Entre ferros, rádios e saudades, anapolino transforma a própria casa em um museu de memórias

Em casa tomada por relíquias, Lázaro Caldeira de Amorim preserva ferramentas, máquinas e lembranças que atravessaram gerações

Lara Duarte Lara Duarte -
Lázaro Caldeira de Amorim entre as antiguidades que transformaram a própria casa em um verdadeiro museu de memórias. (Foto: Portal 6)
Lázaro Caldeira de Amorim entre as antiguidades que transformaram a própria casa em um verdadeiro museu de memórias. (Foto: Portal 6)

A porta da casa de Lázaro Caldeira de Amorim, de 62 anos, não leva apenas a uma sala, a um quarto ou a um quintal. Ao atravessá-la, o visitante também passa por diferentes épocas da história.

Espalhadas pelos cômodos, pelas paredes e pela área externa estão máquinas de costura, rádios de válvula, televisores antigos, ferramentas agrícolas, ferros de passar, bicicletas, câmeras, balanças, fogões, panelas e dezenas de objetos que já fizeram parte da rotina de famílias do campo e da cidade.

Algumas peças têm quase um século. Outras pertenceram ao pai, à mãe ou ao avô de Lázaro. Há ainda aquelas que foram encontradas enferrujadas em ferros-velhos, desmontadas, limpas e restauradas pelas próprias mãos do colecionador.

Máquina de moer café antes e depois da restauração feita por Lázaro, que devolveu à peça antiga os detalhes e o funcionamento original. (Foto: Lazaro Amorim)

Máquina de moer café antes e depois da restauração feita por Lázaro, que devolveu à peça antiga os detalhes e o funcionamento original. (Foto: Lazaro Amorim)

A casa se transformou em uma espécie de museu particular, embora falte espaço para acomodar tudo como ele gostaria.

“Isso aqui é o museu. Está faltando ter um espaço maior para colocar as peças. Hoje em dia depende de dinheiro, e a gente não está tendo esse dinheiro para comprar um lugar maior”, contou.

Mesmo sem placas explicativas ou vitrines, Lázaro conhece a história e o funcionamento de praticamente cada objeto.

Durante a visita, basta apontar para uma peça para que ele diga o nome, a finalidade e, muitas vezes, a lembrança ligada a ela.

Peças que contam uma vida

Entre os objetos estão bombas manuais usadas para retirar água de cisternas, equipamentos agrícolas, moedores, pilões de bronze, ferramentas de carpintaria, plantadeiras e utensílios empregados na produção de rapadura.

Uma das peças mais especiais é uma escumadeira que pertenceu ao pai. O equipamento era utilizado para retirar a espuma do caldo de cana durante o preparo do doce.

“Meu pai já usou. Essa peça chama escumadeira. Usava para tirar a espuma da garapa, limpar e fazer a rapadura”, explicou.

Há também ferramentas com as quais ele próprio trabalhou durante a juventude. Ao tocar nesses objetos, Lázaro não fala apenas de como eram utilizados. Ele retorna à época em que morava com a família em uma propriedade rural no município de Pirenópolis.

Filho de um casal mineiro, ele nasceu em Goiás, assim como os outros 11 irmãos. Os pais se casaram em Brumadinho, em Minas Gerais, antes de se mudarem para uma fazenda goiana.

A família vivia principalmente do que cultivava.

“A gente mexia com lavoura, com todo tipo de plantação. Tinha umas terras e vivia delas. Comia o que plantava. Naquele tempo, a gente se alimentava da própria fazendinha”, relembrou.

Lázaro permaneceu no campo até aproximadamente os 20 anos. Depois da morte do pai, mudou-se para a cidade de Anápolis com a mãe. Mais tarde, também a perdeu.

“Eu fiquei sozinho aqui na cidade”, afirmou.

Foi trabalhando como mototaxista que ele conseguiu dinheiro para comprar as primeiras antiguidades. A coleção começou há cerca de duas décadas, quando ele tinha por volta de 40 anos.

No início, não imaginava que os objetos tomariam tantos espaços da residência.

“Eu já gostava de coisa antiga desde criança. Só não pensei que ia ter esse tanto de peça. A gente compra uma aqui, outra ali, e demora muito para chegar a esse ponto.”

A primeira máquina

A primeira peça comprada por Lázaro foi uma máquina de costura. Depois dela, vieram rádios, móveis, utensílios domésticos e equipamentos que poucas pessoas conseguem identificar.

Entre as raridades está uma máquina usada na produção de escovas e vassouras. Ela foi encontrada em um ferro-velho, coberta por ferrugem e graxa.

Lázaro desmontou o equipamento inteiro, limpou as partes e remontou o mecanismo.

“Eu peguei, comprei essa máquina e ela estava toda enferrujada, cheia de graxa. Desmontei todinha e hoje ela está desse jeito”, disse, apontando para o equipamento restaurado.

