Peixes cegos vivem em águas subterrâneas de Goiás e uma das espécies recebeu o nome de um morador da região
Escondida em um ambiente onde a luz praticamente não chega, uma história une evolução, cavernas e a contribuição de quem conhece a região desde criança

Debaixo do solo do Nordeste goiano existe um ambiente tão diferente da superfície que alguns animais passaram gerações vivendo praticamente sem contato com a luz.
Entre eles estão pequenos peixes subterrâneos encontrados nas cavernas de Terra Ronca, em São Domingos.
Alguns apresentam olhos extremamente reduzidos ou até ausentes, além de pouca pigmentação. São características associadas à adaptação à vida em ambientes permanentemente escuros.
Uma dessas espécies carrega ainda uma história humana no próprio nome científico: Ituglanis ramiroi.
O peixe vive na Caverna São Bernardo e foi descrito cientificamente em 2004. O catálogo atualizado da Academia de Ciências da Califórnia reconhece a espécie como válida e registra sua ocorrência justamente em Terra Ronca.
Nome homenageia conhecedor das cavernas
“Ramiroi” é uma homenagem a Ramiro Hilário dos Santos, morador da região que ajudou pesquisadores a conhecerem melhor as cavernas e a fauna escondida nelas.
O Ministério do Turismo relata que Ramiro indicou o peixe aos pesquisadores responsáveis pela catalogação e também colaborou na descoberta e reconhecimento de diferentes cavernas da região.
A ligação é tão próxima que ele se tornou conhecido como uma espécie de guardião de Terra Ronca.
O lugar também ganhou projeção por reunir centenas de cavernas, rios subterrâneos e enormes salões naturais escondidos no Cerrado.
No caso do Ituglanis ramiroi, porém, o ambiente é ainda mais restrito.
Pesquisas científicas indicam que ele ocorre em aquíferos superiores da Caverna São Bernardo, abastecidos pela água que se infiltra através das rochas. A distribuição extremamente limitada torna a preservação do habitat especialmente importante.
Viver sem luz mudou o animal
A aparência desses peixes ajuda a contar uma história evolutiva.
Em ambientes subterrâneos, estruturas importantes para animais da superfície podem perder parte de sua função ao longo das gerações. No Ituglanis ramiroi, pesquisadores descrevem olhos e pigmentação bastante reduzidos, chegando a estar ausentes em alguns indivíduos.
Ao mesmo tempo, outros sentidos e comportamentos tornam-se fundamentais para encontrar alimento e se deslocar.
Esse tipo de fauna faz de Terra Ronca muito mais do que um destino turístico. As cavernas funcionam como ambientes naturais para pesquisas sobre evolução, biodiversidade e conservação.
Goiás possui mais de mil cavernas catalogadas e ocupa posição de destaque no patrimônio subterrâneo brasileiro.
Dentro desse universo, um pequeno peixe de poucos centímetros guarda duas histórias ao mesmo tempo: a de animais que aprenderam a sobreviver praticamente sem luz e a de um morador que ajudou cientistas a descobrir o que havia escondido debaixo da terra.
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