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Linguagem neutra, de ‘amigues’, ‘todes’, ‘elu’ e ‘ile’ ganha a TV e os livros

Roteirista reconhece que o uso do gênero neutro está restrito a uma pequena faixa da sociedade e não reflete o dia a dia do público heterogêneo que acompanha as novelas da Globo

Folhapress -
(Foto: Reprodução)

(FOLHAPRESS) – “Olha aqui, vocês são amigues dele?”, pergunta a atriz Elizabeth Savalla a um grupo de drag queens que convivem com Marcos Caruso na novela “Pega Pega”, de 2017, reexibida agora pela TV Globo, depois de socorrer o amigo de um tombo e o levar à boate gay em Copacabana da qual ele é dono.

Savalla hesita antes de fazer a pergunta, interpretando um tom de estranhamento que serve para pontuar que ela não sabe se está usando bem a linguagem neutra, uma variação linguística que não faz parte do dia a dia de sua personagem, Arlete, uma mulher cisgênero heterossexual.
Nas ruas, é raro ouvir na boca do povo “amigues” e qualquer outro substantivo ou adjetivo neutros para representar pessoas não binárias, ou seja, que não se identificam com o gênero masculino ou feminino. Mais raro ainda é ouvir pronomes neutros, como “ile” e “dile” ou “elu” e “delu”.

Mas a cena protagonizada por Savalla, que se repete algumas vezes ao longo do folhetim, evidencia um ponto de partida na indústria do entretenimento que agora vai se consolidando. Se antes o uso do gênero neutro era restrito às redes sociais, principalmente entre ativistas transexuais, ao longo dos últimos anos ele vem se espalhando pelos pilares da cultura pop.

Da mesma forma que “Pega Pega”, seriados, documentários e livros já adotam a variação linguística, seja por pura e simples vontade de dar voz a quem nunca se sentiu representado na mídia, seja porque quem lacra também lucra. Ou -por que não?- pelos dois motivos.

“Cara e Coragem”, que está sendo escrita por Cláudia Souto, a mesma autora de “Pega Pega”, adotará a linguagem neutra em algumas cenas. Com estreia marcada para maio do ano que vem, a novela abordará o mundo dos dublês.

Ainda não se sabe em que situação tal variação deve aparecer, visto que o folhetim ainda não teve sua premissa revelada, mas Souto adianta que estará na boca de “personagens que representam a fatia da sociedade que já se comunica assim naturalmente”, como em “Pega Pega”.

“As novelas são crônicas de sua época. Ao abordar temas referentes à comunidade LGBTQIA+, é natural que o gênero neutro seja incorporado pelos personagens. Em ‘Pega Pega’, o próprio elenco propunha o uso em algumas situações e, em outras, partia do roteiro.”

A roteirista reconhece que o uso do gênero neutro está restrito a uma pequena faixa da sociedade e não reflete o dia a dia do público heterogêneo que acompanha as novelas da Globo. São pessoas que podem nem notar que um ator ou uma atriz, como Savalla, usou um “e” em vez de um “a” ou “o” nos substantivos.

A situação pode ser diferente com os pronomes. Com sonoridade bastante diferente das formas tradicionais, “ile” e “dile” ou “elu” e “delu” não devem passar despercebidos aos ouvidos do público. Souto, porém, não acredita que o estranhamento seja um problema.

“O público de novelas é apresentado todos os dias a novas gírias, sotaques e palavras. Não é diferente com o gênero neutro. Logo se darão conta de que é uma nova forma de expressão. Acho relevante que seja mostrada numa obra de tanto alcance.”

Embora de maneira tímida, as plataformas de streaming também têm adotado o gênero neutro. Os destaques vão para “Todxs Nós”, série brasileira da HBO que explora as letras e os estereótipos da comunidade LGBTQIA+, e “Love Goes”, da Netflix, em que Sam Smith, que se identifica como pessoa não binária, mostra as gravações de seu terceiro álbum dentro do Abbey Road Studios.

Há ainda a série “Sex Education”, também da Netflix, sobre adolescentes cheios de hormônios e sem nenhuma experiência que aprendem a lidar com gênero e sexualidade por meio de um colega de classe, filho de uma terapeuta sexual, que oferece consultorias às escondidas na escola.

Na terceira temporada da série, que estreou em setembro, há duas personagens não binárias –Cal e Layla, papéis de Dua Saleh e Robyn Holdaway, que também se identificam como pessoas não binárias e fazem sua estreia na produção.

Numa cena, Cal pede desculpas a Layla por não lutar pelo respeito à não binariedade na escola. Legendada, Laya responde que “está tudo bem, você ainda não estava pronte”, enquanto, dublada, diz apenas que “está tranquilo, você vai falar quando chegar sua hora”.

