Bolos ‘feios’ fazem sucesso nas redes e mudam rotina de confeiteira
Bolos propositalmente “feios” viraram negócio nas redes sociais e fizeram confeiteira quase dobrar o número de encomendas em poucas semanas

ADRIELLY SOUZA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – À primeira vista, os bolos de Mariana Neves, 31, parecem ter dado errado. Há coberturas coloridas, personagens deformados, desenhos desproporcionais e referências feitas de propósito para não parecerem exatamente com o que deveriam.
É justamente aí que está a graça — e o negócio. Batizada de Bolos Feios da Mari, a confeiteira de São Paulo ganhou repercussão nas redes sociais e viu sua vida mudar em poucos dias.
Ela trabalhava com marketing e começou a fazer bolos durante a pandemia, quando passou a testar receitas e preparar comidas para amigos. A ideia de transformar a confeitaria em negócio, porém, não existia. O primeiro bolo temático surgiu para o então marido, inspirado no meme do Lula Molusco após uma suposta harmonização facial.
“Eu nunca trabalhei com bolos, muito pelo contrário, eu era péssima. Mas, na pandemia, aprendi a fazer várias comidinhas, inclusive bolos. Testei um bolo temático de aniversário que ficou feio, mas engraçado”, conta. “Todos os meus amigos gostaram e começaram a pedir.”
A partir daí, Mariana passou a presentear amigos com os bolos até começar a cobrar pelas encomendas. O conceito também foi se consolidando: ela nunca teve a pretensão de reproduzir personagens ou imagens com perfeição. A proposta era justamente criar algo divertido.
“A ideia era apenas me divertir e divertir os amigos aniversariantes. Nunca prometi entregar algo bonito ou realista. Fiz um curso para poder entregar bolos gostosos pelo menos, mas sigo na ideia de que tem que ser divertido”, afirma.
O diferencial acabou se tornando também uma estratégia. Segundo Mariana, a aparência inesperada dos bolos faz com que os clientes cheguem com expectativas diferentes em relação ao sabor.
“Quando o cliente vê um bolo feio, ele não espera que seja gostoso, porque a feiura do bolo gera um impacto. E, quando eles comem, amam o sabor, não por eu ser uma ótima confeiteira, mas porque eu reduzi as expectativas, já que a gente começa a comer com os olhos”, diz.
A confeiteira também aposta na personalização para fidelizar os clientes. Os pedidos podem levar referências pessoais, características do aniversariante e até o próprio rosto de quem vai receber o bolo.
“Quem não gosta de se sentir importante e querido? Eles sabem que, na Bolos Feios, as referências e preferências deles importam. Se tem um dia para se sentir especial, esse dia é o seu aniversário, e eu entrego isso através de bolos personalizados”, afirma.
Até pouco tempo, Mariana produzia entre quatro e cinco bolos por semana. O quilo custa R$ 150, mas ela já considera abandonar a cobrança baseada no peso para estabelecer o preço de acordo com a complexidade e a arte de cada encomenda.
A mudança de planos ganhou urgência depois que uma publicação no X reuniu capturas de telas dos trabalhos da confeiteira e ajudou a levar o perfil para um público maior. Mariana diz que ficou surpresa com a repercussão e com o tipo de público que chegou à página.
“Eu fiquei assustada com a repercussão do post. Ele me mostrou que atraí o melhor público possível e que dá para viver disso”, afirma.
A demanda aumentou 90%. De 4 ou 5 encomendas semanais, Mariana passou a receber cerca de 10. A agenda de setembro e da primeira semana de outubro já está preenchida. Para conseguir acompanhar a procura, precisou contratar duas pessoas para ajudar na logística e nas redes sociais.
O crescimento, porém, trouxe uma questão que ela não esperava enfrentar tão cedo: como transformar a brincadeira em um negócio sustentável sem perder o controle da própria rotina.
“Por enquanto, minha empresa está engatinhando. Eu sou a única responsável pela produção, mas tenho dois colaboradores extremamente competentes na logística. Pretendo expandir e otimizar a produção porque não confio que darei conta de produzir sozinha”, diz.
Mariana afirma que ainda quer manter os preços acessíveis, mas admite que o aumento da demanda também trouxe cansaço. Uma das possibilidades é reduzir a quantidade de encomendas e tornar os bolos mais exclusivos.
“Eu sou uma bomba-relógio segurando um empreendimento com muito potencial nas mãos. Não vou abrir mão dele, mas algo vai mudar em algum momento”, avalia.
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