Ocupação Marília Mendonça, em Aparecida de Goiânia, dobra de tamanho em um ano
Área construída saltou de 4,72 para 9,38 hectares entre 2024 e 2025, e uma reunião no gabinete do prefeito, em 2023, já tinha avisado para onde aquilo caminhava

A comunidade leva o nome de uma cantora que morreu há cinco anos e, em doze meses, dobrou de tamanho. A Ocupação Marília Mendonça, em Aparecida de Goiânia, passou de 4,72 hectares (ha) de área construída em 2024 para 9,38 ha em 2025. Os dados são de um levantamento do MapBiomas divulgado na última quarta-feira (4). Além disso, em área absoluta, foi o segundo maior avanço entre as favelas de Goiás no período.
A cantora morreu em novembro de 2021, em um acidente aéreo em Minas Gerais, e depois foi velada em Goiânia. Já o terreno que hoje carrega o nome dela é objeto de um processo que tramita na comarca de Aparecida desde 2022.
O que o mapa mede
O levantamento compara mapas anuais de cobertura e uso da terra. Ele considera apenas a mancha urbana horizontal, ou seja, o espaço coberto por edificações, ruas e superfícies impermeabilizadas. Assim, o que cresce para cima não aparece, e o número de moradores fica fora da conta. Quem explica é Júlio Pedrassoli, coordenador do tema urbano do MapBiomas.
Em todo o estado, a área construída nas favelas foi de 2.499 ha para 2.534 ha, alta de 1,40%. Enquanto isso, a área urbanizada total cresceu 0,95%. Em crescimento absoluto, só uma comunidade avançou mais que a Ocupação Marília Mendonça. Foi o Mansões Lago do Descoberto, em Águas Lindas de Goiás, com 4,86 ha a mais.
Ocupação Marília Mendonça já foi tema de reunião no gabinete do prefeito
Em 7 de julho de 2023, a Comissão de Soluções Fundiárias do Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) se reuniu no gabinete do então prefeito Vilmar Mariano. Na pauta, três ocupações da cidade: a Marília Mendonça, a Norberto Teixeira e a Alto da Boa Vista. Ainda hoje, a ata do encontro está publicada no site do tribunal.
Segundo o documento, a área é particular e já havia decisão judicial determinando a desocupação. O juiz Rodrigo de Melo Brustolin, membro da comissão, falou em um assentamento com cerca de 500 famílias. Mas cumprir uma ordem dessas, disse ele, era “muito difícil especialmente para os mais vulneráveis”. Por isso, a proposta dele era “congelar” a ocupação e cadastrar quem de fato precisava de moradia. Depois, encontrar um lugar provisório até a entrega das casas definitivas.
A Defensoria Pública, por sua vez, tinha uma leitura mais dura sobre quem estava lá. Segundo o defensor Gustavo Alves, havia “vários especuladores” no Marília Mendonça, e as famílias que de fato precisavam não passavam de 80. Já o prefeito disse que lotes eram vendidos diariamente pelos próprios ocupantes e pediu uma frente conjunta com o Judiciário e o Ministério Público.
A saída apresentada pela Prefeitura naquele dia foi um conjunto de 496 apartamentos e 196 casas em área pública do município. As unidades viriam do Minha Casa, Minha Vida, e o prazo, então, era de dois anos. A comissão, então, prometeu uma visita técnica e uma audiência de mediação. Dois anos depois, o mapa do MapBiomas mostra uma ocupação duas vezes maior.
Favelas em Goiás
Até o Censo de 2022, a ideia predominante era a de que Goiás não tinha favelas. O IBGE, no entanto, identificou 152 favelas e comunidades urbanas no estado, com 94,5 mil moradores à época, 36% delas em Goiânia.
As maiores, pelo critério do MapBiomas, são o Jardim Umuarama, em Luziânia, e o Mansões Lago do Descoberto, em Águas Lindas. Em seguida vem o Jardim Esperança, em Anápolis. Já o município com a maior parcela da área urbana ocupada por favelas é Águas Lindas de Goiás, com 7,2%.
Colaborou Danilo Boaventura.
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