Com ovos de Páscoa e bacalhau caros, consumidor ajusta compras para manter tradição
Alguns consumidores passaram a antecipar as compras ou migrar para opções mais baratas
GUILHERME ALMEIDA, MALU ARAUJO E JÚLIA GALVÃO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Com os preços de ovos de chocolate e do bacalhau elevados, o consumidor tenta preservar a tradição da Páscoa com ajustes no carrinho. Nos supermercados, já é possível se deparar com itens esgotados, especialmente ovos infantis com brindes de marcas um pouco mais baratas.
Os ovos estão mais caros do que outros tipos de chocolate, uma tendência já vista no ano passado. Em visitas a nove supermercados, além do Mercado Municipal e de lojas de chocolate em um shopping, a reportagem da Folha de S.Paulo encontrou unidades menores (de 80g a 120g) na faixa de R$ 20 a R$ 40. Já opções de marcas mais conhecidas partiam de cerca de R$ 50 e podiam ultrapassar R$ 100, a depender do tamanho e do recheio. Produtos maiores, como ovos de cerca de meio quilo, chegavam a R$ 109,99.
A diferença de preço em relação a outras categorias ajuda a explicar o comportamento do consumidor. No mesmo ambiente, caixas de bombom de cerca de 200g eram encontradas por aproximadamente R$ 15, enquanto pacotes de 1 kg saíam por cerca de R$ 45. Barras de chocolate, por sua vez, partiam de R$ 5,99 e, em marcas tradicionais, ficavam em torno de R$ 13 para 145g.
Em um dos estabelecimentos visitados, na zona sul de São Paulo, prateleiras de barras e bombons apareciam com espaços vazios, indicando maior procura. Além disso, itens como colomba pascal e cestas de presente passaram a dividir espaço com os ovos nas áreas de destaque.
No caso do bacalhau, os preços elevados também afetam o consumidor. Nos mercados, o produto foi encontrado por valores que variavam de cerca de R$ 130 o quilo até R$ 195, e já havia relatos de falta em algumas unidades.
No Mercado Municipal da Lapa, na zona oeste, o bacalhau lidera as vendas deste período. A versão mais barata é o corte em iscas, com o quilo entre R$ 40 e R$ 50. Já a mais cara é a posta do bacalhau Porto, cujo quilo pode chegar a R$ 220 em peças maiores.
Michael Carvalho, 26, gerente de um dos restaurantes que operam no mercado, diz que a semana da Páscoa é mais movimentada que a do Natal.
Diego Michel, 34, gerente de um dos boxes, diz que, neste ano, os preços do bacalhau estão no mesmo padrão de 2025. Mas comenta que o movimento do mercado é menor desde a pandemia: “Até 2019 ficava o mês todo cheio. Agora é mais na última semana mesmo, na Semana Santa”, afirma.
A analista de dados Daniela Silva, 40, ouvida pela reportagem em uma loja da Cacau Show, afirma que a família pesquisou os preços e decidiu abandonar a tradição de Páscoa: “Depois de muitos anos, a gente não vai fazer bacalhau porque está muito caro.”
Em relação aos ovos, ela comprou apenas para os sobrinhos. Ela diz que os preços subiram muito, tanto nas lojas quanto nos supermercados.
No Mercadão, o preço do quilo do lombo de bacalhau do Porto, que sai em média por R$ 200, tem feito o consumidor pesquisar. Para muitas famílias que vão até lá fazer compras, o bolinho e o pastel de bacalhau se tornaram a alternativa para aproveitar o passeio sem pesar no orçamento. Segundo o gerente Gilvan Cândido, 44, a demanda pelos itens chega a crescer entre 70% e 80% no período da Páscoa.
O azeite também está no topo das buscas. O comerciante Fábio Gouveia, 47, explica que o preço caiu em relação ao ano passado que teve alta devido às questões climáticas que afetaram a safra de 2025.
Apesar dos preços elevados, a tradição fala mais alto. A camareira Marcília, 52, foi ao Mercadão exclusivamente para garantir o ingrediente principal e saiu com 1,5 kg de bacalhau para o feriado. O comerciante Andonios Scambilles, 52, afirma que essa é a essência do período de Páscoa. “Bacalhau, azeite e azeitona, são os itens mais procurados”, diz.
Alguns consumidores também passaram a antecipar as compras ou migrar para opções mais baratas. Entre as alternativas nos mercados, havia filé de tilápia a partir de R$ 21,90 (800g), filé de panga por R$ 19,90 (500g), filé de polaca por R$ 16,90 (500g) e sardinha congelada por R$ 12,90 (800g).
EMPRESAS
Do lado das empresas, a leitura é de estabilidade no comportamento do consumidor. Na Cacau Show, as vendas seguem padrão semelhante ao de anos anteriores, com crescimento de cerca de 14% puxado pelo aumento no número de consumidores, enquanto o valor médio gasto por compra se mantém próximo do registrado anteriormente.
A companhia também aponta maior procura por itens presenteáveis, especialmente os que incluem brindes, que já respondem por cerca de um terço das vendas de Páscoa.
Na unidade da loja no Shopping Morumbi, na zona sul, os produtos voltados para crianças lideram as vendas. A empresa informou que, mais uma vez, um dos ovos licenciados do desenho Ursinhos Carinhosos está esgotando na rede. Além disso, foram vendidos todos os ovos de um dos personagens da franquia de Harry Potter.
A gerente de treinamento Patrícia Moreali, 45 foi à loja para comprar chocolates para dar de presente. O filho pediu o ovo temático do personagem Bob Esponja. Antes de ir à Cacau Show, visitou outras duas lojas de chocolates. Em cada uma fez compras específicas, atendendo a pedidos de parentes.
Quanto aos preços, Moreali diz que acha que um aumento pode ter ocorrido, mas não viu muita diferença em relação a 2025. No entanto, entende que as lojas especializadas em chocolates são sempre mais caras do que o resto. Como os pedidos do filho guiam as compras de Páscoa, ela diz não ter muita alternativa.
Segundo Daniel Roque, vice-presidente de negócios da Cacau Show, a alta do cacau ainda impacta o setor, embora haja sinais de estabilização. Ele afirma que, após um período mais conturbado, a companhia revisou processos internos para ganhar eficiência e reduzir pressões de custo.
Segundo o IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15), os preços do chocolate em barra e dos bombons subiram 24,87% nos 12 meses encerrados em março.
Roque diz que não foi possível evitar completamente os impactos, já que o cacau é insumo essencial para a produção de chocolate. De acordo com o executivo, os preços da matéria-prima já recuaram em relação ao pico observado entre o fim de 2023 e o início de 2024, mas ainda não voltaram aos níveis anteriores.
A expectativa, segundo ele, é de melhora mais significativa nos resultados apenas a partir do próximo ano, à medida que contratos mais caros forem substituídos e o mercado encontre um novo patamar de estabilidade
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