Anápolis adota sistema de “fila única” do Governo de Goiás e paciente deve sair do posto com exame marcado
Em entrevista ao Portal 6, secretária de Saúde explica o que muda na consulta, como prepara as equipes e o que espera da mudança, com detalhes que não estão na portaria

Momentos antes de a portaria que muda a fila da saúde de Anápolis ser publicada, na noite desta quarta-feira (4), a secretária municipal de Saúde, Jaqueline Rocha, conversou com o Portal 6.
Fazia um ano que ela tinha chegado à Secretaria. O documento que estava para sair era, nas palavras dela, a cereja do bolo de um trabalho que começou bem antes.
A Portaria nº 205/2026 tira a regulação da cidade do sistema próprio do município e a leva para o Saúde Integrada de Goiás (Sigo), a plataforma de fila única do Governo de Goiás.
É uma troca que começa nesta quinta-feira (5), pelas 49 unidades básicas de saúde (UBS), onde atuam 106 equipes de Saúde da Família. A partir de sexta (6), esses postos já não fazem pedidos no sistema antigo.
Uma rede que não conversava
A mudança não nasceu agora. Em dezembro de 2024, ainda na transição de governo, o prefeito eleito Márcio Corrêa (PL) e o deputado estadual Amilton Filho (MDB), morto em setembro deste ano, levaram ao secretário estadual de Saúde, Rasível Santos, um pedido de parceria para a saúde da cidade.
Em abril de 2025, Estado e município anunciaram que passariam a usar o mesmo sistema de regulação. O que sai agora é a conclusão desse caminho.
O ponto de partida era uma rede em que os sistemas não se falavam. Anápolis regulava pelo Celk o que oferece com estrutura própria ou contratada. O que a cidade não tem ia para o sistema do Estado. Parte dos procedimentos dependia ainda da regulação de Goiânia, com quem há pactuação. O mesmo paciente podia estar nas três filas ao mesmo tempo.
“O paciente está em múltiplas filas. Então, a fila nunca é real”, resumiu a secretária.
Na prática, um mesmo pedido era contado mais de uma vez, o que inflava os números e escondia o que de fato faltava. Uma vaga podia sobrar num sistema enquanto faltava em outro. Sem uma lista confiável, o gestor planejava às cegas. E havia o caso mais difícil de enxergar: o paciente que acredita estar na fila e não está em lugar nenhum.
Jaqueline contou que é comum ouvir de alguém que espera há anos por um exame. Quando a equipe investiga, descobre que o pedido nunca foi registrado.
“Ele sai da consulta e às vezes acha que está inserido em algum sistema, e não está”, disse. “O paciente que não está no sistema, a gente não enxerga.”
Para quem dependia do SUS, o resultado era uma peregrinação. O paciente saía do posto com o pedido na mão e precisava descobrir sozinho como entrar na fila.
“É uma via sacra, e o paciente desiste no meio do caminho”, afirmou.
Boa parte de quem mais usa a rede é idosa e com doença crônica, muitas vezes sem alguém mais jovem para ajudar e sem dinheiro para o ônibus.
O que muda na consulta
A partir de agora, quem coloca o paciente na fila é a unidade de saúde. Ele deve sair da consulta com o pedido lançado no sistema e, no caso de exames de laboratório e raio-x, com local, dia e horário já marcados.
“Uma coisa é só solicitação, outra coisa é solicitação com agendamento”, explicou a secretária.
Quando não houver vaga na hora, como pode acontecer com um eletrocardiograma, a data chega alguns dias depois, com confirmação pelo WhatsApp.
Pedidos que dependem de avaliação, como consultas com especialistas, passam antes por um médico regulador, que confere os protocolos clínicos. A regra vale para todas as unidades que atendem pelo SUS na cidade, sejam próprias, conveniadas, contratadas ou geridas por organizações sociais.
A lógica, segundo ela, é juntar a informação num só lugar sem obrigar o paciente a se deslocar.
“A informação precisa estar centralizada para o gestor tomar a decisão. Agora, o acesso à saúde precisa ser descentralizado”, afirmou.
Cada município segue administrando o que oferece, e o Estado passa a enxergar de uma vez o que as cidades não conseguem atender. A adesão não custa nada ao município.
Como ela prepara as equipes
Antes do sistema, o primeiro ano foi dedicado ao que o usuário não vê: cabeamento, computadores e sinal de internet nas unidades. “Se eu não organizo estrutura, eu não tenho como o sistema rodar”, disse.
Depois, a secretaria formou, com a Secretaria de Estado, um grupo de sete multiplicadores, que treinam as equipes e dão apoio dentro das unidades. Os gerentes da secretaria e o pessoal do atendimento remoto já passaram pela capacitação sem dificuldade. O desafio começa agora, com os atendentes dos postos.
“A gente pega na mão e faz junto”, afirmou.