Em português, as desinências neutras parecem ser usadas nas versões dubladas apenas quando não há outra opção, como quando Cal se apresenta para o colégio e diz que seu pronome não é “ela”, mas “ile”, usado para marcar a neutralidade, assim como “elu”.

Em inglês, o pronome que Cal usa é o “they”, adotado por estrelas como Smith, Demi Lovato e Janelle Monáe, que também se identificam como pessoas não binárias. O pronome foi eleito a palavra do ano pelo dicionário Merriam-Webster em 2019, quando sua busca em plataformas como o Google, o Yahoo e o Bing subiu 313%.

A Netflix não dá detalhes sobre os bastidores de suas decisões, mas parece não haver uma regra clara. Mesmo nas legendas, há cenas em que o gênero neutro não é adotado, como quando um garoto diz a Cal “you’re beautiful” e a legenda é traduzida como “você é uma lindeza” em vez de “você é linde”.

Parece ainda que o escritório da Netflix em cada país adota uma regra própria. Em francês, Cal diz, tanto na legenda quanto na dublagem, que seu pronome é “iel” –uma mistura de “il” e “elle”, ou “ele” e “ela”. Já em italiano, diz que “prefere pronomes neutros”, sem especificar quais, embora integrantes da comunidade LGBTQIA+ na Itália usem “loro”, o equivalente ao “they” em inglês, como neutro.

A estratégia de evitar a desinência de gênero, mesmo se distanciando do original, costumava ser adotada em livros quando personagens não binárias tinham pouca presença. Conforme a não binariedade ganha protagonismo, porém, “não dá mais para fugir”, diz Paula Drummond, editora de livros juvenis da Globo, com passagem pela Rocco.

“Trabalhar com gênero neutro em traduções é muito desafiador, porque o português é todo baseado em gênero”, diz a editora, para quem este é um problema até nas páginas de agradecimento, quando os autores citam nomes que não denotam gênero, que acaba demarcado na tradução para que haja concordância.

Segundo Drummond, a variação linguística é só mais uma entre as muitas que ocorreram ao longo da história e foram absorvidas pelos livros. Por isso, em sua avaliação, não se deve lutar contra ela.

A editora dá como exemplo o banimento da ênclise –o uso do pronome depois do verbo– em situações em que é obrigatória pela norma culta, como no início dos períodos. Ela já foi abolida por completo em algumas editoras e por distribuidoras ao titularem filmes, como no caso de “Me Chame pelo Seu Nome”.

Outro exemplo é a mistura da segunda com a terceira pessoa do singular em diálogos em que se busca naturalidade, repetindo o uso de “tu” concomitante ao “você” comum na língua oral.

O último trabalho de Drummond com o gênero neutro é “Cool for the Summer: Um Verão Inesquecível”, um romance juvenil que chega às livrarias em outubro. Na história, há Taylor, que se identifica como pessoa não binária. Mesmo que Taylor apareça poucas vezes, a editora decidiu usar o pronome neutro, já que, em inglês, a autora usou “they”. O desafio foi decidir entre “elu” ou “ile”.

“A língua serve à sociedade, não o contrário. Se existe uma demanda pelo gênero neutro, a gente tem que aprender a usar. O que me preocupa é que, por não estar normatizado, não tem um padrão. ‘Elu’ é o que mais está se falando agora, mas também tem o ‘ile’. A gente não sabe se vai ficar datado ou até errado daqui a alguns anos.” Drummond lembra que, no passado, a neutralidade era alcançada pelo “X”, “@” e “_”, que caíram em desuso por não serem possíveis de pronunciar e confundiam softwares de leitura usados por pessoas com deficiência visual.

A dificuldade de Drummond foi a mesma encontrada pela Galera, o selo juvenil do grupo Record, ao traduzir “Os Garotos do Cemitério”. O livro é protagonizado por Yadriel, um jovem que enfrenta preconceito até entre a comunidade de bruxas da qual quer fazer parte, já que, supostamente, a Morte não aceitaria sua identidade transgênero.

Diferentemente do seu personagem, que se torna homem, Aiden Thomas, que escreveu o livro, não se identifica com o gênero masculino ou feminino. Por isso, decidiu usar o gênero neutro em suas descrições, ainda que nos diálogos isso não apareça, já que não há personagens não binárias.

A estrutura do português, porém, impôs dificuldades para construir, na tradução, frases completamente neutras. Foi então que a editora escolheu uma mescla de linguagem tradicional com não binária e decidiu usar construções como “os bruxes” e “aqueles menines”.

“A gente está testando as águas. Quando você lê ‘bruxes’, já há um estranhamento. Se colocássemos ‘des bruxes’, talvez criássemos uma resistência muito mais pesada entre leitores, o que prejudicaria o desempenho do livro. Enquanto leitor, eu adoraria, porque é o que mais faz sentido, mas por ora precisamos dar um passo menor”, diz Arthur Ramos, o tradutor, que, como Yadriel, é um homem trans.

