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‘Não façam isso. Vão me matar’, pediu blogueiro em voo desviado para a Belarus

Quando o piloto avisou que o voo estava sendo desviado para Minsk, um passageiro se levantou imediatamente, abriu o bagageiro, pegou suas coisas e começou a transferir parte delas -um laptop, um celular- para a sua namorada

Folhapress Folhapress -
(Foto: Reprodução)

Ana Estela de Sousa Pinto, da Bélgica – Faltavam apenas dois minutos para que o voo FR 4978 entrasse no espaço aéreo da Lituânia quando ele fez uma curva brusca e mudou de rota, mostram dados do site flightradar24.com.

Era o começo da tarde de domingo (23) e do que está sendo chamado por políticos, executivos e acadêmicos de “pirataria de Estado”: uma operação da ditadura da Belarus, que desviou um avião comercial da Ryanair para a sua capital e prendeu um jornalista crítico do regime de Alexandr Lukachenko.

Quando o piloto avisou que o voo estava sendo desviado para Minsk, um passageiro se levantou imediatamente, abriu o bagageiro, pegou suas coisas e começou a transferir parte delas -um laptop, um celular- para a sua namorada. Editor do canal informativo Belamova, Roman Protassevich, 26, pressentiu que ele era a causa do estranho incidente.

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“Não façam isso. Eles vão me matar. Sou refugiado”, apelou ele à tripulação, segundo relato de uma passageira ao jornalista Franak Viacorka, amigo de Protassevich. Um comissário respondeu: “Somos obrigados. Não temos escolha, são acordos internacionais da Ryanair”.

A maioria dos passageiros ficou chocada com a mudança de rota, mas foi informada de que havia razões de segurança, disse um passageiro que pediu para não ser identificado. “Eu vi a reação de Roman [Protassevich]: desde o início ele ficou agitado, como se soubesse o que estava para acontecer”, afirmou o viajante ao canal informativo belarusso Tut.by. “Parecia que, se a janela estivesse aberta, ele teria pulado para fora dela”, disse outro passageiro, Edvinas Dimsa, 37, à agência de notícias AFP.

Meia hora depois, quando o Boeing da Ryanair -escoltado por um caça e um helicóptero militares- pousou no solo belarusso, cerca de 50 pessoas, entre militares e policiais, esperavam na pista, além de carros de bombeiro e cães farejadores. “Depois falaram de suspeitas de uma bomba a bordo. Mas ainda ficamos meia hora no avião. Se houvesse perigo, deveriam ter nos tirado imediatamente”, disse Saulius Danauskas, que estava no voo, ao site lituano Delfi. Os viajantes foram desembarcados em grupos de cinco, com suas bagagens, que foram farejadas pelos cachorros.

De acordo com passageiros, agentes belarussos entraram no avião e retiraram o blogueiro à força. “Não bateram nele na nossa frente, mas temo pelo seu futuro. Ele estava superassustado. Olhei diretamente em seus olhos, e era muito triste”, disse um viajante à BBC.

Após ser revistado, o jornalista embarcou no ônibus do terminal com outros passageiros. Três minutos depois, um policial veio e disse-lhe para descer do ônibus e mostrar suas malas novamente. Quando Protassevich voltou ao ônibus, já havia três oficiais atrás dele, relata o Tut.by.

Os passageiros foram todos levados a um terminal do aeroporto, passaram pelas máquinas de raio-X e foram levados a uma sala de espera. Nesse momento, segundo relatos, Protassevich foi levado pelos três agentes que o acompanhavam. “Foi a última vez que o vi”, afirmou o viajante entrevistado pelo Tut.by.

Cerca de seis horas depois, às 19h05 (horário local, 13h05 no Brasil), o portão de embarque foi aberto, e eles voltaram ao avião. Pousaram no destino original, a capital lituana, às 21h26, mais de oito horas depois do horário previsto inicialmente. Além de Protassevich e de sua namorada, a jornalista russa Sofia Sapega, 23, outras quatro pessoas que embarcaram no avião em Atenas não chegaram a Vilnius, segundo a polícia da Lituânia.

Na tarde desta segunda, o governo belarusso afirmou que ambos estão presos, mas não se sabe de que Sapega é acusada. Por volta das 15h30 (horário do Brasil), canais pró-regime publicaram um vídeo em que o blogueiro -numa declaração acelerada e tensa- diz que “planejou protestos” e está colaborando com investigadores.

“Ontem, eu foi detido por oficiais no Aeroporto Nacional de Minsk. Agora estou localizado no Centro de Detenção de Minsk nº 1. Posso declarar que não tenho problemas de saúde, nem do coração nem de quaisquer outros órgãos. O tratamento dos oficiais para comigo é o mais correto e lícito”, afirma. Na imagem, ele aparenta ter um hematoma na testa.

