Especialistas em psicologia explicam por que algumas pessoas pedem desculpas por tudo, mesmo quando não fizeram nada de errado

Um simples “desculpa” pode esconder muito mais do que arrependimento - principalmente quando aparece até em situações nas quais ninguém cometeu um erro

Rebeca Ferreira Rebeca Ferreira -
Especialistas em psicologia explicam por que algumas pessoas pedem desculpas por tudo, mesmo quando não fizeram nada de errado

“Desculpa incomodar.” “Perdão por perguntar.” “Foi mal, acho que estou atrapalhando.” Algumas pessoas parecem incluir pedidos de desculpas em praticamente todas as conversas, até quando não fizeram nada que justificasse culpa.

Para quem observa de fora, o hábito pode parecer apenas excesso de educação. Mas por que alguém assumiria responsabilidade por situações que nem sequer provocou? A psicologia mostra que a resposta pode envolver diferentes mecanismos.

Pedir desculpas pode virar uma forma de evitar desconforto

Uma das funções de uma desculpa é reparar relações depois que alguém acredita ter causado algum dano.

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O problema é que algumas pessoas possuem um limite muito baixo para interpretar suas próprias atitudes como inconvenientes. Elas podem se perguntar constantemente se falaram demais, interromperam alguém ou causaram algum mal-estar.

Uma pesquisa conduzida pelos psicólogos Karina Schumann e Michael Ross mostrou justamente que a frequência dos pedidos de desculpas depende, em parte, daquilo que cada pessoa considera uma ofensa.

Isso ajuda a entender por que duas pessoas podem viver exatamente a mesma situação e apenas uma sentir necessidade de dizer “desculpa”.

Sensibilidade ao outro também pode estar envolvida

Quem pede desculpas frequentemente não é necessariamente inseguro.

A própria Schumann explica que pessoas com alta frequência de pedidos de desculpas tendem a ser percebidas como mais calorosas, cuidadosas e preocupadas com os relacionamentos.

Nesse caso, o “desculpa” pode funcionar quase como um instrumento para suavizar interações.

A pessoa não está confessando uma culpa real. Está tentando demonstrar consideração: “não quero incomodar”, “não quero que você fique chateado” ou “quero manter esta conversa agradável”.

Quando aparece a responsabilidade excessiva

Algumas pessoas podem assumir responsabilidade demais pelo que acontece ao redor. Pesquisas psicológicas sobre culpa mostram que formas exageradas ou inadequadas de responsabilização estão associadas a maior sofrimento emocional e ansiedade.

É como se qualquer mudança de humor do outro despertasse imediatamente uma pergunta: “Será que fui eu?”.

Assim, um silêncio, uma resposta curta ou uma expressão séria podem gerar um pedido de desculpas mesmo sem existir evidência de que a pessoa realmente fez algo errado.

Isso não significa que quem pede muitas desculpas tenha um transtorno psicológico. Um comportamento isolado não permite diagnóstico.

Desculpar-se demais pode diminuir a própria assertividade

Quando alguém começa frases constantemente pedindo desculpas, pode transmitir a impressão de que precisa de autorização para falar, pedir alguma coisa ou simplesmente ocupar espaço.

Em estudos discutidos por Schumann, pessoas que se desculpam com muita frequência foram percebidas como um pouco menos assertivas, embora também tenham recebido avaliações bastante positivas em características como cuidado e moralidade.

A diferença está, portanto, em perceber quando realmente existe algo a reparar.

Nem todo “desculpa” precisa desaparecer

Pedir desculpas é uma ferramenta importante para preservar relações. Quando existe um erro real, reconhecer responsabilidade pode facilitar reconciliação e diminuir conflitos.

Em algumas situações, trocar “desculpa por incomodar” por “obrigado por me ouvir” ou “desculpa pelo atraso” por um reconhecimento objetivo do ocorrido ajuda a distinguir gentileza de autoculpabilização.

Talvez a pergunta mais útil seja simples: “Eu realmente fiz algo errado ou estou apenas com medo de incomodar?”

A resposta pode revelar muito mais do que o próprio pedido de desculpas.

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Rebeca Ferreira

Rebeca Ferreira

Estudante de Publicidade e Propaganda na Universidade Federal de Goiás (UFG) e estagiária do Portal 6. Atua na equipe desde setembro de 2026.