O que está faltando?

Não se deixe desumanizar pelo discurso antievangélico pregado por essa gente. Se a sua religião tenta ficar entre você e o próximo, fique com o próximo

Pedro Sahium Pedro Sahium -
O que está faltando?
(Foto: Reprodução)

Somos seres desejantes. Somos seres incompletos. O sistema capitalista explora isso. O sociólogo Zygmunt Bauman foi além: o sistema se especializou em produzir desejos — “um desejo que deseja o desejo e não a satisfação”. Claro. A satisfação encerraria a busca permanente pelo novo “produto de sentido” vendido pelo mercado.

Viciamo-nos em dopamina, uma substância produzida pelo cérebro que participa do prazer, da motivação e do sistema de recompensa. Ao rolar o feed infinito das plataformas digitais, somos bombardeados por novidades.

Por alguns segundos, experimentamos uma satisfação que logo desaparece. Então buscamos a próxima imagem, o próximo vídeo, a próxima novidade.

“A novidade é o princípio do gozo”, dizia Freud.

O povo quer o show, o espetáculo, os leões devorando os “condenados”.

Recentemente, colocaram-me em um grupo de WhatsApp com mais de cem pessoas. A maioria se identifica como conservadores nos costumes e liberais na economia. Minha surpresa se deu ao ler algumas mensagens:

“Gente pobre é preguiçosa”, “O ex-presidente B. não deu um golpe porque foi covarde”. “Votarei em quem tem coragem de dar um golpe”. “Votarei até em estuprador para derrotar o L.”.

Algumas dessas pessoas eu já havia encontrado na igreja e outros eventos da sociedade. Eu penso que são pessoas boas. Mas percebo que a bondade delas não consegue ultrapassar as fronteiras da classe, da religião, da família e daqueles que eles consideram seus ‘iguais’.

O que está faltando é uma bondade que vá além, e que trate pobres, imigrantes, adversários políticos e membros de outra comunidade de fé, com respeito e acolhimento.

A declaração “profética” da autoproclamada bispa Sônia Hernandes, da Igreja Renascer, feita de cima de um trio elétrico durante uma manifestação conservadora na Avenida Paulista, em São Paulo, na semana passada, aumentou ainda mais minha preocupação:

“As trevas não vão ocupar cargo de autoridade nesse país”, esbravejou a bispa diante da multidão.

Qual será o próximo passo dessa gente devota? Eles são devotos de quem? O que essa ideologia está fazendo na cabeça de pessoas simples que entregam sua vida e sua confiança nas mãos dessas lideranças?

Por favor, não me entendam mal. Os evangélicos que conheço e convivo são pessoas do bem, tentam honestamente seguir a compaixão de Jesus. Mas no Brasil atual existe um núcleo de “apóstolos”, “bispos” e “bispas”, pastores e missionários que buscam o poder acima de tudo e o dinheiro acima de todos. Esse núcleo tenta por todos os meios conquistar o poder político.

Mas que imagem do evangelho estão oferecendo àqueles que não são cristãos?

Seremos conhecidos pelo amor? Com discursos estridentes de ódio?

O que está faltando para muita gente boa é uma mudança interna, do fundo d’alma, do coração que entendeu a mensagem do Evangelho e sabe que conquistar o poder político absoluto, como o quer essa liderança religiosa ao estilo bispa Sônia Hernandes, significa se corromper absolutamente.

Percebi, naquele grupo de WhatsApp, que o ódio, quando não é confrontado, contamina. Infelizmente muitos daqueles que lá estão se incapacitam para o diálogo necessário à busca da verdade. Estão se desumanizando.

Não se deixe desumanizar pelo discurso antievangélico pregado por essa gente. Se a sua religião tenta ficar entre você e o próximo, fique com o próximo.

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Pedro Sahium

Pedro Sahium

Pedro Sahium é professor da UEG. Doutor em Ciências da Religião pela PUC Goiás, também foi prefeito e vereador em Anápolis. Escreve todas as segundas-feiras.

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