Conservadorismo ficou mais forte entre jovens, analisa ex-deputado goiano que ajudou a escrever a Constituição Federal
Aldo Arantes argumentou que uso estratégico das redes sociais e adequação dos discursos políticos ao público podem ser essenciais para combater o negacionismo

As ideias conservadoras têm crescido entre a juventude brasileira, e em Goiás não é diferente. É isso que defende Aldo Arantes (PCdoB), ex-deputado federal anapolino que esteve presente durante o desenvolvimento da Constituição Federal, em 1988.
Em entrevista ao Portal 6, o político relembrou alguns pontos da trajetória política e comparou como o perfil dos jovens brasileiros tem mudado ao longo do tempo, tomando como base a época da Carta Magna.
“A Constituição brasileira é uma das mais avançadas do mundo, quando se compara direitos humanos, sociais, ambientais, direito indígena e da mulher. Então é extremamente ampla e profundamente democrática”, pontua.
Mas, para isso, alguns elementos foram necessários. Ele considera essenciais o alto nível de mobilização, com milhões de assinaturas em algumas emendas populares, e também a presença física das pessoas em frente única, que “fez com que houvesse uma pressão grande”.
Aldo destaca que o documento de 1988 – que segue válido até hoje – era chamado de Constituição Social, por “tratar de interesses humanos”. Apesar disso, argumenta que o viés da Carta tem passado por mudanças.
“Hoje em dia, o mercado quer exatamente impor a Constituição para o mercado, o que significa negar os direitos econômicos e sociais que estão contidos [ali]”. E continua: “acho que há uma ofensiva para negar a construção social e afirmar a construção capital”.
Mudança entre os jovens
O pré-candidato ao Senado pela Federação Brasil da Esperança (bloco formado entre PCdoB, PT e PV) defende que um dos fatores que fizeram com que as ideias conservadoras crescessem entre a juventude foi a guerra cultural, por meio de uma luta ideológica.
O conceito se baseia no conflito entre valores morais, costumes e visões de mundo – em outras palavras, é o que divide os grupos conservadores e progressistas.
Aldo considera que o processo começou em outros países (como os Estados Unidos) e, desde a década de 1940, tem sido popularizado no Brasil. Ele destaca dois elementos usados nesses discursos.
Primeiro, pontua que “nos dias atuais, a luta ideológica se dá mais no terreno da emoção do que na razão”, mas também destaca que “um componente importante é a utilização da religião como instrumento de manipulação política”.
O ex-deputado explica que o processo tem se intensificado, ainda, com o crescimento do negacionismo: “negar todas as ideias progressistas, a ciência, história, probabilidade dos fatos”.
Para ilustrar, uma pesquisa DataFolha apontou que a parcela de brasileiros que negam o risco das mudanças climáticas cresceu de 5% em junho de 2024 para 7% em outubro do mesmo ano e, depois, para 9% em abril de 2025.
Papel das redes sociais
Nesse cenário de mudança, ainda pesa o papel das redes sociais. Se sempre foi importante “trabalhar na base”, como diz Aldo, entender o espaço ocupado pelos jovens atualmente também se torna essencial.
A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, que estuda o uso da internet por crianças e adolescentes no país, apontou que 93% da população de nove a 17 anos estava no ambiente digital.
O número equivalia a cerca de 25 milhões de crianças e adolescentes. Além disso, 23% relataram que tiveram o primeiro acesso à internet até os seis anos de idade. Em 2015, esse dado era de 11%, o que reforça a inserção da “base” nesse meio.
Para o político, as redes sociais serão fundamentais para definir os resultados das eleições presidenciais de 2026. “Temos que exatamente nos apropriar dessas novas ferramentas”, defende.
Resgatando o tema da luta ideológica e da guerra cultural, Aldo diz que o processo se acelerou com o surgimento e popularização das redes sociais, sobretudo quando deixaram de ser utilizadas somente para venda de produtos.
“O algoritmo seleciona as tendências das pessoas para venda de produtos. E o que eles fizeram foi transferir isso para dentro da política”, explica. É como se ficasse mais fácil convencer um jovem a adotar um ou outro posicionamento por meio desse recurso.
Para complementar a estratégia, Aldo acredita que é preciso adequar os discursos de acordo com o público que os escuta. E avalia: “a esquerda durante muito tempo fez um discurso que era praticamente o mesmo para estudante, professor, dona de casa… acho que nós agora estamos tomando consciência da importância dessa questão”.
História de militância
Parlamentar por quatro mandatos e natural de Anápolis (ainda mantendo forte ligação com a cidade), Aldo começou a trajetória política por meio da representação estudantil, na década de 1960.
Desde então, o advogado por formação foi presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), participou da movimentação para garantir a posse do vice-presidente João Goulart após Jânio Quadros renunciar, e enfrentou a ditadura militar.
Ele precisou se exilar no Uruguai, viveu na clandestinidade por anos e chegou a ser preso, passando por torturas no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Nesta quarta-feira (29), Aldo relança o livro “Alma em Fogo: Memórias de um Militante Político”, onde detalha algumas das memórias acumuladas ao longo de sua trajetória política. O evento acontece às 18h30, na Livraria Palavrear, em Goiânia.
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