Brasileiros descobrem que eram ‘presidentes da República’ ao consultar a Carteira de Trabalho Digital
Erro nos registros profissionais surpreendeu trabalhadores de diferentes estados e chegou a provocar problemas com benefícios

Imagine abrir a Carteira de Trabalho Digital para conferir seus empregos anteriores e descobrir que, segundo os registros do governo, você já ocupou o cargo mais importante do Brasil: o de presidente da República.
Por mais absurda que pareça, a situação aconteceu com brasileiros de diferentes estados, que encontraram a função de chefe do Executivo federal registrada em seus históricos profissionais.
O caso voltou a chamar atenção após o podcast Rádio Novelo Apresenta publicar, em outubro de 2026, o episódio Horário eleitoral gratuito, dedicado a investigar essas histórias.
A produção mostrou como erros administrativos transformaram professores, trabalhadores de empresas privadas e servidores públicos em supostos presidentes da República.
Em alguns casos, os registros incorretos permaneceram nos sistemas oficiais por mais de duas décadas, sem que os próprios trabalhadores soubessem.
Técnica de enfermagem descobriu que era presidente havia 24 anos
Um dos casos mais curiosos aconteceu em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife, em Pernambuco.
A técnica de enfermagem Aldenize Ferreira da Silva procurava emprego quando descobriu que estava registrada como presidente da República desde 14 de março de 2002.
Na realidade, ela havia trabalhado como merendeira para a prefeitura entre 2000 e 2002. Entretanto, o sistema indicava que seu vínculo como chefe de Estado continuava aberto.
A trabalhadora ficou surpresa com a descoberta e passou a suspeitar que o erro pudesse estar dificultando sua contratação em novos empregos.
A situação ganhou repercussão em maio de 2026 e levou outras mulheres da região a identificarem registros semelhantes.
E o problema não ficou restrito a Pernambuco.
No Espírito Santo, uma mulher chegou a ter o auxílio emergencial negado em 2020 porque aparecia com dois vínculos de trabalho ativos. Em um deles, também constava a função de presidente da República.
Já o ex-prefeito de Cachoeiro de Itapemirim, Victor Coelho, descobriu que a carteira digital o identificava como presidente da República durante os oito anos em que administrou a cidade.
Como brasileiros acabaram registrados como presidentes da República?
A explicação está em um erro no preenchimento dos dados trabalhistas.
Cada ocupação brasileira possui um código específico na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), utilizada para identificar as atividades profissionais.
O código 1112-05, por exemplo, corresponde justamente ao cargo de presidente da República.
Por isso, quando uma empresa ou órgão público informava o código incorreto, o trabalhador poderia aparecer nos sistemas oficiais com uma profissão completamente diferente daquela que realmente exercia.
Além disso, a criação da Carteira de Trabalho Digital tornou esses registros antigos mais acessíveis, permitindo que as pessoas identificassem erros que passaram anos despercebidos.
Um levantamento divulgado pelo g1 em maio de 2026 identificou 19 vínculos ativos de presidentes e vice-presidentes da República ao final de 2024, distribuídos entre diferentes empregadores.
A Rádio Novelo também investigou a situação e entrevistou cinco brasileiros atingidos pelo problema. Durante o episódio, os participantes foram convidados a imaginar como governariam o país caso realmente ocupassem a Presidência.
O que fazer ao descobrir um cargo errado na Carteira de Trabalho Digital?
Apesar do caráter curioso, os registros incorretos merecem atenção, principalmente quando apresentam vínculos antigos que continuam abertos e podem provocar dificuldades no acesso a benefícios trabalhistas ou previdenciários.
Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, o procedimento para corrigir as informações depende da época em que o contrato foi registrado.
Se o erro estiver relacionado a um vínculo posterior a setembro de 2019, o trabalhador deve procurar o empregador e solicitar a correção dos dados enviados ao eSocial.
Para contratos mais antigos, algumas inconsistências podem ser corrigidas automaticamente. Também é possível buscar a atualização das informações no Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS), por meio dos canais do INSS, conforme o caso.
Por isso, vale consultar o histórico profissional periodicamente, conferir as datas de admissão e desligamento e verificar se as ocupações registradas correspondem às atividades realmente exercidas.
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