Professora de formação, Jaqueline desenhou o formato dos treinamentos. São cerca de 20 minutos de teoria e, em seguida, uma simulação em dupla com casos reais, em que um profissional faz o papel de atendente e o outro, de paciente. Quem participa recebe no próprio WhatsApp a confirmação do exame marcado. Se a mensagem não chega, a falha aparece ali mesmo.
“As pessoas não aderem àquilo quando aquilo não faz sentido para elas”, explicou.
Depois das UBS, que concentram a maior parte dos pedidos, vêm as unidades de atenção especializada de gestão direta e, por último, a rede conveniada e contratada. Tudo em turnos. Segundo a secretária, tirar todos os médicos de uma vez deixaria cerca de 3 mil consultas por dia sem atendimento na atenção primária e empurraria esses pacientes para as UPAs.
Por que a posição na fila muda
Com tudo num só lugar, a fila passa a ser uma só, mas não é fixa. O SUS atende primeiro quem está mais grave, e cada pedido recebe uma cor na classificação de risco, do azul, de menor prioridade, ao vermelho.
A secretária deu um exemplo. Um paciente com dor lombar antiga, sem indicação clínica para especialista, que pede para ser encaminhado ao ortopedista, entra como azul. Se no dia seguinte chega outro com síndrome da cauda equina, que exige cirurgia urgente, este passa na frente, mesmo que o primeiro espere há meses.
“Se ele não for atendido, ele vai ficar paraplégico”, disse.
Vale também para quem já está na lista e piora. “Ele anda na fila, tanto que a fila é dinâmica”, afirmou.
O paciente não é avisado quando cai de posição, mas o sistema registra o motivo de cada mudança, e quem se sentir prejudicado pode questionar.
O Zap da Saúde continua
O atendimento por WhatsApp da Prefeitura, que por cerca de três anos e meio foi a porta obrigatória da marcação, não acaba, e ninguém da equipe perde o emprego.
O canal deixa de receber os pedidos de consulta e exame e passa a tirar dúvidas: qual unidade tem horário estendido, onde há determinada vacina, como consultar a própria posição na fila pelo Portal da Transparência.
E o prontuário?
O histórico clínico não entra no Sigo. O Prontuário Eletrônico do Cidadão fica em outro sistema, por causa da Lei Geral de Proteção de Dados, e cada profissional vê só a sua parte. A recepção vê o cadastro, a enfermagem vê as consultas de enfermagem e o médico vê o prontuário completo.
O que ela espera
Questionada sobre o que muda a partir de agora, Jaqueline resumiu em ampliação do acesso, com rastreabilidade e transparência. O indicador que a gestão vai acompanhar é o número de reclamações. “A reclamação vai diminuir”, aposta.
Ela não promete uma rede sem falhas. Só nos postos são cerca de 3 mil consultas por dia, além dos atendimentos nas UPAs.
“É impossível a gente ser 100% efetivo, mas isso não nos permite ficar numa zona de conforto”, afirmou.
Quando foi convidada pelo prefeito, contou, avisou que o problema tinha solução, mas não seria rápido.
“É complexo demais, mas tem solução. Só que não faz da noite para o dia”, lembrou.
Mexer numa rede que não pode parar tem esse custo: para quem está do lado de fora, uma arrumação em andamento pode parecer desordem. Daí o peso que ela dá a explicar o que está sendo feito.
A secretária repete às equipes que comunicar é tão difícil quanto organizar.
“Comunicação entre marido e mulher é difícil, aí você fazer comunicação num universo de 3 mil pessoas”, disse, referindo-se aos profissionais da rede. Do balcão para fora, a exigência é a mesma. Segundo ela, o trabalhador precisa falar a linguagem do paciente e facilitar a vida de quem chega.
De acordo com Jaqueline, Anápolis e Rio Verde são, até agora, os dois maiores municípios porte que estão levando 100% das filas para o Sigo.
O que diz a portaria
A Portaria nº 205/2026 se apoia na Lei Estadual nº 23.585, de 19 de agosto de 2025, que criou a fila única do SUS em Goiás, e na nova Política Nacional de Regulação do Ministério da Saúde, de dezembro de 2025. O texto confirma que o uso do Sigo é gratuito para o município, sem custo de licença, manutenção, hospedagem ou atualização.
Não há data para o fim da transição. À medida que cada grupo de profissionais for capacitado, consultas especializadas, exames de média e alta complexidade e internações passam a ser pedidos exclusivamente pelo sistema novo.
Sobre quem já está na fila, a portaria diz que as solicitações do sistema anterior passam por conciliação e migração, sob responsabilidade do Complexo Regulador Municipal e supervisão da Diretoria de Regulação e Agendamentos da Secretaria de Saúde. O texto não detalha como fica a posição de cada paciente na lista nova.
O cronograma nas unidades, os multiplicadores, o agendamento imediato de laboratório e raio-x e o novo papel do Zap da Saúde não constam do documento. Foram explicados pela secretária na conversa com o Portal 6.
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