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Essa é a grave acusação que universidade está fazendo contra o Carrefour

Convidada a participar do lançamento nesta terça-feira (29), a rede não só se recusou, como acusou a obra de utilizar informações sigilosas do grupo que haviam sido compartilhadas com a Fenavist

Folhapress Folhapress -
(Foto: Reprodução)

Daniele Madureira e Ana Luiza Tieghi, de SP – Pouco mais de sete meses após um episódio violento em uma de suas lojas em Porto Alegre (RS), envolvendo a morte de um homem negro por um segurança da rede, o Carrefour tem seu nome relacionado a uma nova polêmica sobre o caso.

De acordo com a Universidade Zumbi dos Palmares, a varejista teria tentado censurar o lançamento do livro “Caso Carrefour, Segurança Privada e Racismo: Lições e Aprendizados”. A obra trata justamente do assassinato de João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, em 19 de novembro de 2020, na véspera da comemoração do Dia da Consciência Negra no Brasil.

Convidada a participar do lançamento nesta terça-feira (29), a rede não só se recusou, como acusou a obra de utilizar informações sigilosas do grupo que haviam sido compartilhadas com a Fenavist (Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transportes de Valores).

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O Carrefour disse, em resposta por email à instituição, que “se reserva no direito de buscar a responsabilização criminal de todos os envolvidos, bem como adotar as medidas cíveis e inclusive reparatórias por todos os prejuízos que venham a ser causados.”

Depois do lançamento do livro, José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, e os pesquisadores que assinam a obra fizeram um boletim de ocorrência contra o Carrefour.

“Fomos à delegacia fazer BO de intimidação, censura, ameaça. Vamos esperar a polícia terminar o inquérito e avaliar se entramos com pedido de indenização por danos morais, porque produziram esse constrangimento, essa agressão gratuita para uma obra científica”, afirma o reitor.

ENTENDA O CASO

A morte de João Alberto gerou fortes protestos em diferentes cidades do país, na esteira do movimento “Vidas negras importam”, desencadeado nos Estados Unidos depois que um homem negro, George Floyd, foi estrangulado e morto por um policial branco em maio do ano passado.

João Alberto foi levado por dois seguranças brancos (um deles, policial militar) de um supermercado da rede francesa ao estacionamento da loja. Ali, foi espancado e asfixiado até morrer.

A Universidade Zumbi dos Palmares decidiu fazer uma pesquisa para entender o que levou a este desfecho. A instituição participa do Comitê Segurança do Futuro, que busca soluções para a segurança pública.

A pesquisa resultou no livro, de autoria de Susana Durão, professora de antropologia da Unicamp, e de Josué Correia Paes, relações institucionais da diretoria de segurança corporativa do Hospital das Clínicas de São Paulo. A obra foi publicada pela Editora Unipalmares e estará disponível em versão digital na próxima semana.

José Vicente afirma que a instituição convidou a rede de supermercados para participar do lançamento da pesquisa, em um evento ao qual compareceu também a Fenavist.

De acordo com o reitor, a resposta da rede veio em “um email gratuito, deselegante, agressivo, dizendo que não concordam com a pesquisa e que, se fosse publicada, responsabilizariam civilmente todos os envolvidos”.

No email, ao qual a reportagem teve acesso, o gerente jurídico do Carrefour, Danilo Bonadio Bonfim, afirma que o grupo foi surpreendido com o convite de lançamento. “Cumpre registrar que a iniciativa é resultado de um trabalho unilateral desenvolvido por parte de V.Sas., que, além de não contar com o envolvimento do Grupo Carrefour, contém graves imprecisões e equívocos”, diz o texto.

Depois de analisar o exemplar, a rede disse que o “título e o conteúdo do livro associa o nome do Grupo Carrefour ao racismo, muito embora referida prática não tenha sido identificada pelas autoridades competentes, nem no âmbito criminal nem no cível”.

A varejista reclama da “utilização indevida” de documentos internos pertencentes ao Carrefour, que haviam sido apresentados aos representantes da Fenavist, em reunião particular. A rede diz que os documentos não poderiam ser veiculados a todo o público sem a sua permissão.

A mensagem diz ainda que o grupo “se recusa a participar do lançamento do livro e refuta veementemente todas as informações nele contidas, especialmente aquelas que não representam a história e a conduta do Carrefour no combate ao racismo ou qualquer outro meio de discriminação”.

“Nós imaginávamos que eles teriam interesse em vir, ouvir, pegar cópia e levar pra casa, e de repente essa postura de hostilização se apresentou dessa maneira”, afirma Vicente.

Segundo o reitor, por ser um trabalho acadêmico, não haveria obrigação de ouvir a rede de supermercados. Vicente afirma ainda que o foco do trabalho não é a empresa, mas a forma com a qual os seguranças privados se relacionam com os negros, “seja no Carrefour, no Extra [do Grupo Pão de Açúcar], em espaços públicos e privados”, diz.

OUTRO LADO

Sobre a publicação do livro, o Carrefour Brasil afirma que “causa estranheza um livro supostamente baseado no sistema de segurança da empresa seja escrito sem ao menos procurar quem administra este sistema, ou seja, o Carrefour”. De acordo com a rede, também gerou surpresa ver documentos internos publicados sem sua permissão.

Afirma ainda que “jamais irá tomar qualquer atitude que censure o material. Tal ação não faz parte das premissas de transparência que o Carrefour segue”.

A rede ressalta que, desde o caso em Porto Alegre, adotou uma postura “transparente e colaborativa”, assumindo diversos compromissos públicos para combater o racismo no Brasil. A empresa assumiu inclusive um termo de compromisso com autoridades públicas no valor de R$ 115 milhões para promover ações em prol da igualdade racial.

A viúva da vítima, Milena Borges Alves, também recebeu uma indenização da varejista, cujo valor não foi divulgado. Supera, no entanto, R$ 1 milhão.

“O Carrefour entende que poderia ter contribuído para a construção do livro dado todo o aprendizado dos últimos meses e lamenta que isso não tenha sido considerado. É amplamente favorável à discussão do atual modelo de segurança privada no país e sempre esteve à disposição para dialogar com diversas organizações e entidades de forma que todos possam construir juntos um novo cenário de segurança e combate ao racismo no Brasil”, afirmou a rede, em comunicado.

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