Conheça o refúgio goiano cercado por natureza e cachoeiras de águas cristalinas

Entre serras, estradas de terra e um ritmo que convida à pausa, Cavalcante revela um lado de Goiás que parece desacelerar o relógio

Leticia Teixeira Leticia Teixeira -
Conheça o refúgio goiano cercado por natureza e cachoeiras de águas cristalinas
(Imagem: Divulgação)

Há lugares em que o celular parece pedir atenção o tempo inteiro. Em Cavalcante, acontece o contrário. Basta o horizonte ganhar espaço, as serras aparecerem, cachoeiras passarem a surgir pelo caminho e o Cerrado tomar conta da paisagem para aquela conferida automática na tela começar a perder a graça.

A cidade fica no Norte da Chapada dos Veadeiros, a cerca de 500 km de Goiânia, 300 km de Brasília e 90 km de Alto Paraíso de Goiás. Quem chega encontra uma sede pequena diante de um território enorme: o município tem quase 7 mil km² e população estimada em menos de 10 mil habitantes.

Talvez essa combinação ajude a explicar a sensação de espaço que acompanha a viagem. Há estrada, montanha, vegetação e céu sobrando. A pressa, por outro lado, parece ter ficado algumas curvas atrás.

Cavalcante também está profundamente ligada ao Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Pelos dados do ICMBio, quase um terço da área da unidade de conservação está dentro do município. É uma relação fácil de perceber quando paredões, campos de Cerrado, vales e cursos d’água começam a dominar o caminho.

E é justamente a água que transforma a paisagem.

Quando o azul aparece

A descoberta mais famosa costuma acontecer no território Kalunga, no povoado Engenho II. É ali que fica a Cachoeira Santa Bárbara, cuja queda de cerca de 28 metros termina em um poço de água azul-turquesa tão transparente que a primeira reação de muita gente é desconfiar da própria vista.

O acesso ao atrativo é controlado e feito com acompanhamento obrigatório de guia Kalunga. Mais do que uma regra, isso coloca o visitante diante de outra parte fundamental de Cavalcante: a presença de uma das maiores populações quilombolas do país.

E Santa Bárbara está longe de encerrar o assunto.

Também no Engenho II, a Cachoeira da Capivara oferece uma paisagem diferente. Ali, os rios Tiririca e Capivara se encontram entre pedras e formam duas cachoeiras, além de um poço cercado pela vegetação. O acesso final é por uma trilha relativamente curta, embora tenha trecho de descida sobre pedras.

É o tipo de lugar em que olhar o relógio parece uma tarefa um pouco absurda.

Para quem quer gastar a sola do tênis

Cavalcante também sabe exigir algum esforço antes de entregar a recompensa.

No Complexo do Prata, por exemplo, o caminho completo de ida e volta chega a cerca de 14 km. Durante o percurso, o cenário alterna quedas d’água, piscinas naturais, cânions, mirantes e formações rochosas.

vale de marte

(Imagem: Divulgação)

Entre elas está o Vale de Marte, onde o rio passa por rochas de formatos curiosos e pequenas cavidades naturais. Dependendo da luz, tons mais avermelhados aparecem entre o cinza das pedras. O nome pode soar exagerado até o visitante chegar lá.

Outro cenário bem diferente surge na Ponte de Pedra. Em vez de um grande poço colorido como protagonista, a surpresa é uma formação rochosa natural sobre o Rio São Domingos. Para alcançá-la, há uma trilha de aproximadamente 5,5 km e um trecho de subida mais puxado.

Ou seja: tênis limpo e Cavalcante dificilmente serão amigos por muito tempo.

Mas nem todo passeio precisa virar prova de resistência. Na Cachoeira São Félix, uma caminhada curta leva a uma faixa de areia e a áreas de água mais rasa. É uma possibilidade para quem prefere passar mais tempo parado diante do rio do que contando quilômetros no aplicativo.

Uma cidade que começou bem antes do turismo

As cachoeiras hoje dominam as fotografias, mas Cavalcante não nasceu em torno delas.

A história do município remonta ao século XVIII, quando garimpeiros chegaram à região atrás de ouro. A primeira incursão registrada no território ocorreu em 1736, e o arraial de Cavalcante foi estabelecido poucos anos depois, durante o avanço da mineração pelo interior goiano.

Séculos mais tarde, outro elemento ajuda a entender a cidade. Dos 9.583 moradores registrados pelo Censo de 2022, 5.470 eram quilombolas. A presença Kalunga, portanto, não é um detalhe turístico na paisagem: ela faz parte da própria composição de Cavalcante.

O território quilombola se estende por Cavalcante e municípios vizinhos, enquanto comunidades como Engenho II participam diretamente da visitação de alguns dos atrativos naturais mais conhecidos da região.

Na sede, pousadas, campings, restaurantes e pequenos negócios ligados ao turismo servem de ponto de apoio entre um passeio e outro. O ritmo continua sendo de cidade pequena. Depois de um dia de trilha, isso deixa de parecer falta de movimento e começa a soar como vantagem.

Talvez esse seja um dos maiores atrativos de Cavalcante: não existe obrigação de transformar a viagem numa corrida para conhecer tudo.

É possível atravessar quilômetros de Cerrado atrás de cachoeiras, encarar pedras e subidas ou simplesmente escolher um lugar tranquilo, entrar na água e ficar por ali. O município comporta as duas versões.

No fim, Cavalcante não precisa convencer ninguém com grandes estruturas ou atrações artificiais. O espetáculo já estava montado muito antes de qualquer visitante aparecer: rios cortando serras, paredões de pedra, vegetação nativa e piscinas naturais onde a transparência da água parece brincar com a profundidade.

O desafio talvez seja outro: lembrar de tirar o celular do bolso antes de ir embora.

Siga o Portal 6 no Google News e fique por dentro de tudo!

Leticia Teixeira

Leticia Teixeira

Estudante de Jornalismo e estagiária do Portal 6, é curiosa, apaixonada por comunicação e está sempre em busca de aprender, observar e contar boas histórias.

Você tem WhatsApp ou Telegram? É só entrar em um dos grupos do Portal 6 para receber, em primeira mão, nossas principais notícias e reportagens. Basta clicar aqui e escolher.

+ Notícias