O funcionamento também chama atenção. O trabalhador se sentava diante da máquina e acionava uma espécie de embreagem. O movimento fazia uma estrutura de ferro descer sobre a madeira onde seria montada a escova.

Peças assim são as preferidas do colecionador.

“Eu gosto mais das difíceis de encontrar, que quase ninguém entende. Acho muito bonito o funcionamento e a forma como elas foram feitas.”

A preferência pelo ferro não acontece por acaso. Segundo Lázaro, objetos de madeira exigem mais cuidado, podem apodrecer e ficam expostos a cupins. Já as antigas máquinas de metal atravessam gerações.

“Essas máquinas antigas nunca vão acabar. É uma coisa que tem para sempre.”

Uma casa fora do tempo

Grandes caldeirões de ferro eram usados nas fazendas para preparar alimentos, como a carne de porco conservada na própria gordura. (Foto: Portal 6)

Grandes caldeirões de ferro eram usados nas fazendas para preparar alimentos, como a carne de porco conservada na própria gordura. (Foto: Portal 6)

Na cozinha, fogões antigos dividem espaço com panelas enormes, utilizadas nas fazendas para fritar carne de porco. Uma delas tem capacidade aproximada para 80 litros.

Há fogão a lenha, modelo a querosene e até um equipamento pequeno que, além de cozinhar, ajudava a aquecer o ambiente, funcionando como uma espécie de lareira.

Entre os utensílios mais curiosos está uma garrafa usada para manter chá aquecido com carvão. Há também ferros de passar pesados, incluindo um modelo a gás que pode chegar a aproximadamente 10 quilos.

“O gás ficava queimando lá dentro. Quando esquentava, apagava e passava a roupa. Era perigoso”, explicou.

Os objetos também revelam quanto esforço existia por trás de tarefas atualmente consideradas simples. Antes da energia elétrica, a iluminação vinha de candeias, lamparinas e lampiões. Para lavar o rosto pela manhã, as pessoas usavam uma bacia com jarro colocada ao lado da cama.

Até o tratamento dentário dependia da força humana. Lázaro guarda um antigo equipamento odontológico movimentado por pedal, semelhante ao sistema de uma máquina de costura.

“O dentista pedalava para fazer o motorzinho funcionar e realizar o tratamento. Além de saber o que estava fazendo, tinha que ser bom de pedal”, brincou um dos visitantes durante a entrevista.

Sons que trazem a família de volta

Rádios, vitrolas, toca-discos e aparelhos de fita ocupam uma parte importante da coleção. Alguns ainda funcionam. Outros aguardam conserto.

Um pequeno toca-discos desperta uma lembrança especialmente afetiva. Quando morava na fazenda, Lázaro ouvia músicas ao lado da mãe e de um dos irmãos.

“Meu irmão veio à cidade e comprou um LP do Trio Parada Dura. Toda vez que escuto uma música deles, lembro de nós três juntos na fazenda.”

A lembrança permanece preservada entre discos, rádios de madeira e aparelhos feitos de baquelite, material resistente ao calor produzido pelas válvulas.

Existem ainda rádios que captavam ondas médias, longas e curtas, permitindo ouvir transmissões de países como Alemanha, Estados Unidos e Canadá.

Alguns modelos portáteis acompanhavam caminhoneiros durante as viagens. Quando paravam para cozinhar ou descansar, os motoristas conseguiam assistir à televisão em aparelhos pequenos, de aproximadamente 10 ou 12 polegadas.

Lázaro também guarda celulares antigos, secretária eletrônica, rádios amadores, câmeras fotográficas, filmadoras e um aparelho conhecido como “tijolão”.

O primeiro celular que comprou custou R$ 80 e continua entre os objetos expostos.

Garimpo no “shopping dos homens”

Grande parte do acervo foi comprada em ferros-velhos, feiras e cidades do interior. Lázaro costuma sair com amigos para visitar fazendas e procurar objetos esquecidos.

Ele chama o ferro-velho de “shopping dos homens”.

“Tem gente que fala que quem compra essas coisas está com ferrugem no sangue. Quando a ferrugem pega no sangue, a pessoa não para de comprar.”

Encontrar uma raridade, porém, exige paciência. Segundo ele, os próprios colecionadores evitam revelar onde estão as melhores peças.

“Se alguém souber de uma peça e também for comprador, não fala onde está. A gente tem que andar bastante para encontrar.”

As doações também são raras. Muitas pessoas prometem levar algum objeto antigo, mas a peça quase nunca chega.

“Falam que têm uma peça em casa e que vão trazer. Mas ela nunca chega. Agora, se oferecer dinheiro, chega na hora”, contou, sorrindo.

Herança de gerações

Entre as peças mais antigas está uma canga que pertenceu ao avô. O objeto era colocado sobre dois bois para conduzir o carro de boi e, segundo Lázaro, pode ter mais de 200 anos.

