Quando um acidente de trânsito vira crime? Delegado explica regras e responsabilidades em Goiânia

Ao Portal 6 Ao Vivo, Dr. Paulo Ludovico detalha como provas, imagens e depoimentos auxiliam na apuração dos casos

Pedro Ribeiro Pedro Ribeiro -
Quando um acidente de trânsito vira crime? Delegado explica regras e responsabilidades em Goiânia
Dr. Paulo Ludovico comentou o alto número de mortes envolvendo motociclistas e apontou comportamentos recorrentes nas apurações. (Foto: Captura de tela/Youtube/Portal 6)

Goiânia registrou 36.150 sinistros de trânsito em 2025. Em meio aos números estão ocorrências que podem envolver desde colisões sem vítimas até situações com mortes, lesões corporais, consumo de álcool e evasão do local.

Para entender quando um caso deixa de ser apenas uma ocorrência de trânsito e passa a ser tratado como crime, o Portal 6 Ao Vivo conversou com o delegado Paulo Ludovico, titular da Delegacia de Investigação de Crimes de Trânsito (DICT).

Segundo o delegado, a unidade especializada atua nos casos ocorridos dentro do perímetro urbano de Goiânia. Quando há vítima fatal, uma equipe plantonista é encaminhada ao local para realizar os primeiros levantamentos e buscar elementos que permitam reconstruir a dinâmica.

“A partir do momento que alguém se envolve num sinistro de trânsito, caso haja a morte, nós temos uma equipe plantonista. Essa equipe se dirige até o local e já faz todos os levantamentos preliminares para apurar a responsabilização de quem foi o causador desse sinistro”, explicou Paulo Ludovico.

A partir dessas informações, os investigadores procuram identificar qual dos envolvidos deixou de cumprir o chamado dever objetivo de cuidado. Entre as situações citadas por Ludovico estão o avanço de sinal vermelho, conversões sem sinalização e o desrespeito à sinalização de parada.

Nos casos em que o sinistro provoca lesões corporais, a vítima precisa procurar a delegacia para manifestar expressamente o interesse em representar criminalmente contra o responsável.

De acordo com Ludovico, o prazo para fazer essa representação é de seis meses, ou 180 dias. O procedimento é necessário para que a Polícia Civil possa atuar na esfera criminal.

O delegado também explicou que a responsabilização criminal e uma eventual ação para buscar ressarcimento por danos são independentes. Ou seja, a vítima pode buscar seus direitos na esfera civil mesmo que também tenha optado pela representação criminal.

Um dos principais recursos utilizados pelos investigadores são as imagens de câmeras de segurança. Segundo o titular da DICT, Goiânia possui equipamentos públicos e privados que podem ajudar a esclarecer o que aconteceu.

Imagens de estabelecimentos comerciais e até de residências podem ser utilizadas para identificar veículos e condutores, além de auxiliar na reconstrução da dinâmica da colisão.

Por isso, a orientação do delegado para quem se envolver em um sinistro é permanecer no local e acionar o socorro. Deixar a cena com o objetivo de evitar eventual responsabilização civil ou criminal pode configurar crime previsto no Código de Trânsito Brasileiro.

A entrevista também abordou situações envolvendo motoristas sob efeito de álcool.

Segundo Paulo Ludovico, a embriaguez, isoladamente ou associada a outros elementos, precisa ser analisada dentro do contexto da ocorrência. Excesso de velocidade e manobras perigosas, por exemplo, podem ser considerados durante a investigação.

Dependendo do conjunto de indícios, a conduta pode apontar para a chamada assunção do risco de produzir o resultado. Nesses casos, uma ocorrência inicialmente tratada como homicídio culposo pode ser enquadrada como homicídio doloso com dolo eventual.

Durante a entrevista, o delegado comentou ainda sobre um caso recente que envolveu um adolescente de 17 anos e resultou na morte de duas pessoas.

Segundo Ludovico, quando há envolvimento de menor de idade, a investigação passa para a Delegacia de Apuração de Atos Infracionais (DEPAI). No caso citado, a unidade responsável pelo procedimento teria concluído a apuração envolvendo o adolescente.

Os números apresentados durante a entrevista também chamaram atenção para a situação dos motociclistas.

Segundo Paulo Ludovico, 75% das mortes registradas no trânsito em Goiânia envolvem motociclistas. Entre os fatores apontados estão excesso de velocidade, desrespeito à sinalização e ultrapassagens realizadas de maneira perigosa.

O delegado destacou ainda que motociclistas estão mais vulneráveis porque possuem menor proteção física em caso de colisão.

Até agosto de 2026, Goiânia já havia registrado cerca de 137 mortes no trânsito, sendo 34 atropelamentos. Para Ludovico, boa parte das ocorrências poderia ser evitada. Segundo ele, aproximadamente 80% dos sinistros analisados seriam evitáveis.

Ao final da entrevista, o delegado deixou uma orientação para quem eventualmente se envolver em um sinistro: permanecer no local e buscar atendimento para as vítimas.

A entrevista completa está disponível no Portal 6 Ao Vivo, programa exibido de segunda a sexta-feira, às 18h30, no canal oficial do Portal 6 no YouTube.

Confira a entrevista na íntegra:

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Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás. Atua no Portal 6 desde 2022, passando pelas editorias de Comportamento, Utilidade Pública e temas que dialogam diretamente com a opinião pública e cotidiano da população.

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