Socorrista narra ‘desastre colossal’ na Venezuela e encontra corpos de família abraçada um mês após terremotos

"Tenho a sensação de estar diante de uma das maiores tragédias do século 21", afirmou o major Roni Kaplan, do Exército de Israel, em entrevista à Folha de S. Paulo

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Socorrista narra 'desastre colossal' na Venezuela e encontra corpos de família abraçada um mês após terremotos
Major Roni Kaplan, da equipe do Exército de Israel enviada à Venezuela, descreve a situação como um “desastre colossal”. (Imagem: Reprodução/Instagram)

MANOELLA SMITH

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O major Roni Kaplan, um dos integrantes da equipe do Exército de Israel enviada à Venezuela para ajudar nos esforços humanitários após os terremotos que atingiram o país, descreve a situação em La Guaira, a região mais afetada pelo desastre, como um “desastre colossal”.

“Nunca vi nada parecido. Tenho a sensação de estar diante de uma das maiores tragédias do século 21”, afirma à Folha, em entrevista realizada por telefone nesta quinta-feira (23), no último dia da missão israelense no país.

Israel deslocou uma equipe de 64 pessoas, apesar de as relações diplomáticas com a Venezuela estarem rompidas desde 2009. A ação fez parte de um movimento de solidariedade internacional em que diversos países, entre eles o Brasil, enviaram ajuda.

Um mês após o duplo terremoto, o trabalho das equipes tem sido voltado aos desafios estruturais. “Já estamos vivendo uma transição praticamente completa das operações de resgate para a fase de reconstrução, juntamente com grandes operações de remoção de escombros utilizando maquinário pesado”, diz Kaplan.

“Avaliamos a segurança estrutural das edificações, estabelecemos prioridades para a reconstrução e, em muitos casos, impedimos o acesso a estruturas perigosas. Ao mesmo tempo, possibilitamos o retorno seguro da população aos prédios considerados habitáveis.”

A equipe atua em conjunto com engenheiros e autoridades da ditadura venezuelana. Além das inspeções técnicas, conta Kaplan, os militares israelenses também treinaram e capacitaram profissionais locais em técnicas de demolição segura, reforço estrutural e reconstrução.

Os israelenses trabalham em conjunto com as forças venezuelanas e, segundo o major, são a última delegação internacional no país. Embora as buscas por sobreviventes já tenham sido encerradas, as equipes ainda encontram corpos sob os escombros.

Na quarta-feira (22), a equipe de Kaplan retirou os corpos de uma família encontrada entre o primeiro e o segundo andar de um edifício na região de Caraballeda, no estado de La Guaira. Segundo o major, a operação exigiu uma demolição controlada da estrutura para permitir a remoção.

“Quando encontramos a família, o pai, de 41 anos, estava abraçado à mãe, também de 41 anos. Entre eles estava o filho, um menino de nove anos. Os dois estavam abraçando a criança, como se estivessem protegendo o filho. A avó, de 67 anos, estava a poucos metros dali.”

“Isso é muito importante para nós, como povo de Israel, mas acho que para qualquer sociedade também. É fundamental preservar a dignidade do sepultamento e honrar a memória daqueles que morreram”, diz Kaplan, que é porta-voz das Forças Armadas de Israel em língua espanhola.

O major afirma que a destruição encontrada em La Guaira superou todas as experiências anteriores da delegação, que já atuou em missões internacionais em cinco continentes. Alguns integrantes da equipe, inclusive, auxiliaram nos trabalhos de busca após o rompimento da barragem em Brumadinho (MG).

“Vimos regiões completamente devastadas, pessoas que perderam absolutamente tudo. Nesses momentos, o mais importante não é apenas a experiência dos profissionais, o conhecimento técnico ou a tecnologia. O mais importante é a sensibilidade humana.”

Questionado sobre como a equipe faz para lidar com a carga emocional do trabalho, Kaplan fica alguns segundos em silêncio antes de responder. “É difícil. Todas as tardes e noites fazemos conversas entre a equipe, uma espécie de briefing, em que cada um compartilha aquilo que viveu durante o dia.”

No total, a missão durou 24 dias, a mais longa do tipo na história do Exército israelense, segundo Kaplan. O major permaneceu dez dias em território venezuelano.

Para ele, o sucesso da missão não deve ser medido apenas pelo trabalho durante a permanência da equipe na Venezuela, mas, principalmente, pela capacidade de as autoridades locais darem continuidade à reconstrução de forma autônoma, depois que todas as delegações internacionais tenham deixado o país.

A equipe israelense entregou às autoridades venezuelanas um sistema desenvolvido em Israel para apoiar as decisões sobre a reconstrução.

Segundo Kaplan, o software utiliza big data para classificar os edifícios conforme o grau de risco, indicando quais podem ser imediatamente ocupados, quais precisam de novas inspeções e quais exigem reforço estrutural ou demolição.

Ele afirma que a ferramenta foi pensada para auxiliar as autoridades em um cenário de recursos limitados, permitindo definir prioridades para o uso de equipes e equipamentos. “É claro que reconstruir uma região devastada como essa é um trabalho que levará anos.”

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