Psicólogos explicam: quem usa as mesmas bolinhas de Natal há décadas pode não estar só evitando gastar, mas guardando as memórias da família na árvore

Enfeites antigos podem ganhar um valor muito diferente daquele que tinham quando saíram da loja e a explicação está na maneira como construímos nossas lembranças

bolinha de Natal
(Foto: Reprodução/Jonathan Borba)

Toda família parece ter pelo menos um enfeite que já perdeu o brilho, uma bolinha arranhada ou um Papai Noel antigo que continua voltando para a árvore todos os anos. Mesmo quando seria fácil comprar uma decoração nova, algumas pessoas simplesmente não conseguem descartá-los.

Mas será que, de alguma maneira, memórias familiares podem ficar “guardadas” nesses objetos?

A resposta ajuda a entender por que uma simples bolinha de Natal pode acabar valendo muito mais emocionalmente do que qualquer decoração recém-comprada.

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A bolinha pode funcionar como uma chave para o passado

Psicologicamente, o objeto não armazena a lembrança como um arquivo. Ele funciona como um catalizador de memória.

O enfeite pode ajudar a recordar o Natal na casa dos avós, uma criança que hoje já cresceu, alguém que morreu ou uma fase específica da família.

Pesquisas sobre objetos e memória mostram que posses podem funcionar como elementos que ajudam a recuperar experiências autobiográficas.

O Natal favorece especialmente a nostalgia

As festas de fim de ano possuem uma característica importante: elas se repetem. A árvore volta, determinadas comidas reaparecem, músicas são tocadas novamente e parentes se reúnem.

A psicóloga Krystine Batcho, especialista em nostalgia, explica que as festas costumam despertar lembranças porque funcionam como marcos temporais e nos ajudam a perceber aquilo que mudou (e aquilo que permaneceu) em nossa vida.

Pesquisas sobre nostalgia também indicam que essas lembranças costumam envolver pessoas próximas e podem fortalecer sentimentos de pertencimento e conexão social.

É por isso que um enfeite aparentemente sem valor pode se tornar difícil de substituir.

A árvore também pode contar a história da família

Uma árvore montada com objetos acumulados ao longo de décadas não representa apenas o Natal daquele ano.

Ela pode reunir diferentes fases de uma família no mesmo espaço.

Existe a bolinha comprada quando os filhos eram pequenos, o enfeite herdado dos avós e aquele objeto artesanal feito na escola.

Estudos sobre memória familiar e celebrações natalinas destacam justamente como tradições, histórias e experiências compartilhadas ajudam a construir continuidade e identidade entre gerações.

Nesse sentido, trocar toda a decoração todos os anos pode ser esteticamente interessante. Manter alguns objetos antigos, porém, cumpre outra função: preservar referências.

Daniel Schacter explica por que as lembranças não são fotografias

Antes do fechamento, vale lembrar uma reflexão do psicólogo Daniel Schacter, professor de Harvard e uma das principais referências mundiais em estudos da memória.

Ao explicar como lembramos, ele afirma que “a memória é um processo muito mais construtivo” do que uma simples gravação do passado.

Isso significa que reconstruímos lembranças combinando elementos de experiências antigas. Uma bolinha de Natal pode participar justamente desse processo.

Ao vê-la novamente, não recuperamos somente a imagem do objeto. Podemos reconstruir pessoas, lugares, sentimentos e histórias associadas a ele.

Talvez a árvore guarde algo, afinal

Houve um tempo em que todos se reuniam juntos à árvore de Natal, mas talvez isso não seja mais realidade em algumas famílias. Seja por distância, ou pela falta de tempo.

No entanto, os objetos, assim como fotos, guardarão, sempre, um pedaço de memória.

Por isso, aquela bolinha desgastada que alguém insiste em colocar na árvore há 30 anos talvez não esteja ali porque ninguém quis gastar dinheiro com outra.

Ela pode continuar pendurada porque, desse modo, uma parte da família também volta para casa.

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Rebeca Ferreira

Rebeca Ferreira

Estudante de Publicidade e Propaganda na Universidade Federal de Goiás (UFG) e estagiária do Portal 6. Atua na equipe desde setembro de 2026.