Após sobreviver à Covid, brasileira está entre cientistas mais influentes do mundo

"Foi um reconhecimento que eu não esperava. Espero que seja um incentivo para os pesquisadores brasileiros, especialmente para as mulheres” disse a pesquisadora

Folhapress -
***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, BRASIL, 06-04-2022: Retrato na casa da cirurgiã brasileira Angelita Habr-Gama.(Foto: Bruno Santos/ Folhapress)

(FOLHAPRESS) – As mensagens de parabéns não param de chegar no celular da cirurgiã Angelita Habr-Gama, 89, que nesta semana foi reconhecida pela Universidade Stanford (EUA) como uma das médicas que mais contribuíram para o desenvolvimento da ciência no mundo.

“Foi um reconhecimento que eu não esperava. Espero que seja um incentivo para os pesquisadores brasileiros, especialmente para as mulheres. A primeira coisa que a mulher precisa ter é autoconfiança e mostrar isso aos outros. E não aceitar o não como resposta”, diz a professora emérita da USP, em entrevista à Folha em seu apartamento, em Moema (zona sul de São Paulo).

A médica foi incluída entre os 2% de cientistas mais citados em diversas disciplinas no mundo. O relatório foi preparado por uma equipe de especialistas liderada por John Ioannidis, professor de Stanford, em parceria com a editora Elsevier BV.

Angelita é uma das pesquisadoras brasileiras mais premiadas e publicou mais de 200 artigos científicos em revistas indexadas na base de estudos PubMed.

Para a cirurgiã, a sua produção científica reflete a qualidade da medicina e da escola cirúrgica brasileira. “É pena que o país não valoriza a ciência, a cultura, a educação. As verbas, que já eram poucas, estão diminuindo ainda mais. Você viu que nesta semana cortaram mais verba da cultura? Fora daqui, você já tem vergonha de dizer é brasileiro.”
A premiação chega dois anos após a cirurgiã ter contraído Covid-19 e passado 50 dias sedada na UTI do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, instituição à qual é vinculada há mais de 60 anos.

“Cheguei ao hospital, fiz a tomografia e os pulmões estavam inteirinhos tomados. Quando os colegas viram, aposto que disseram: ‘Ah, agora a doutora vai’. E eu pensei: ‘Vou morrer, mas vivi uma vida muito boa, consegui o que eu queira e o que nem imaginava’. Fui sedada imediatamente e me lembro que a última coisa que eu pensei foi: ‘Eu não quero morrer.”

Após a alta, ela diz que retomou as atividades em dez dias e não parou mais. Continua atendendo no consultório e operando. Após a internação, acrescentou à rotina aulas de xadrez às quartas no Clube Paulistano. No passado, ela jogava voleibol e tênis no mesmo clube, período em que participou de campeonatos e colecionou várias medalhas.
“Eu gosto de disputa. Sempre gostei de disputar desde pequena. Mas eu sei perder também, acho uma delícia quando o adversário é melhor do que eu. Mas quando [o adversário] é mixo e eu perco de bobeira, aí eu me chateio.”

Hoje, ela diz que foi uma “experiência boa” passar por uma quase morte devido à Covid porque aprendeu a valorizar ainda mais a vida.

“Usufruo a vida, não deixo passar nada. Eu desfruto do dia a dia, desfruto da minha casa, desfruto da comida, desfruto da companhia dos parentes e dos amigos, desfruto dos jornais, desfruto das revistas.”

Casada com o também cirurgião Joaquim Gama, a médica acredita ter herdado da mãe a imensa vontade de viver.

“Minha mãe morreu com 97 anos. Ela me dizia: ‘Você vai a tantos congressos médicos. Eu não quero morrer. Tenho tanta coisa ainda para fazer!’ Acho que vou ser como ela. Quando tiver que morrer, vou morrer sob protestos.”
Segundo Angelita, a perda de entes queridos, como os pais, cinco dos seis irmãos e vários amigos, é principal a dor que carrega. “O [empresário] Antônio Ermírio de Moraes [1928-2014] era meu amigo, meu grande amigo. O [jornalista] Julio Mesquita [1922-1996] era outro amigo querido. Agora eu entendo porque muita gente fica triste quando envelhece. Você vai perdendo os amigos da sua geração, perde as referências.”

Ao mesmo tempo, a cirurgiã adora se cercar de pessoas mais jovens, como os seus assistentes e os sobrinhos-netos.
“Saímos com eles, vamos jantar fora, viajamos. Com os sobrinhos-netos e os amigos deles, todos com 25, 30 anos. Eles me chamam de tia Gê. Não saio com os meus amigos velhos. As conversas são sempre as mesmas: ‘Dói aqui, dói ali’.”

Sobre eventuais projetos futuros, a médica diz que o principal é continuar vivendo bem o dia a dia. “Quem passa pela morte como eu passei não faz muitos projetos. Sabe que você pode morrer daqui a pouco. Se você faz muitos projetos, está perdendo o momento, o dia de hoje.”

Nascida na Ilha de Marajó (PA), Gama entrou na Faculdade de Medicina da USP em 1952, aos 19 anos. Já ganhou mais de 50 prêmios científicos e é uma referência mundial em coloproctologia, especialidade que cuida das doenças do intestino grosso, do reto e ânus.

Desde a chegada à faculdade, Angelita coleciona pioneirismos. É a primeira mulher titular em cirurgia da USP, a primeira a ser aceita pela sociedade americana de cirurgia e a primeira premiada pela sociedade europeia de cirurgia.
Além disso, exerceu a presidência da Sociedade Brasileira e da Sociedade Latino-Americana de Coloproctologia e do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva.

Pouco antes de ser infectada pela Covid em 2020, a médica lançou a biografia “O Não Não É Resposta” (DBA Editora), escrita por Ignácio de Loyola Brandão. Na obra, ela relata as barreiras enfrentadas e as realizações na área cirúrgica, ainda hoje uma das com menor número de mulheres.

“O primeiro ‘não’ que eu ouvi foi dos meus pais, quando optei pela medicina e eles queriam que eu fosse professora, como minhas irmãs. Depois, quando decidi pela cirurgia, o chefe da residência disse que era melhor eu ir para a área clínica, que a cirurgia era para homens. Fui em frente, prestei concurso e passei.”

Quando decidiu pela especialidade de coloproctologia voltou a enfrentar resistência. Após conseguir uma bolsa para estagiar em um hospital de Londres especializado em cirurgias colorretais, foi barrada inicialmente sob o argumento de que a instituição só aceitava homens. “Fui a primeira mulher a estagiar lá.”

Ao entrar para o mercado de trabalho, as coisas se tornaram mais simples, segundo ela. “Sempre trabalhei em pé de igualdade, no mesmo nível de trabalho dos homens, ou até mais”, afirma.

Você tem WhatsApp ou Telegram? É só entrar em um dos grupos do Portal 6 para receber, em primeira mão, nossas principais notícias e reportagens. Basta clicar aqui e escolher.