Cidade goiana foi planejada antes de Goiânia e Brasília e nasceu ao redor de uma estação de trem
Traçado urbano surgiu junto com a ferrovia e fez de um ponto de parada de tropeiros uma cidade desenhada antes mesmo das duas capitais

Muito antes de Goiânia começar a sair do papel e décadas antes da construção de Brasília, uma cidade do interior de Goiás já havia sido desenhada a partir de um planejamento urbano prévio.
Era Pires do Rio, no Sudeste goiano.
Fundada em 9 de novembro de 1922, a cidade nasceu diretamente ligada à expansão da Estrada de Ferro Goyaz. A estação inaugurada naquele mesmo dia se tornou o centro a partir do qual ruas, lotes e atividades comerciais começaram a se organizar. A Goiás Turismo classifica o município como o primeiro de Goiás a receber uma planta para orientar o desenvolvimento do núcleo habitacional.
A cidade nasceu junto com a estação
Antes da ferrovia, a área fazia parte da Fazenda Brejão, propriedade do coronel Lino Teixeira de Sampaio, e já era utilizada como ponto de pouso por tropeiros e viajantes. A transformação começou quando a Estrada de Ferro Goyaz avançou pela região e surgiu a necessidade de construir uma estação do outro lado do Rio Corumbá.
Segundo a Câmara Municipal, o coronel aceitou ceder parte das terras sob uma condição: o terreno também deveria ser dividido em lotes para permitir a formação de uma nova cidade. O planejamento ficou ligado à própria estrutura da ferrovia e teve participação de Álvaro Sérgio Pacca, desenhista-chefe da Estrada de Ferro Goyaz, responsável pelo desenho dos quadrantes e vias do núcleo urbano.
A ideia era diferente do crescimento espontâneo observado em muitos povoados goianos daquele período. Em Pires do Rio, a estação não chegou depois que a cidade já existia. Ela foi justamente o ponto em torno do qual a cidade começou a ser organizada.
Planejamento veio antes de Goiânia e Brasília
A cronologia chama atenção porque o município surgiu mais de uma década antes da construção de Goiânia e muito antes de Brasília.
A Goiás Turismo afirma que Pires do Rio foi o primeiro município goiano a ter sua criação e projeto planejados. Já a Câmara Municipal reforça que o fato é anterior às duas capitais e destaca que, posteriormente, o topógrafo Moacir de Camargo realizou ajustes na planta original para adaptá-la melhor à topografia e ao crescimento da cidade.
Isso não significa que todo o desenho atual permaneça exatamente igual ao projeto inicial. A cidade cresceu, ganhou novos bairros e precisou incorporar áreas além do núcleo originalmente previsto. Ainda assim, a relação entre o traçado antigo e a ferrovia permanece central para entender sua formação.
A história já apareceu também em uma reportagem sobre como Pires do Rio se tornou a primeira cidade planejada de Goiás antes mesmo de Goiânia.
Trilhos transportaram muito mais que passageiros
A estação rapidamente deixou de ser apenas um local de embarque e desembarque. Ela se tornou ponto estratégico para circulação de mercadorias, trabalhadores e materiais entre Goiás e outras regiões do país.
A Secretaria de Estado da Cultura registra que pelos trilhos de Pires do Rio passaram materiais usados na construção de Goiânia e, anos depois, de Brasília. A estação funcionava como elo de uma malha que conectava o estado ao Porto de Santos e ajudava a abastecer obras que transformariam profundamente o Centro-Oeste.
Na década de 1940, a expansão ferroviária também levou à construção de um Galpão Oficina, usado para manutenção das locomotivas. O espaço atraía mais trabalhadores e reforçava o papel da ferrovia na economia local. Décadas depois, os trens que passavam por Pires do Rio transportariam materiais, equipamentos e trabalhadores em direção ao canteiro de obras da nova capital federal.
Esse protagonismo ferroviário não era exclusivo de Pires do Rio. Anos depois, a Estrada de Ferro Goiás também teria papel decisivo no crescimento de Anápolis e na movimentação de suprimentos para Goiânia e Brasília.
Estação virou patrimônio da cidade
Com a redução do transporte ferroviário de passageiros, a estação perdeu a função que havia exercido durante décadas, mas não desapareceu da paisagem urbana.
A estrutura foi preservada e passou a integrar o patrimônio histórico e cultural do município. A própria Secult destaca que a antiga estação continua sendo uma das principais referências da memória ferroviária de Pires do Rio.
O antigo Galpão Oficina também ganhou nova função. Depois de uma mobilização contra sua demolição na década de 1980, o espaço foi transformado no Museu Ferroviário de Pires do Rio, que reúne documentos, objetos e equipamentos ligados à história da estrada de ferro. O prédio foi tombado municipalmente e posteriormente recebeu proteção estadual.
Hoje, visitar esse conjunto permite enxergar uma espécie de resumo físico da formação da cidade. A estação mostra o ponto de partida, o galpão revela a importância da manutenção ferroviária e o desenho urbano ao redor preserva parte da lógica criada ainda no início dos anos 1920.
A ferrovia desenhou também a vida da cidade
Os trilhos influenciaram muito mais do que o mapa.
Famílias chegaram para trabalhar na ferrovia, comerciantes se instalaram próximos à estação e imigrantes aproveitaram o movimento de passageiros e mercadorias para abrir negócios. A Secult registra inclusive a presença de famílias sírias que se destacaram no comércio local durante os primeiros anos de crescimento.
A ferrovia também interferia diretamente na rotina. Horários dos trens marcavam encontros, chegadas e despedidas. O movimento das composições ajudava a determinar períodos de maior atividade comercial e aproximava uma cidade recém-criada de centros maiores.
Mais de um século depois, Pires do Rio já não depende dos trens como dependia em 1922. Ainda assim, dificilmente é possível contar a história do município sem voltar à estação.
Foi ao redor dela que a cidade nasceu, foi pelos trilhos que chegaram trabalhadores e mercadorias e foi por essa mesma ferrovia que passaram materiais utilizados em duas das maiores transformações urbanas do Centro-Oeste: a construção de Goiânia e, décadas depois, de Brasília.
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