R$ 652, na cotação atual) em junho para os atuais US$ 95 (R$ 516), em meio à expectativa de recessão que pode atingir inclusive os Estados Unidos nos próximos meses.

“Países como Arábia Saudita e Emirados Árabes não estão motivados a produzir mais e trazer preços para baixo; estão aproveitando a alta de preços”, ponderou Samatha Gross, diretora de Segurança Energética do centro Brookings, durante um debate.

O timing se torna mais delicado em um contexto em que o presidente Biden vive sério desgaste de imagem nos EUA, que ameaça o Partido Democrata no pleito legislativo de novembro. Em maio ele fez uma viagem à Ásia da qual já voltou sem grandes resultados práticos na bagagem.

Agora, a visita a Riad teve novo custo político interno alto. Em 2020, Biden criticou Donald Trump por sua proximidade com os sauditas, especialmente com o contexto do assassinato de Jamal Khashoggi, jornalista do Post morto e esquartejado em 2018 no consulado do país na Turquia. A inteligência americana aponta que a morte foi ordenada pelo príncipe Mohammed Bin Salman, que nega envolvimento.

Na campanha, o democrata prometeu fazer os sauditas “pagarem o preço” e tratá-los “como o pária que são”. Mas, quando no cargo, manteve parceria de décadas, reatando a relação aos poucos.

Congressistas democratas chegaram a enviar uma carta pedindo ao presidente que não fosse à Arábia.

“As manchas de sangue nele [MbS] ainda não foram limpas”, disse o senador Tim Kaine. Treze grupos de direitos humanos ainda disseram que retomar as relações “não só trai promessas de campanha, mas provavelmente dará mais poder ao príncipe para cometer outras violações”. Até o fechamento desta edição não estava claro se Biden se encontraria com MbS, porque a agenda detalhada não foi divulgada.

O presidente rebateu críticas dizendo que atuou para responsabilizar o príncipe no caso Khashoggi.

“Nós revertemos a política de cheque em branco que herdamos”, afirmou Biden. “Meu governo deixou claro que os EUA não vão tolerar ações contra dissidentes por qualquer governo.”

Antes de lidar com esse problema, na primeira escala da viagem Biden se encontrará com o primeiro-ministro de Israel, Yair Lapid, em um momento também pouco oportuno. O governo de Naftali Bennett foi dissolvido no fim do mês passado, e Lapid governa sem poderes para tomar grandes medidas, enquanto espera a eleição de novembro.

A parada servirá mais para Biden, que defende a solução de dois Estados para o conflito com a Palestina, marcar diferenças com seu antecessor Trump. O republicano irritou palestinos ao mudar a embaixada dos Estados Unidos de Tel Aviv para Jerusalém e dar apoio a um plano de divisão que deixaria moradores da Cisjordânia em áreas isoladas, conectadas por túneis (uma ideia que acabou na gaveta). Ele também costurou os chamados Acordos de Abraão, que restabeleceram relações de Israel com nações como Arábia Saudita e Emirados Árabes.

Biden agora buscará celebrar o avanço dessa integração –com a Casa Branca destacando que ele será o primeiro presidente americano a fazer um voo de Tel Aviv a Riad– e, ao encontrar um líder palestino, tentará apaziguar o clima: os palestinos reclamam da demora em reabrir um consulado fechado por Donald Trump em 2018.

A viagem deve ainda mirar o Irã. Biden almeja reconstruir o acordo de 2015 pelo qual Teerã aceitou reduzir sua capacidade nuclear em troca do alívio de sanções, implodido por Trump, mas os iranianos, inimigos figadais de Israel, se aproximam cada vez mais da Rússia, nação que os Estados Unidos buscam punir por causa da Guerra da Ucrânia.

Antes de voltar a Washington, o presidente também espera faturar com a trégua na guerra no Iêmen, obtida com a ajuda da diplomacia americana. Para isso, deve ir a uma cúpula com representantes de Egito, Iraque e Jordânia.

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