“Sextou”

Todos os dias deveriam ser vividos com intensidade e gratidão, pois o nosso propósito final é “cuidar do paraíso”

Pedro Sahium Pedro Sahium -
"sextou"
(Foto: Magnific (formerly Freepik) | The AI Creative Platform)

A expressão “sextou!!” é nova. Muitas pessoas a anunciam a plenos pulmões. Anunciam que o tempo ordinário está suspenso e elas, agora, se dedicarão ao que realmente interessa, ao que será proveitoso.

No judaísmo e no adventismo do sétimo dia, o “sextou!” tem um significado especial. Os fiéis vão em busca da transcendência. Serão feitas leituras dos textos sagrados, serão celebrados cultos e se farão orações. Os fiéis vão pedir “saúde, riqueza e vida longa”, como disse o pensador Max Weber. Esse “combo” faz sentido, pois de que adianta saúde se não tiver riqueza? E de que adianta riqueza sem vida longa?

Para alguns, o “sextou!” anuncia o início de um fim de semana etílico. A alegria que se busca tem as marcas do deus Baco, apaixonado pela cultura da vinha. O “sextou!” vem acompanhado de um copo cheio ou taça cheia. Afinal, desde a Grécia antiga de Dionísio (Baco para os Romanos), a intoxicação alcoólica fazia a ponte entre os fiéis e sua divindade, dando sentido à vida. Nos dias atuais, sem Baco e Dionísio e sem que o percebamos, o sagrado se camufla no profano.

As datações respondem às demandas humanas. Os calendários se relacionam com formas mais amplas de sociedade. “Calendários mostram aspectos fundamentais da vida social, são princípios organizadores da experiência humana, um componente constitutivo da cultura e das visões de mundo”, afirma o historiador João Paulo Pimenta (2021). O “sextou!” responde à necessidades humanas.

Me parece que a vida só está valendo a pena após a chegada do “Sextou!”. O trabalho não é o tempo da criatividade, da consciência e da realização; o trabalho, além de precarizado, é sentido como castigo, peso, “ralação”, labor – do latim labor: esforço, fadiga, trabalho árduo. O trabalhador sente a “realização da vida” apenas num curto espaço de dias. O que impera atualmente é “o tempo mecânico, econômico, laboral e tecnológico que a tudo submete”.

Em épocas passadas, o tempo era formulado numa perspectiva teológica, e seu mau uso era um pecado cometido contra Deus ou contra os deuses. Hoje, diz Pimenta, “o pecado é outro: não acelerar, não produzir, não lucrar, não empreender”.

Meu filho me disse que cumpriu as metas estabelecidas pela empresa em que trabalha. “Foi um êxito vivido individual e coletivamente”, disse-me ele. Agora, prestem atenção na dureza de aço dessa dinâmica escalar do capitalismo, de acordo com o sociólogo Hartmut Rosa:

“(…) não importa com quanto êxito, individual e coletivamente, vivemos, trabalhamos e nos orientamos economicamente neste ano; no próximo ano, para mantermos nosso lugar no mundo, devemos ser melhores, mais velozes, eficientes e inovadores – e, no seguinte, coloca-se o nível ainda um pouco mais acima […]. Aqui se manifesta, de forma especialmente impressionante, a irracionalidade da moderna lógica escalar, que se assemelha a um ‘correr às cegas’: os esforços de hoje não significam um alívio duradouro amanhã, antes uma dificuldade e uma agudização do problema”.

O “sextou!” significa uma vida pobre, marcada pela exploração e pelo empobrecimento, e esconde aquilo que não queremos aceitar: a vida pequena à qual fomos submetidos ou à qual nos submetemos.

Todos os dias deveriam ser vividos com intensidade e gratidão, pois o nosso propósito final é “cuidar do paraíso”. Para que isso ocorra, Gaia deve ser vista como a nossa “casa comum”.

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Pedro Sahium

Pedro Sahium

Pedro Sahium é professor da UEG. Doutor em Ciências da Religião pela PUC Goiás, também foi prefeito e vereador em Anápolis. Escreve todas as segundas-feiras.

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