Sem saber ler nem escrever, mulher começou a catar recicláveis para escapar da fome e superou todos os obstáculos

Aos 63 anos, Maria Iracema transformou a luta pela sobrevivência nas ruas de Belém em um exemplo de superação e dignidade

Isabella Valverde Isabella Valverde -
Sem saber ler nem escrever, mulher começou a catar recicláveis para escapar da fome e superou todos os obstáculos
(Foto: Reprodução)

Quando a fome bateu à porta e não havia mais abrigo, Maria Iracema encontrou na reciclagem a única saída. Sem saber ler nem escrever, ela começou a catar latas, plásticos e papelão pelas ruas de Belém (PA) para garantir o que comer.

Dormia onde podia, empurrava um carrinho de mão debaixo do sol e, muitas vezes, passava o dia inteiro sem se alimentar.

“Eu morava na rua. Catava para sobreviver, vendendo o material em sucata. Eu e uma colega passávamos o dia todo andando, sem comer nada. Às vezes, só achávamos uma fruta jogada no lixo”, relembrou em entrevista ao Terra.

Sem saber ler nem escrever, mulher começou a catar recicláveis para escapar da fome e superou todos os obstáculos

Com o tempo, a vida começou a mudar. Maria foi convidada a integrar a Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis (Concaves), ainda em seus primeiros anos de funcionamento. O trabalho era duro — muitas vezes seguia até a noite, com pausas apenas para beber água —, mas foi o início de uma nova fase.

Hoje, 16 anos depois, Maria é uma das integrantes mais experientes da cooperativa, que se tornou uma das maiores Unidades de Valorização de Recicláveis (UVRs) da região Norte. Viúva há seis anos, ela mora com um filho e dois netos — e o orgulho de ver também outros dois filhos seguirem seus passos na reciclagem.

“Eu tenho fé em Deus que vou até o fim trabalhando. A gente vai melhorando aos poucos”, diz, confiante.

Atualmente, ela trabalha na triagem dos materiais coletados, separando o que pode ser reciclado e vendido.

A rotina começa por volta das 8h e pode se estender até a noite, inclusive nos fins de semana. A renda varia entre R$ 1.200 e R$ 1.300 por mês, de acordo com a quantidade de recicláveis processados pela cooperativa e os contratos firmados com empresas e eventos.

Da rua à COP30

Em breve, Maria será uma das responsáveis pela triagem dos materiais recicláveis gerados durante a COP30, evento internacional sobre mudanças climáticas que será realizado em Belém.

A atuação faz parte de um projeto da Itaipu Binacional, em parceria com a Prefeitura da capital paraense, que apoia quatro cooperativas locais com reformas de galpões e equipamentos — incluindo um barco movido a hidrogênio, o primeiro da América Latina, usado para coletas na Ilha do Combu.

Nos dois primeiros dias da Cúpula do Clima, etapa preparatória para a COP, a Concaves já recolheu cerca de uma tonelada e meia de recicláveis. Todo o material é encaminhado aos galpões, onde é separado e vendido, gerando renda para dezenas de famílias.

Inclusão e dignidade

Segundo Débora Baia, presidente da Concaves, a trajetória de Maria reflete a de muitos cooperados. “É inclusão social de verdade. A maioria são pessoas que não tiveram oportunidades de trabalho formal, muitas sem estudos ou experiência profissional”, explicou ao Terra.

A cooperativa reúne desde jovens de 20 anos até idosos, alguns com mais de 70, que continuam contribuindo de diferentes formas — seja na triagem, na recepção ou na administração.

“Quando sobra alguma quantia, fazemos o rateio. Em média, dá um salário mínimo, mas pode aumentar até 10% dependendo dos contratos e eventos”, completa Débora.

De uma vida marcada pela fome e pela exclusão, Maria construiu sua própria história de resistência.

Sem escolaridade, mas com muita determinação, ela virou símbolo de força e esperança — mostrando que, mesmo nas condições mais difíceis, é possível recomeçar e inspirar outras vidas.

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Isabella Valverde

Isabella Valverde

Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, com passagens por veículos como a TV Anhanguera, afiliada da TV Globo no estado. É editora do Portal 6 e especialista em SEO e mídias sociais, atuando na integração entre jornalismo de qualidade e estratégias digitais para ampliar o alcance e o engajamento das notícias.

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