Agressões e amantes: inquérito mostra que Marcela viveu inferno antes de ser morta por fisiculturista

Relacionamento era marcado por ofensas, intimidações e violência contra vítima há cerca de 09 anos

Gabriella Pinheiro Gabriella Pinheiro -
Marcele Luise faleceu após ter sido espancada pelo companheiro, que é fisiculturista. (Foto: Redes Sociais)

O medo, as humilhações e agressões físicas e verbais faziam parte de um ciclo vicioso enfrentado há cerca de 09 anos pela dona de casa Marcela Luise de Souza Ferreira, de 31 anos, que teria sido espancada até a morte pelo marido, o fisiculturista e nutricionista Igor Porto Galvão, de 31 anos, em Aparecida de Goiânia. Ela ficou 10 dias internada no Hospital Santa Mônica e faleceu no dia 20 de maio. 

O inquérito investigado pela Polícia Civil (PC), e acessado pelo O Popular, aponta que o relacionamento entre a vítima e o suposto agressor era marcado por ofensas, intimidações, uso de violência, abuso psicológico e até isolamento. O homem foi indiciado por feminicídio na sexta-feira (24).

Relatos contando o temor da mulher sobre o comportamento do homem não são recentes. Segundo apontam as investigações, um dia, ela teria ligado para um familiar pedindo dinheiro emprestado para comprar um aparelho de televisão que a filha teria quebrado por acidente, afirmando que necessitava de um novo em casa antes que o marido chegasse do trabalho. 

O mesmo parente chegou a questioná-la qual seria o problema dele saber sobre o acidente ou de comprar o aparelho depois, possibilidade que a fez ficar desesperada e negar a chance de realizá-la.  

Em dezembro de 2020, a própria Marcela chegou a prestar um depoimento na PC do Distrito Federal (DF), onde o casal vivia, alegando ter sido agredida verbal e fisicamente com socos no rosto dentro do carro por não ter gostado de algo que ela disse e, dias depois, por culpar ela de deixar a filha, que tinha 02 anos na época, tocar no anabolizante. 

No depoimento, ela ainda afirmou que ele teria quebrado o celular dela ao vê-la ligando para a mãe contando sobre a situação e que era vítima de violência doméstica desde o início do relacionamento, em 2014. No entanto, um dia depois, ela retirou a queixa. 

Em conversas obtidas pela corporação entre a vítima e uma pessoa, Marcela diz que a avó e a mãe temiam que algo grave pudesse acontecer com ela devido a forma como Igor a tratava. Ela também dizia ter receio de que ele a matasse e tirasse a filha dela.

“Tô bem cansada dessa situação. Isso tá me matando tanto que você não tem ideia. Porque guardo tudo para mim. Muita pressão para cima de uma pessoa só”, escreveu ela. 

Definida como sendo uma pessoa gentil e educada, a vítima era também bastante reservada, sendo comum ficar dias trancada em casa e, de repente, aparecer em público com algum hematoma.

Normalmente, ela era vista somente levando a filha para brincar com outras crianças da vizinhança, mas nunca convidava outras pessoas ou crianças para irem até a residência. 

De acordo com as investigações, em março deste ano, a dona de casa chegou a ficar dias sem aparecer e, ao sair da residência, estava com o olho esquerdo roxo. Questionada por vizinhos, ela disse que o marido havia tentando tirar uma mala do armário, mas, sem querer, a acertou. 

Segundo testemunhas, ela era ativa nas redes sociais, mas encerrou a conta no Instagram, após fazer uma cirurgia de implante de prótese nos seios. 

Também era comum que Igor presenteasse a mulher com objetos caros, mas não permitia que ela tivesse o próprio dinheiro.

Pessoas próximas ao casal ainda alegaram que Igor mantinha diversas relações extraconjugais tendo, inclusive, uma amante fixa e que falava sobre ela na frente da própria esposa. 

A relação teria durado até o começo do ano, mas terminou após a mulher afirmar que foi agredida e perseguida por ele durante o relacionamento e, principalmente, depois do rompimento. 

Ela também afirmou que foi apresentada a Marcela e que ele tratava a esposa como “se fosse uma empregada doméstica, sempre ofendendo com palavras fortes”

Relatório Pericial 

De acordo com um relatório pericial, os ferimentos encontrados no corpo de Marcela são compatíveis aos causados durante um acidente automobilístico, uma vez que as lesões foram causadas por um impacto de alta energia “comuns em acidentes automobilísticos com desaceleração ou que resultam em impacto direto”. Para isso, ela teria que ter tido uma queda da própria altura, ser idosa ou ter osteoporose. 

“A presença de lesões contusas em diversos lugares do corpo da vítima, de aparência recente, incluindo as fraturas de costela e clavícula à esquerda, faz-nos sugerir que foram advindas de uma força externa aplicada diretamente contra as áreas lesadas, não podendo ser descartada a hipótese de agressão física, se houver grande desproporção de forças entre vítima e agressor, ou envolver queda de altura por empurrão, uso de instrumento de ação contundente ou quaisquer outros meios capazes de provocar traumas de alta energia”, informa o laudo do IML.

Foram encontrados ferimentos mais graves na cabeça, como lesões tanto no crânio como no cérebro, fraturas em 08 costelas e na clavícula, arranhões no pescoço, cortes na boca, hematomas no olho esquerdo, perna e no braço direito, escoriações nas costas, na axila direita, no pé esquerdo e tufos de cabelo saindo pela raiz. 

O laudo ainda aponta que a mulher teria tido convulsões na unidade de saúde, o que pode indicar que houve uma demora até ela ser levada até o ambiente.

Igor chegou a apresentar diferentes versões sobre o ocorrido no hospital, para familiares, contando para alguns que ela teria caído limpando xixi do cachorro e, para outros, que ela estava passando um pano no chão quando escorregou. 

Ele a teria dado um banho, vestido um pijama e a colocado na cama, mas, ao notar o sangramento, resolveu levá-la até o hospital. 

Após o caso, peritos da Polícia Técnico-Científica (PTC) foram até a residência do casal e encontraram o ambiente limpo e familiares do suspeito atrapalhando o trabalho. 

No dia 17, depois da prisão de Igor, a Polícia chegou a comparecer na casa para tentar encontrar o celular de Marcela, mas flagrou os familiares do homem encaixotando móveis,  objetos e retirando os aparelhos eletrônicos que estavam na residência, como notebooks, sob justificativa de que estavam entregando a casa para o proprietário. 

 

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