QUEM É O BLOGUEIRO PRESO

Apesar dos relatos de que o blogueiro temia ser executado, veículos independentes da Belarus dizem que a pena capital não é prevista nos três crimes de que é acusado: “cometer ações deliberadas destinadas a incitar a inimizade social com base na afiliação profissional” (pena de até 12 anos), “organizar distúrbios de massa” (15 anos) e “organizar ações que violam gravemente a ordem pública” (3 anos).

Como outros jornalistas, porém, Protassevich foi incluído pela KGB na lista de terroristas -uma condenação por terrorismo poderia, teoricamente, levar à pena de morte. A Belarus é o único país pós-soviético e europeu a manter essa punição e executou dois prisioneiros em 2019, segundo a Anistia Internacional.

O jornalista atraiu a atenção da ditadura desde que o Nexta, que ele co-fundou e editou, tornou-se um dos principais canais de informação na cobertura dos enormes protestos contra Lukachenko, após as eleições presidenciais de agosto de 2020. Com a internet bloqueada pela ditadura, o canal em aplicativo foi ferramenta indispensável para manifestantes que pediam a renúncia do ditador e eleições livres e justas.

Protassevich já havia sido processado em 2017 e, em 2019, sob ameaças, exilou-se na Lituânia. Ele assumiu o canal Belamova quando seu editor foi preso pela ditadura no ano passado. Uma das últimas postagens instava belarussos a protestarem em suas cidades contra a morte do prisioneiro político Vitold Ashurk, no dia 21, numa colônia penal. Segundo o regime, ele teve um infarto.

Dmitri Protassevich, pai do blogueiro, disse que o filho provavelmente jamais esperaria passar por semelhante “sequestro”: “Quando você cruza a fronteira da União Europeia, você pensa que está sob proteção internacional”.

Questionado sobre como imaginava que Roman estava passando nesse momento, respondeu que o garoto tem um espírito forte, mas é também sensível: “Torcemos para que ele continue centrado e não caia nos truques do regime. É horrível até pensar nisso, mas temos muito medo que ele seja espancado e torturado”.

​A Belarus negou que tenha sequestrado o voo da Ryanair para prender o jornalista e acusou países europeus de politizar o incidente. “Não há dúvida de que as ações de nossos órgãos competentes estiveram de acordo com as regras internacionais”, afirmou o Ministério das Relações Exteriores.

O Departamento de Aviação também havia atribuído a ameaça de bomba ao Hamas, grupo islâmico que governa Gaza. De acordo com a versão, foi enviada uma mensagem em inglês dizendo: “Nós, soldados do Hamas, exigimos que Israel cesse o fogo na Faixa de Gaza. Exigimos que a União Europeia renuncie ao seu apoio a Israel nesta guerra”. O conflito entre israelenses e palestinos, porém, havia cessado no dia 20.

A história foi desmentida pelo Hamas: “Não recorremos a esses métodos”, declarou Fawzi Barhoum, porta-voz do grupo, à agência Reuters.

Houve forte reação internacional, e governos da União Europeia e do Reino Unido baniram voos de empresas belarussas e orientaram suas companhias a não sobrevoarem o espaço aéreo da Belarus. Tanto a UE quando o governo britânico vão ampliar sanções ao regime de Lukachenko.

“É terrível. Lukachenko faz coisas piores que [o ditador norte-coreano] Kim Jong-un. É um genocício agora na Belarus”, afirmou a ativista belarussa Tatiana Sivachenko à BBC.

DEPRIMIDOS, EX-MANIFESTANTES VEEM ‘INVERNO SEM FIM’

Nas ruas da Belarus, o clima é de desolação, descreve a tradutora Jenny, que não quis dar o sobrenome. “Estamos sem palavras. Há uma escalada de horror infindável, e percebemos que pode não ser ainda o fundo do poço”, disse ela, por videoconferência.

Professora de literatura que foi demitida ao apoiar protestos contra a ditadura, ela diz que a semana passada já havia começado mal: 12 estudantes e 1 professor de quatro universidades diferentes foram levados ao tribunal em processos criminais, supostamente por terem se manifestado contra Lukachenko.

“Poucos dias depois veio a notícia da morte de Vitold Ashurk, depois o fechamento do Tut.by e agora esse episódio com Roman Protassevich. Lá fora o tempo está bonito, a primavera começou, mas vemos que ninguém vai nos ajudar, não há a quem recorrer, há só uma escuridão infinita”, diz.

Segundo a tradutora, com o aumento da repressão a cidadãos comuns, que passaram a ser presos ou multados apenas por levar na carteira um adesivo vermelho e branco, uma das poucas ações que restaram é escrever cartas para os prisioneiros políticos. O trabalho será longo: eles são mais de 405 nesta segunda, de acordo com a Viasna, organização de direitos humanos.

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