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Felicidade fabricada no ambiente virtual

No nosso contexto cultural, civilizatório e inclusive em algumas camadas do sistema religioso, a felicidade está vinculada à riqueza, poder, ostentação de bens materiais e glamour. A partir daí, tem se levantado gerações de pessoas neuróticas correndo atrás de uma felicidade inexistente. Observamos com a crescente exposição nas redes sociais essa busca e um efeito-demonstração, sendo necessária uma lista repleta de centenas de “amigos” e a validação com milhares de likes para essa felicidade virtual – o que se vê é muito barulho na time line pra pouca vida vivida de verdade.

Sabemos que a felicidade está na simplicidade, no conta-gotas singelo de alegria. É o contentamento do ser mesmo nos momentos de angústia que nos assolam por vezes, pois a vida não é um mar de rosas. Ela exige de nós uma grande dose de bom humor e de sorrisos verdadeiros, a despeito das tristezas que nos rodeiam. Felicidade é o contentamento com quem você é, e com o que tem; satisfação com suas conquistas sem a necessidade da competição, atitudes pautadas na simplicidade de ser você mesmo e ter um caráter que se sustente independente das situações.

Essa manipulação de imagens e da própria vida, os sorrisos engessados, a felicidade em plenitude a cada postagem, onde só tem espaço para diversão, a loucura em se auto-promover utilizando-se de um marketing pessoal sempre tendencioso e demagogo, esperando pela validação de seus seguidores, trará à pessoa que assim se comporta mais angústias e insatisfações, pois seu “nível” de felicidade sempre será exigido padrões cada vez maiores – e não querendo ser moralista, mas muitos dos que se expõe em demasia demonstram explicitamente apenas o que quer dizer ao passar uma idéia de elevação, através de imagens que aparentam uma vida perfeita, pois a tendência é criar uma estratégia de como gostariam ser vistos, e isso não é difícil perceber.

Essa pseudo-felicidade é narcisista, megalomaníaca, surtada de ambição de grandiosidade, exigente quanto a si superar sempre e principalmente aos outros, e, sobretudo, é infinitamente inalcançável, pois foi criada para ser pura e total frustração e alienação. A maioria não percebeu ainda que o fluxo das coisas essenciais tem sido colocado num patamar de menor importância, e a falta de prioridade, de objetividade e de simplicidade tem ganhado seu lugar como primazia. É óbvio que a exposição é relativa e nem todos usamos o espaço para se expor de forma irreal ou para ostentar, mas essa tal felicidade é quase regra para a maioria. Ninguém suportaria também alguém que só reclama e compartilha problemas o tempo todo; mas o fato é que essas performances de alegria eterna estão longe de ser uma vida normal, a tirania da alegria plena, da popularidade e da bajulação – e muitos correspondem a isso em forma de uma competição irracional – mostram de forma latente as crises de identidade e falta de autenticidade; ilusões e fantasias das expectativas irreais. É urgente a necessidade de repensar se queremos mesmo essa felicidade fabricada…

Gente boa, obrigada por reservar seu tempo para leitura desse texto. Até a próxima segunda-feira à tarde.

Deniza L. Zucchetti é escritora nas horas vagas e mãe em período integral.

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