Agricultor viu valas de erosão se abrirem várias vezes na fazenda de 283 hectares da família e mudou a forma de cuidar da terra; décadas depois, a operação chegou a 3,2 mil hectares

O problema reaparecia ano após ano até levar uma família a rever práticas antigas e iniciar uma transformação que atravessaria gerações

Leticia Teixeira Leticia Teixeira -
Bill Kellogg aparece ao lado dos filhos, Jacinta Burd e Shane Kellogg, diante de um grande trator na propriedade da família em Ohio, nos Estados Unidos.
(Foto: Reprodução/Farm Progress)

As valas de erosão que apareciam repetidamente nas terras da família foram o sinal de que Bill Kellogg precisava mudar. Na época, a operação rural em Ohio, nos Estados Unidos, tinha cerca de 700 acres, aproximadamente 283 hectares, e o agricultor via a água abrir sulcos no terreno ondulado ano após ano.

Décadas depois, a propriedade familiar se tornou uma operação de aproximadamente 8 mil acres, o equivalente a 3,2 mil hectares, e passou a ser apresentada como exemplo de conservação agrícola.

A história, porém, começou muito antes da expansão.

Bill entrou cedo no campo. Aos 14 anos, depois que o pai deixou a agricultura para cuidar da esposa doente, ele começou a assumir responsabilidades cada vez maiores.

No último ano do ensino médio, já administrava cerca de 700 acres. Parte das terras vinha de relações construídas com agricultores mais velhos da região.

Água mostrava que algo estava errado

O ponto de virada surgiu quando Bill percebeu que as mesmas áreas sofriam repetidamente com erosão.

Em vez de simplesmente reparar as valas depois das chuvas, decidiu tentar evitar que elas voltassem a aparecer.

A família começou com canais gramados e estruturas destinadas a controlar água e sedimentos.

Com o passar dos anos, novas técnicas foram incorporadas.

Hoje, a operação utiliza análise de solo em grade, plantio direto em determinadas áreas, cultivo em faixas, cobertura vegetal, faixas de proteção e drenagem subterrânea.

Cerca de 60 acres da fazenda são ocupados por canais destinados ao direcionamento da água.

O cuidado com erosões e manejo inadequado do solo também é uma preocupação em propriedades brasileiras, já que a perda de terra pode afetar tanto a produção quanto os recursos hídricos.

Tecnologia entrou em 1999

A mudança ganhou outra dimensão quando Shane, filho de Bill, passou a trabalhar na operação.

Em 1999, a família começou a fazer amostragens de solo em grade. A técnica permitiu entender com maior precisão onde estavam os nutrientes e como diferentes partes das lavouras respondiam ao manejo.

Isso abriu espaço para reduzir aplicações generalizadas.

No sistema de cultivo em faixas, por exemplo, fertilizantes podem ser concentrados onde as plantas terão acesso mais eficiente, em vez de serem distribuídos uniformemente por todo o terreno.

A família, entretanto, não trata uma única prática como solução para todas as áreas.

Culturas de cobertura são priorizadas principalmente em terrenos ondulados, onde o risco de erosão é maior. O plantio direto também não é adotado de maneira absoluta.

A lógica é adaptar a técnica ao campo.

Fazenda quase não sobreviveu aos anos 1980

Antes de chegar aos atuais 3,2 mil hectares, a operação também passou perto de desaparecer.

Durante a crise agrícola norte-americana do início dos anos 1980, Bill enfrentou risco de execução da propriedade e precisou vender bens para manter o negócio funcionando.

Ele contou que, em um dos períodos mais difíceis, a família consumia alimentos armazenados em casa e aproveitava até milho que conseguia recolher.

A ajuda de um tio e uma operação financeira com certificados agrícolas contribuíram para que ele saísse das dívidas.

A experiência moldou a filosofia transmitida posteriormente ao filho: não bastava ampliar produção e receita; os gastos também precisavam permanecer sob controle.

Propriedade virou área de demonstração

Décadas depois das primeiras valas de erosão, a família passou a receber estudantes, produtores, pesquisadores, autoridades e jornalistas.

Após a crise de qualidade da água de Toledo, em 2014, a Kellogg Farms entrou em um projeto de demonstração desenvolvido com organizações agrícolas e o serviço federal de conservação dos recursos naturais.

Ao longo de dez anos, as fazendas participantes receberam milhares de visitantes interessados em acompanhar práticas voltadas ao solo e à água.

O projeto terminou em 2025, mas as técnicas permaneceram.

Em 2026, Bill, Shane e outros integrantes da família foram escolhidos entre os vencedores do Ohio Conservation Farm Family Award.

A expansão também continuou.

O perfil mais recente da família descreve aproximadamente 8 mil acres sob operação, sendo cerca de 1,8 mil próprios e o restante arrendado.

Assim, aquilo que começou como uma tentativa de impedir que a chuva levasse partes da terra acabou alterando a maneira como a família cultiva, investe e planeja o futuro da propriedade.

Leticia Teixeira

Leticia Teixeira

Estudante de Jornalismo e estagiária do Portal 6. É curiosa, apaixonada por comunicação e está sempre em busca de aprender, observar e contar boas histórias.

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