O que explica a onda de ataques contra supostos petistas em Goiás? Professora da UFG analisa o fenômeno

Silvia Zanolla explica como medo e ódio ao adversário podem alimentar perseguições após resultado eleitoral

Professora da UFG analisa o que está por trás dos boicotes políticos em Goiás
Em entrevista, Silvia Zanolla reflete sobre o que está por traz da polarização política (Foto: Reprodução)

Cenas de agressões, listas de estabelecimentos apontados como “de esquerda” e manifestações de empregadores favoráveis à demissão de eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foram vistas em Goiás após o resultado da eleição presidencial.

Em Goiânia, uma das relações compartilhadas pelo WhatsApp mencionava 48 empresas ou profissionais. Outra, em Anápolis, reunia pelo menos 25 nomes, entre restaurantes, supermercados, farmácias e prestadores de serviços.

Para Silvia Zanolla, doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e professora de Pós-Graduação da Universidade Federal de Goiás (UFG), essas listas são uma maneira de enxergar opositores políticos como alvos de perseguição.

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Quem pensa diferente como alvo

Em entrevista ao Portal 6, a pesquisadora relaciona essa prática a métodos historicamente usados por movimentos nazifascistas para estimular a hostilidade contra determinados grupos. Nesse processo, opinião ou ligação políticas, sejam elas confirmadas ou não, justificam tentativas de prejudicar pessoas e negócios.

“As listas se proliferam muito dentro dessa lógica fascista da perseguição”, afirma.

Não à toa, a franquia de supermercados Rede Store, citada nas listagens de Goiânia, fez uma publicação nas redes sociais fazendo essa mesma analogia.

Em Anápolis, a cabeleireira Isabella Cunha contestou justamente a associação partidária usada para incluir seu nome e o do estabelecimento onde trabalha em uma dessas publicações.

Ela também manifestou receio de que o boicote prejudique sua equipe e sua família. Segundo Isabella, suas redes sociais são voltadas apenas à divulgação do trabalho.

Pressão no ambiente de trabalho

Além da pressão sobre empreendedores que aparecem nessas listas, trabalhadores identificados como eleitores do PT também sofreram retaliação. Conforme noticiado anteriormente, empregadores publicaram manifestações sobre a intenção de dispensar funcionários que votaram em Lula.

Ao analisar a perseguição no trabalho, a professora destaca a desigualdade de poder entre quem emprega e quem depende da função para se sustentar. Para ela, a hostilidade política precisa ser compreendida também a partir desses interesses econômicos.

Silvia afirma que mensagens disseminadas pelas redes sociais alimentam o medo e o ódio contra adversários, influenciando comportamentos. Na avaliação dela, esse processo de formação de convicções serve a objetivos de dominação.

“É uma modelagem [de comportamento coletivo] que é psicológica, cultural, mas os fins são políticos e econômicos”, diz.

Medo, frustração e pertencimento

Além das publicações sobre boicotes e dispensas, a repercussão de uma agressão em Rio Verde trouxe à discussão a suspeita de violência por divergência eleitoral.

Um jovem de 27 anos foi espancado na noite de domingo (25), e imagens mostraram a vítima recebendo socos e chutes de pessoas em verde e amarelo enquanto estava caída no chão. Postagens atribuíram o ataque a uma discussão entre apoiadores de Lula e Flávio Bolsonaro (PL).

Em análise sobre comportamentos hostis, Silvia relaciona a frustração ao medo alimentado por mensagens sobre ameaças ao emprego, à renda e ao futuro. Segundo ela, esses sentimentos se articulam à rejeição ao adversário e à busca por pertencimento, e estouram em episódios violentos.

A professora explica que o desejo de integrar um grupo pode levar à adesão a decisões coletivas sem reflexão sobre suas consequências. Por isso, ressalta a importância de preservar a capacidade de questionar as atitudes dos próprios aliados.

“O indivíduo precisa fazer frente como sujeito que pensa sobre o grupo e suas decisões”, afirma.

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Gustavo de Souza

Gustavo de Souza

Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e repórter do Portal 6.