Casal de pastores é indiciado sob suspeita de abuso sexual de adolescentes em Roraima
Apuração da polícia começou em abril após duas supostas vítimas procurarem espontaneamente a DPCA

FELIPE MEDEIROS – A Polícia Civil de Roraima concluiu uma investigação que aponta que o casal de pastores Wenderson Lima de Souza, 32, e Arielly Kamila Moraes de Souza, 24, teria usado a estrutura religiosa de uma igreja evangélica para abusar sexualmente de adolescentes.
A defesa do casal nega os crimes e afirma que ambos são inocentes.
Segundo a polícia, algumas vítimas relataram que os abusos se repetiram por anos. O casal atuava na capital do estado, Boa Vista, cidade em que os crimes investigados foram cometidos, conforme a polícia roraimense.
Os dois foram indiciados sob suspeita de estupro de vulnerável, importunação sexual e fraude processual, entre outros. O inquérito foi encaminhado ao Ministério Público Estadual e ao Poder Judiciário. A Promotoria deverá analisar se apresenta uma denúncia criminal à Justiça, o que poderá dar início a uma ação penal.
A Folha de S.Paulo teve acesso a um dos processos no qual uma das vítimas, de 14 anos, acompanhada de uma amiga de 18 anos, relatou na delegacia um dos abusos sofridos.
“O pastor levou a menor para a última rua do bairro, não movimentada, e fez a brincadeira de adivinhação da cor da roupa íntima e pediu para que tirasse uma de suas peças, a blusa ou a calça. Ela disse que não se sentia confortável, então o pastor pediu para que mostrasse o sutiã, [em seguida] colocou ela de costas e começou a se masturbar”, diz trecho do boletim de ocorrência.
A investigação começou em abril após duas adolescentes procurarem espontaneamente a DPCA (Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente). Em cerca de 50 dias, os policiais ouviram 41 pessoas e identificaram outras vítimas.
Segundo a delegada Kamilla Basto, responsável pelo caso, o casal utilizava a posição de liderança religiosa para conquistar a confiança de adolescentes em situação de vulnerabilidade emocional e econômica.
“O ambiente religioso era utilizado de forma deliberada como instrumento de aproximação e controle. Eles se aproveitavam da fé como mecanismo de manipulação e utilizavam o temor reverencial para manter as vítimas em silêncio”, afirmou.
Ao todo, a polícia afirma ter identificado 11 adolescentes, com idades entre 12 e 17 anos. Cinco pessoas que apresentavam indícios de também terem sido vítimas optaram por não prestar depoimento.
Segundo a investigação, os suspeitos diziam às adolescentes que os abusos eram justificados por interpretações religiosas da Bíblia e afirmavam que os atos serviriam para satisfazer um suposto desejo sexual da mulher, apresentado como parte de uma prática espiritual.
Ainda segundo a delegada, o pastor oferecia cargos dentro da igreja, como diaconisa e pastora, para recompensar vítimas e testemunhas e reforçar o controle exercido sobre elas.
As investigações apontam ainda que algumas adolescentes permaneceram sob influência do casal durante anos.
Em um dos casos, segundo a Polícia Civil, os abusos evoluíram para violência sexual praticada também por outros homens. “Ocasião em que as vítimas permaneciam vendadas para não reconhecerem os outros autores”, conforme a delegada.
A polícia afirma que a igreja possuía cinco congregações distribuídas entre Roraima e Amazonas. Parte das vítimas mantinha vínculo religioso com os investigados e, em alguns casos, também havia relação de parentesco.
O advogado Fabiano Negreiros, que representa o casal de pastores, afirmou que ambos negam as acusações contra eles.
Conforme o advogado, a defesa aguarda acesso o oficial ao relatório final do inquérito policial e aos demais documentos do processo antes de apresentar sua manifestação de forma detalhada.
“Meus clientes alegam inocência e deixarei para me manifestar assim que a delegada juntar ao processo o relatório final. A defesa precisa ter acesso oficial a essas informações”, afirmou o defensor.
FRAUDE PROCESSUAL
Durante a investigação, a Polícia Civil também concluiu que houve tentativa de destruição de provas. Uma mulher de 20 anos foi indiciada por fraude processual e corrupção de menores sob suspeita de participar da eliminação de dados armazenados no telefone celular do investigado.
Segundo a polícia, uma das vítimas também teria sido orientada a registrar um boletim de ocorrência falso comunicando o desaparecimento do aparelho.
O pastor Wenderson Lima de Souza foi indiciado sob suspeita de estupro de vulnerável, importunação sexual, favorecimento de prostituição ou outra forma de exploração sexual de criança, adolescente ou pessoa vulnerável, registro não autorizado de intimidade sexual, fraude processual e falsidade ideológica.
Já sua esposa, Arielly Kamila Moraes de Souza, é considerada suspeita de estupro de vulnerável, importunação sexual e fraude processual.
A delegada informou que os investigados não possuem antecedentes criminais conhecidos. Ela acrescentou que, caso novas vítimas procurem a Polícia Civil, um inquérito complementar poderá ser instaurado.
A igreja foi fechada e a representação pela prisão dos investigados tramita sob sigilo judicial.