As rodas de uma antiga carroça também foram transformadas em decoração. Como não existe espaço para manter o veículo inteiro, a estrutura ficou guardada na casa de um irmão.

Objetos ligados ao pai, à mãe e aos avós não estão à venda. “Coisa de casa a gente não vende.”

Outras peças, quando repetidas, podem ser negociadas. No entanto, as que carregam lembranças familiares permanecem protegidas.

Lázaro também não pensa em modernizar a casa. Sofás, armários, espelhos e luminárias seguem o estilo antigo que escolheu para viver.

“Eu me sinto bem assim. É o meu estilo de colecionador.”

Amigos, café e histórias

O prazer de Lázaro não está apenas em comprar ou restaurar as relíquias. Ele também gosta de receber pessoas e apresentar o acervo. “Se não mostrar, não tem graça”, enfatiza.

Segundo ele, alguns visitantes chegam para tomar café, conhecem os objetos e prometem retornar com pais ou avós. Outros deixam a companheira esperando no carro, acreditando que a visita será rápida.

“Eu falo: ‘Você não vai aguentar, vai chamar essa mulher’. Daqui a pouco, a pessoa vai até o carro e traz ela para ver as peças”, conta.

Crianças e adolescentes também demonstram curiosidade. Para o colecionador, apresentar os objetos aos mais jovens é uma forma de explicar que o mundo atual foi construído a partir de ferramentas muito mais simples.

“Isso aqui foi o começo do nosso tempo. Nossos avôs e nossas avós passaram por isso. O mundo não começou com computador. Começou com máquina de escrever, com toca-discos e com essas ferramentas.”

Máquina de escrever e telefone antigo relembram uma época anterior aos computadores, celulares e ligações digitais. (Foto: Portal 6)

Máquinas de escrever e telefone antigo relembram uma época anterior aos computadores, celulares e ligações digitais. (Foto: Portal 6)

Fé e serviço à comunidade

Além do trabalho como colecionador, Lázaro é conhecido nas comunidades católicas da região por atuar como leiloeiro voluntário em festas e eventos religiosos.

Ele costuma “gritar” os lances dos leilões promovidos para arrecadar recursos para as igrejas.

“Não é profissão. A gente faz por hobby e trabalha para a igreja. Não tem salário. É tudo voluntário, pela obra da igreja.”

A religiosidade também aparece dentro da casa. Imagens de santos e peças produzidas por amigos fazem parte da decoração.

Durante a entrevista, Lázaro mostrou um novo projeto: transformar um antigo latão de leite em oratório. O recipiente receberia uma base, puxadores e uma imagem religiosa em seu interior.

Oratório criado a partir de um antigo latão de leite aparece ao lado de uma imagem de santa esculpida por um amigo de Lázaro.

Oratório criado a partir de um antigo latão de leite aparece. Ao lado, uma imagem de santa esculpida por um amigo de Lázaro. (Foto: Portal 6)

“A vida tinha outro rumo”

Ao falar das antiguidades, Lázaro inevitavelmente retorna à vida no campo. Recorda o pão de queijo assado no forno de barro, a rapadura com queijo, o requeijão produzido na fazenda e até o angu acompanhado de rapadura.

Também se lembra das colheitas realizadas em conjunto. Os vizinhos se reuniam para trabalhar em uma propriedade e, depois, seguiam para a próxima.

“Aquilo chamava junta. Juntava o pessoal para colher uma roça, depois passava para outra. Era muita gente trabalhando junto.”

Entre provocações, risadas e conversas, as famílias dividiam o trabalho e o tempo.

“Tinha muitos vizinhos. Um ia à casa do outro passear, tomar café e bater papo com os compadres. A vida era muito legal naquele tempo.”

Para Lázaro, os objetos antigos ajudam a preservar não apenas técnicas e modos de produção, mas também uma maneira diferente de viver.

“As peças de primeiro foram feitas para durar. Hoje, fazem para acabar logo e a gente comprar outra.”

Em meio a máquinas pesadas, rádios silenciosos e utensílios que atravessaram gerações, ele continua recebendo amigos, restaurando relíquias e garimpando novidades.

Não pretende deixar a casa moderna. Tampouco imagina abandonar o ferro-velho, as feiras ou os passeios pelo interior.

O colecionador segue preservando o passando de forma que ele se faça presente no presente. “A vida tinha outro rumo naquele tempo. Era bom demais”, relembra.

Siga o Portal 6 no Google News e fique por dentro de tudo!

Lara Duarte

Lara Duarte

Jornalista e pós-graduanda em Ciência Política, com atuação em jornal impresso, assessoria de comunicação e produção, reunindo experiência em diferentes frentes da comunicação.

Você tem WhatsApp ou Telegram? É só entrar em um dos grupos do Portal 6 para receber, em primeira mão, nossas principais notícias e reportagens. Basta clicar aqui e escolher.

+ Notícias