“Se os leitores ainda não estão familiarizados com a linguagem não binária, meu livro e qualquer obra que utilize esta linguagem são uma maneira de eles se educarem”, acrescenta Thomas. “Há muitas pessoas que podem ser feridas, intencionalmente ou não, pela linguagem binária, porque ela não permite que tais indivíduos se expressem adequadamente.”

Segundo Ramos, “o pronome neutro tem um peso político”. “Ou a gente vai desrespeitar o texto original, usando pronomes binários, ou a gente vai levantar uma bandeira política em defesa de pessoas trans.”

A política de fato já se debruça sobre o assunto. O presidente Jair Bolsonaro considera a adoção da língua não binária um “aparelhamento na educação”, e seu secretário especial da Cultura, Mario Frias, prometeu fazer tudo que puder para impedir a “vandalização da nossa cultura” quando o Museu da Língua Portuguesa escreveu “todes” nas redes sociais.

No Congresso, há um projeto de lei, do deputado Junio Amaral, do PSL de Minas Gerais, que tenta proibir instituições de ensino, vestibulares e concursos públicos de usarem a linguagem não binária. Sua justificativa é que a variação seria um “enviesamento político-ideológico”.

Ao menos 14 assembleias legislativas também tentam proibir, em âmbito estadual, a linguagem não binária. No Rio de Janeiro, a iniciativa é liderada por um dos filhos do presidente, Carlos Bolsonaro, do Republicanos.

Em Santa Catarina, é o próprio governador, Carlos Moisés, do PSL, que defende a proibição, tendo publicado em junho um decreto que faz valer sua vontade. O PT recorreu ao Supremo Tribunal Federal para tentar derrubar o decreto, que será analisado por Kássio Nunes Marques, ministro aliado de Bolsonaro.

Segundo linguistas, o uso da linguagem não binária pela indústria do entretenimento, ao lado da abordagem do assunto em veículos de imprensa e programas de auditório, faz com que ela possa cair na boca do povo, embora de maneira lenta, como é comum com outras mudanças na língua.

Iran Mello, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, produz uma cartografia sobre o uso do gênero neutro no Brasil. Sua pesquisa consiste em mapear a utilização de neutralidade nas redes sociais, na imprensa e na cultura de acordo com a regionalidade e o grupo etário dos falantes. Ele diz que a variação pode ser comparada a neologismos que vêm da internet, como “tuitar”.

“A dona Maria, uma dona de casa de 80 anos, talvez não conheça a linguagem da internet, mas vai ser apresentada a ela porque o telejornal pede o envio de mensagens com determinada hashtag. Só não chega à população aquilo que é morto de propósito, como tentam fazer com a linguagem neutra.”

Ele divide essa variação linguística em três camadas. A primeira, que considera completamente inteligível, trata da escolha de palavras como “pessoal” para se referir tanto a pessoas binárias como não binárias.

A segunda, que ele considera mais disruptiva, mas ainda inteligível, é a do uso do “e” em substantivos e adjetivos. Há, por fim, a terceira, a menos inteligível à primeira vista, onde entram “@”, “X”, “_” e os pronomes “ile” e “elu”, além de supressões de vogais, como “obg” em vez de “obrigado”.

“Em seis meses de pesquisa, notei que a segunda camada é a que está sendo mais usada, inclusive por produções culturais e pessoas binárias. A gente não se acomoda, mas avança em relação às transformações, enquanto a terceira camada, do ‘ile’, do ‘elu’, pode não ganhar reconhecimento e adesão por ser disruptiva demais.”

Professora da Universidade Federal de Sergipe e vice-presidente da Associação Brasileira de Linguística, Raquel Freitag reconhece a necessidade de uma forma inclusiva em relação às pessoas não binárias, mas é crítica à neutralização do gênero, ou seja, à troca do “o” pelo “e” como genérico, porque isso apagaria o gênero feminino.

Freitag também acredita que a mudança pode esbarrar na dificuldade encontrada para a construção de frases inteiramente neutras, ou seja, que não usem só substantivos ou adjetivos, mas também pronomes e artigos. É a mesma dificuldade encontrada pelas editoras.

“Não tem como prever o que vai acontecer na língua, porque ela é sensível à dinâmica social, mas a linguagem não binária está rompendo a bolha do círculo onde foi criada”, diz. “Uma forma linguística emerge para atender demandas comunicativas de um grupo e, quando ganha aceitação entre os outros, está em vias de regularização. Mas nada na língua é rápido. São décadas e décadas para uma mudança como essa vingar.”

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