Como roubo, greves e fraude no Louvre agravam a maior crise na história do museu
Visitar o Louvre continua sendo uma experiência única, mas problemas recentes se tornaram uma fonte de estresse para turistas

ANDRÉ FONTENELLE – Evitem marcar visita ao Louvre às segundas de manhã. Esse é o alerta que a guia de turismo brasileira Tatiana Agostini Zaballa tem feito aos clientes. “É quando costumam acontecer as greves”, explica. Desde o célebre roubo das joias da coroa, em 19 de outubro, tornaram-se frequentes as paralisações intermitentes dos funcionários.
Roubo, greves, infiltrações nas paredes, fraude nos ingressos. Nos últimos meses, o museu mais visitado do mundo só tem gerado notícias ruins, reflexo daquela que talvez seja a maior crise de sua história.
Nesta quarta-feira (25), o presidente da França, Emmanuel Macron, nomeou um novo diretor para o Louvre ou presidente, como é chamado em francês o cargo. Christophe Leribault, historiador da arte de 62 anos, é atualmente responsável por outro ícone do turismo mundial, o Palácio de Versalhes.
Leribault sucede a curadora Laurence des Cars, no posto desde 2021. Ela renunciou na véspera, na esteira da crise. Os problemas “começaram antes de Laurence des Cars, mas se aceleraram”, afirma o sindicalista Julien Dunoyer, funcionário do museu há duas décadas.
“Uma boa parte do orçamento vai para exposições e coisas de muita visibilidade, mas não para as menos glamourosas, como a manutenção do prédio, o encanamento, a reforma dos banheiros”, diz Dunoyer. “Em vez de ouvirem os funcionários, de um verdadeiro trabalho de equipe, só há confronto.”
A reportagem esteve no Louvre, na última segunda-feira (23), e constatou salas com andaimes devido a infiltrações, visitantes se abanando por falta de refrigeração, banheiros que não dão conta da demanda.
“No mapa que a gente recebe, estão hachuradas as áreas em reforma”, comenta o turista mineiro Bruno Oliveira da Silva, visitando pela primeira vez o museu. São muitas as salas marcadas, como as de antiguidades gregas e romanas, pinturas espanholas e arte islâmica.
“O Louvre está meio decadente, não vou poder mentir para você”, diz Zaballa, a guia. “Os banheiros são horríveis. Muitos lockers nos vestiários estão quebrados. Onde ficam as estátuas gregas, está sempre quente.”
Piorando a experiência do turista brasileiro, desde janeiro o ingresso para não-residentes na União Europeia – que representam 40% dos 9 milhões de visitantes anuais subiu de 22, aproximadamente R$ 135, para 32, ou R$ 195.
Não que os problemas fossem ignorados antes do roubo. O aumento do ingresso para estrangeiros servirá para ajudar a pagar parte de uma reforma geral do Louvre, anunciada por Emmanuel Macron em pessoa em janeiro de 2025, na Sala dos Estados, onde está exposta a “Mona Lisa”.
Naquela ocasião, diante do presidente francês, Laurence des Cars denunciou a decrepitude do museu. “Esta sala deveria ser um lugar de admiração. No entanto, é palco de intensa agitação, pouco propícia à descoberta de suas obras-primas. Embora o Louvre ainda desperte entusiasmo, por toda parte o edifício sofre”, constatou a então presidente do Louvre.
Estimado em 1,15 bilhão, cerca de R$ 7 bilhões, o projeto Novo Renascimento do Louvre, como foi batizado, prevê para 2031 acessos alternativos à famosa pirâmide de vidro do arquiteto sino-americano I.M. Pei, inaugurada em 1989. Entre eles, um específico para a “Mona Lisa”, desafogando o restante do prédio, e um novo paisagismo.
A última grande reforma data justamente da época da inauguração da pirâmide de Pei, marco do bicentenário da Revolução Francesa. Previa-se, então, uma capacidade máxima de 4 milhões de pessoas por ano. Hoje o museu recebe 9 milhões. Com a reforma, poderá acolher 12 milhões.
A Galeria de Apolo, palco do roubo das joias, continua fechada e sem previsão de reabertura. O tapume cinza diante da entrada virou atração turística à parte. No dia da visita da reportagem, não havia nenhum funcionário vigiando.
A meio caminho entre a galeria e a “Mona Lisa”, na sala 707, um andaime do teto até o chão revela o local de uma infiltração recente. No teto, o vazamento danificou o painel “O Triunfo da Pintura Francesa”, executado por Charles Meynier em 1819; na parede, um afresco sobre o calvário de Jesus, do mestre renascentista italiano Fra Angelico.
Logo na sala seguinte, outro tapume e um aviso. “Obras em andamento. Pedimos desculpas pelo incômodo ocasionado.” Em boa parte da ala de pinturas italianas, o ar-condicionado parecia totalmente desligado e os visitantes se abanavam.
Além dos problemas físicos do gigantesco Louvre são mais de 30 mil obras expostas em 14,5 quilômetros de salas e corredores, Christophe Leribault, o novo presidente, terá que lidar com questões administrativas. Há duas semanas, a polícia desmantelou uma fraude na bilheteria. Foram presas nove pessoas, entre elas dois funcionários.
O golpe, segundo a procuradoria de Paris, consistia em reaproveitar ingressos usados para que grupos entrassem sem pagar. Guias teriam lucrado com o esquema durante pelo menos uma década. Curiosamente, a fraude também afetava o Palácio de Versalhes, que o próprio Leribault dirigia até esta quarta-feira.
Quanto às joias roubadas em outubro, embora os quatro executores do crime tenham sido presos poucas semanas depois, até hoje não há notícias do butim. Do lado de fora, a calçada onde os bandidos estacionaram o caminhão-grua usado no assalto está interditada. Uma grade deve ser instalada na janela por onde eles entraram.
Um relatório do Tribunal de Contas francês criticou a gestão do Louvre nos últimos anos. Nem mesmo o projeto de reforma para 2031 escapou das críticas. O sindicalista Dunoyer também teme que o dinheiro seja mal empregado. “Não sei se temos recursos para isso, sabendo que só a reforma do prédio [atual] está estimada em 450 milhões, cerca de R$ 2,7 bilhões.”
Visitar o Louvre continua sendo uma experiência única. Mas os problemas recentes se tornaram uma fonte de estresse para os turistas. Foi o caso das gaúchas Elizabeth Costa e Christine Travassos Souza, pela primeira vez no Louvre na semana passada.
“Tinha essa ansiedade, a preocupação de chegar e talvez não conseguir acessar o museu”, diz Costa. “Amigos deram dicas, ‘olha, vai de tarde, porque de manhã está tendo greve’. Tanto é que só compramos o ingresso ontem, para ter mais segurança’.”







