Do preconceito à Prefeitura: comunidade árabe fincou raízes e marca a cultura de Anápolis

Maior parte das famílias chegou há quase 100 anos, fugindo da opressão otomana, e transformou município da economia à política

Aglys Nadielle -
Comunidade Árabe recebendo o patriarca da Igreja Ortodoxa em Anápolis. (Foto: Cortesia Guilherme Verano)

Quem vive em Anápolis provavelmente já ouviu a falar, pelo menos uma vez, dos nomes Naoum, Hajjar, Bittar, entre tantos outros com sonoridade parecida.

Os sobrenomes estão espalhados por ruas, avenidas, bairros e espaços públicos do município.

A familiaridade de hoje contrasta com o preconceito de outrora. A comunidade árabe, que se instalou na cidade nos anos de 1930, ajudou a construir os traços de uma cidade mais que centenária.

Anápolis era uma cidade recém emancipada quando se tornou, em Goiás, o principal destino dos árabes que imigravam para o Brasil.

A comunidade ficou notória no município em 1935 e ainda nos tempos de hoje tem seu lugar na história da cidade e na memória dos anapolinos.

Antes disso, em 1913, Miguel João, sírio-libanês, chegou de Catalão e se fixou no que era a entrada da cidade, onde instalou sua casa comercial e, anos mais tarde, máquinas de arroz e café. Logo depois, a rua se tornou uma grande via comercial e recebeu o nome dele.

Mais tarde, nos anos 30, seria criada ainda a União Syria, com objetivo de incentivar a cordialidade e educação moral e intelectual da juventude anapolina.

O jornalista e historiador Guilherme Verano é autor de um livro que mapeou todas as tradicionais famílias de origem árabe no município.

Ao Portal 6, ele conta que, por muitos anos, os sírio-libaneses eram simplesmente denominados por todos como ‘turcos’, termo que sequer se refere aos árabes.

A pecha pegou e virou até apelido para uma rua importante do centro da cidade, a General Joaquim Inácio, conhecida por muito tempo como “rua dos turcos”. Isso porque, naquela região havia diversas lojas de produtos variados, dominados pelos imigrantes.

À medida que a comunidade crescia, a economia da cidade desenvolvia junto. “Eles viraram mascates, administrando e investindo dinheiro, e montaram seus comércios”, afirmou.

Armazem de Anysio Cecilio Chaibub na década de 40. (Foto: Cortesia Guilherme Verano)

Para além do comércio, os descendentes de árabes também ganharam espaço na política da cidade. Jamel Cecílio foi prefeito, nomeado pela ditadura militar, em 1975, num momento que Anápolis era observada por todos os lados por ser chave para a segurança do país.

Depois dele, Pedro Sahium também comandou o Centro Administrativo, entre dezembro de 2003, com a cassação de Ernani de Paula, e 2008, após ser eleito em 2004.

Por que Anápolis?

A imigração para o Brasil começou no início do século passado quando os árabes, em grande maioria, vieram para cá na tentativa de fugir da repressão do Império Otomano. Essa população passava quase 30 dias atravessando o oceano em busca de melhores condições de vida.

De acordo com Verano, os imigrantes normalmente chegavam ao Rio de Janeiro e foi a Estrada de Ferro Goyaz que viabilizou a vinda deles para Anápolis.

“Seguindo a implantação das paralelas de aço foram assentando seus comércios e esperanças pelas cidades de Catalão, Goiandira, Ipameri, Urutaí, Pires do Rio, Orizona, Vianópolis, Silvânia, até desembaraçarem na cidade de Anápolis, quando a sua Estação Ferroviária foi inaugurada em 1935”, contou.

Com isso, a cidade se tornou o maior centro de convivência árabe do estado de Goiás. A comunidade certamente construiu um grande legado e fez parte até mesmo de grandes momentos para o desenvolvimento do município.

“O próprio Distrito Agroindustrial de Anápolis (DAIA), erguido em 1976, teve a forte atuação dos árabes na sua edificação e sucesso de funcionamento”, afirmou.

Até mesmo na religião percebe-se a influência desta comunidade. Embora a grande maioria seja de matriz cristã, há aqueles que trouxeram para cá o islã. A cidade tem uma das poucas mesquitas de Goiás, que funciona na Avenida Ana Jacinta.

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