Deus, Pátria e Família
Continuo acreditando que Deus, conhecido pela vida e pelas ações de Jesus, se conecta com a reconciliação, o acolhimento, a convivência justa e solidária

Precisamos ter cuidado com os slogans. Slogans, palavras de ordem, frases de efeito e gritos de guerra: todas essas expressões apontam para artigos de propaganda, mas também podem expressar algo mais profundo.
“Tem 1001 utilidades”, “Todo mundo usa”, “Just do it”, “Viver sem fronteiras”. Slogans ajudam a fixar uma marca qualquer. Quanto ao lema “Deus, Pátria e Família”, porém, a questão é mais grave. Seu uso, hoje, implica uma disputa pelo poder político. O que querem, ao capturar esses símbolos, é produzir adesão, concordância, apoio irrestrito e irreflexivo.
Quem não quer ser “de Deus”? Quem não quer valorizar a pátria? Quem, em sã consciência, seria contra a formação da família? Dito de outra forma: quem quer ser “do diabo”? Quem quer ser traidor da pátria? Quem não aprova uma união harmoniosa entre pais, filhos e descendentes?
O slogan trata com símbolos poderosos: “Deus”: pai, criador, sustentador do universo, princípio e fim de todas as coisas visíveis e invisíveis; “Pátria”: mãe, geradora, que dá sentido e identidade à vida; “Família”: fonte de toda lealdade, primeira célula e ordenadora da vida em sociedade. Símbolos mexem por dentro da gente.
Precisamos ter cuidado. Aqueles que usam os símbolos “Deus, Pátria e Família” em disputas políticas de poder querem anunciar aos ouvidos do espírito, mais do que aos ouvidos físicos, que possuem uma ligação implícita com “aquilo” que anunciam. Mas o real pode ser diferente.
O “Deus” de quem usa o slogan é aquele que acolhe os indesejáveis? É aquele que recebe com alegria os pobres? Que cuida da viúva e do órfão? Que dá pão ao que tem fome?
E a “Pátria” deles, qual é? É a que atende ao interesse da maioria necessitada? É a que se preocupa em educar as suas crianças e dar teto a quem vive no aluguel ou debaixo de uma lona?
A “Família” é aquela que trata as mulheres com igualdade? Que dá oportunidade àqueles que pensam, sentem e agem de maneira diferente deles em relação ao amor que sentem?
Com raízes fincadas no tradicionalismo cristão, “Deus, Pátria e Família” foi o slogan do fascismo italiano do ditador Mussolini. E os fascismos, no plural — nazismo, hitlerismo, salazarismo, franquismo e nacional-socialismo — eram movimentos de extrema direita e ficaram conhecidos por suas práticas e consequências: a Segunda Guerra Mundial, os campos de extermínio, Auschwitz e o Holocausto.
Discordar de quem capturou os símbolos “Deus, Pátria e Família” não é apenas, para eles, um erro; é também um pecado. “Nós não gostamos mais de você!”, disse-me um antigo conhecido da Igreja Presbiteriana, defensor do “Deus, Pátria e Família”, ao saber que eu era “de esquerda” — sabe-se lá o que eles pensam sobre ser “de esquerda”.
Parece que existe uma imagem primordial em nosso peito, que nos encanta, hipnotiza… e engana. Os símbolos produzem, antes de tudo, sentimentos. Desconfio que “Deus, Pátria e Família” tenha produzido sentimentos de obediência irracional, de ódio, de adesão acrítica e de uma estupidez sincera.
Continuo acreditando que Deus, conhecido pela vida e pelas ações de Jesus, se conecta com a reconciliação, o acolhimento, a convivência justa e solidária, uma vida saudável e feliz para todos. Nesse Deus, e por Ele, vivemos e nos movemos.
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