‘Segredos da Playboy’ expõe bastidores obscuros da revista que desnudou beldades

Série documental chega ao Brasil neste domingo

Folhapress -
(Foto: Reprodução)

Vitor Moreno, de SP – A Mansão Playboy habitou o imaginário de muitos homens mundo afora. Muito além de ser a residência do magnata da comunicação Hugh Hefner (1926-2017), era onde ele recebia amigos e celebridades, sempre cercado por belas mulheres, muitas das quais saídas das páginas de sua revista, conhecida pelos ensaios de nudez feminina.

Por anos, o que acontecia nessas festas fechadas alimentava a lenda do criador da revista “Playboy”, que se vendia como defensor da liberdade de expressão e precursor da revolução sexual que dava às mulheres o direito de escolher (inclusive ser fotografadas como vieram ao mundo). Porém, a série documental “Segredos da Playboy”, que chega ao Brasil neste domingo (19) pelo canal pago A&E, revela que nem tudo eram flores.

Violência sexual e abuso de drogas eram comuns, segundo Miki Garcia, que foi playmate (como eram chamadas as garotas que estampavam o pôster central da publicação) em 1973 e depois continuou trabalhando para Hefner como diretora de promoções da revista. “Até hoje tem coisas que vi naquela mansão que me assombram”, diz ela em evento virtual sobre o documentário, do qual o F5 participou.

“E olha que eu nunca estive no quarto do Hefner”, conta. “Mas você via aquelas mulheres que eram extremamente controladas, se drogando e subindo as escadas para participar de atividades que não acho que a maioria delas estava acostumada a lidar antes, nas vidas normais delas. Coisas que elas foram coagidas a fazer e nas quais eu penso constantemente.”

Ela lembra que a primeira vez que notou algo diferente foi quando perdeu o posto de Playmate do Ano, que lhe havia sido prometido, porque Hefner queria ir para a cama com ela. “Eu recusei a proposta dele três vezes”, afirma. “Apesar de tudo, ele não forçou nada.”

Algum tempo depois, ela conta ter sido estuprada duas vezes por um frequentador da mansão. Sem revelar o nome do abusador, ela diz que se tratava de um ator de TV famoso. “Eu disse que ia ligar para a polícia e ele afirmou que ninguém ia acreditar em mim, que ele tinha dinheiro e advogados”, lamenta ela, que não denunciou o ataque à época. “Eu não teria como provar o que ele me fez.”

Para Garcia, as pessoas se comportavam na mansão como se estivessem numa espécie de “culto”. “Você tinha que agir de certa forma, falar do jeito certo sobre a marca e, naquele universo da ‘Playboy’, o Hefner tinha controle completo sobre as finanças das mulheres”, diz. “Ele determinava quanto de publicidade você podia fazer e fazia um contrato que proibia as modelos de aceitarem outros trabalhos por dois anos sem autorização por escrito.”

Ela diz acreditar que isso era feito para que houvesse competição entre as mulheres pela atenção dele, de modo que elas fossem mais fáceis de manipular. “Muitas delas vinham de lares violentos ou de relações abusivas, elas tinham medo”, lembra. “Mesmo as que tinham boa condição e uma família amorosa idolatravam Hugh Hefner. Eu chamo de ‘culto’ porque elas eram levadas a crer que ele era quem detinha todo o poder e fazia as coisas parecerem glamorosas e você se sentir especial.”

Outras ex-playmantes também dão depoimentos, bem como ex-coelhinhas (funcionárias de clubes do empresário), ex-empregados da mansão e ex-namoradas de Hefner, como Holly Madison. Um dos principais depoimentos é de Jennifer Saginor, que cresceu na mansão por ser filha do médico de Hefner.

O cenário que vai se montando na tela é o de um ambiente tóxico, que propiciou diversas práticas criminosas, com a anuência do dono para boa parte delas. Entre os crimes que teriam ocorrido na casa estão o abuso de menores, além de serem lembradas mortes trágicas, como um suicídio e um assassinato.

Já fora da casa principal, em “mansões satélite”, foram montados clubes menores para enviar garotas que não tinham conseguido virar playmates, mas eram usadas para práticas sexuais. Na “noite das porcas”, prostitutas eram contratadas na rua para servir aos amigos do empresário.

Para Alexandra Dean, diretora e produtora executiva do documentário, tudo isso está vindo à tona somente agora por um motivo simples: “Hefner está morto”. “Depois que ele morreu, deixou de ter poder sobre as pessoas que ele estava silenciando”, afirma.

“Ele ameaçou várias pessoas, como é possível ver na série”, lembra. “Era um homem poderoso na mídia e conhecia todo mundo no universo editorial, então não era fácil publicar algo o criticando. Não dava para publicar um livro criticando o Hefner sem ele ficar sabendo e impedir.”

VERSÃO BRASILEIRA

No Brasil, a versão nacional da “Playboy” chegou nos anos 1970 e foi um grande sucesso editorial durante 40 anos. De Cleo a Xuxa, passando por Grazi Massafera e Juliana Paes, várias famosas posaram para as páginas da revista, que dava status (e um polpudo cachê nos tempos áureos).

Apesar de aqui não ter se reproduzido o modelo da Mansão Playboy, Dean diz acreditar que parte dos abusos também deveriam acontecer, mesmo que em outra escala. “Tenho certeza de que sim”, comenta. “Aconteceu no Japão, na Filândia… Estava ocorrendo em todo o mundo com a ‘Playboy’.”

“O que acontecia na ‘Playboy’ era internacional porque a ‘Playboy’ era internacional, muitas das histórias que ouvi ocorreram fora dos Estados Unidos”, afirma. “Havia playmates que eram enviadas ao exterior para promover a revista, mas as pessoas do universo da ‘Playboy’ as mandavam como favores sexuais para homens de negócio ao redor do mundo.”

Ela afirma que algumas das ex-namoradas de Hefner chegaram a ser usadas como “mulas”, transportando drogas para ele num esquema de pirâmide similar ao usado pelos chefões do tráfico internacional. O expediente será destrinchado em um dos episódios.

“O que ocorria na mansão começou a se espalhar por Hollywood e a ser replicado em vários lugares, e acho que isso é parte da cultura que o Hefner estava criando de colocar mulheres umas contra as outras”, avalia. “Isso teve efeitos em todo o mundo.”

SEGREDOS DA PLAYBOY

Quando: estreia neste domingo, às 22h

Onde: no canal pago A&E

Classificação: 16 anos

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