Investigação no comando militar expõe fissuras no núcleo de poder da China

Respondendo diretamente a Xi Jinping, número dois do Exército chinês foi afastado por suspeita de "graves violações disciplinares e legais"

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Investigação no comando militar expõe fissuras no núcleo de poder da China
(Foto: Flickr)

VICTORIA DAMASCENO – Pouco se sabe sobre o afastamento e a investigação do número dois do Exército chinês, o general Zhang Youxia, 75, que atua como vice-presidente da Comissão Militar Central da China (CMC), o principal órgão das Forças Armadas no país.

Respondendo diretamente ao chefe de Estado e líder da comissão, Xi Jinping, o poderoso oficial foi afastado por ser suspeito de “graves violações disciplinares e legais”, segundo o Ministério da Defesa.

A apuração contra ele foi anunciada no último dia 24, quando também foi divulgado que outro membro da CMC, o general Liu Zhenli, 61, seria investigado pelas mesmas causas.

A decisão da cúpula do Partido Comunista Chinês em relação aos oficiais segue uma série de investigações e expulsões do Exército de Libertação Popular (PLA). Dos sete membros eleitos para a comissão em 2022, cinco foram submetidos à investigação por corrupção, dos quais três já foram expulsos.

A novidade é que a anunciada cruzada anticorrupção de Xi teria alcançado não apenas um subordinado direto, mas um homem visto como de sua confiança. Dado que o mundo político chinês é visto como uma caixa-preta, uma vez que Pequim dá poucas explicações sobre suas deliberações, especialistas tentam entender as entrelinhas da decisão, que pode também ter sido pautada com base em discordâncias com o chefe de Estado.

Timothy Heath, pesquisador sênior em defesa internacional da Rand Corporation, afirma que é difícil apontar as razões de cada afastamento. “No entanto, comentários da mídia chinesa sugerem que os expurgos de Xi são motivados tanto por preocupações com corrupção quanto por uma possível insubordinação à sua autoridade por parte de líderes militares de alto escalão. A prioridade de Xi em relação ao PLA continua sendo o controle incontestável do Partido”, afirma.

Heath se refere ao editorial publicado no jornal das Forças Armadas, o PLA Daily, onde o regime aponta que os oficiais “traíram gravemente a confiança e as expectativas” da cúpula do partido e “fomentaram gravemente problemas políticos e de corrupção que prejudicaram a liderança absoluta do Partido sobre as Forças Armadas”.

No afastamento de outros oficiais, como do número três do Exército, He Weidong, a declaração de Pequim no mesmo veículo não menciona de forma direta que os atos praticados por ele e outros afastados na ocasião minavam a “liderança absoluta”. No caso, Xi.

“Xi mostrou que está disposto a expurgar até mesmo os mais altos escalões das Forças Armadas. Ninguém está seguro. Isso demonstra o grau das preocupações dele com a confiabilidade dos militares e com o nível de corrupção que ainda persiste dentro das Forças Armadas”, diz Heath.

O editorial também afirma que a ação dos oficiais teria causado danos à eficácia do PLA e ao Estado chinês, o que é visto por K. Tristan Tang, pesquisador da Secure Taiwan Association e do Centro de Estudos da China da Universidade Nacional de Taiwan, como um indício de que os generais discordavam de Xi a respeito do desenvolvimento da capacidade de combate do PLA, o que prejudicaria o objetivo de uma incursão militar em Taipé.

Em artigo publicado no site da think tank americana Jamestown, o especialista escreve que Zhang e Liu teriam perdido seus cargos pois os resultados alcançados na construção e preparação para a guerra não atenderam às expectativas. Ele também levanta a possibilidade de que ambos tenham “entrado em desacordo ou demonstrado desobediência dentro do Exército de Libertação Popular”.

Taipé, por sua vez, anunciou que está monitorando o que classificou de “mudanças anormais” na liderança militar da China.

Em meio às possibilidades apontadas por pesquisadores, há ainda outras justificativas. Fontes anônimas ouvidas pelo The Wall Street Journal afirmam que a investigação e o afastamento dos oficiais se deu pelo vazamento de segredos do programa de armas nucleares para os Estados Unidos. Tal possibilidade é vista com ceticismo por pesquisadores.

Para Tatiana Molina, pesquisadora e autora de artigos sobre política chinesa e professora da Universidade do Sudoeste de Ciência e Tecnologia em Chengdu (China), “uma traição desse porte” é improvável. Heath, pesquisador da Rand Corporation, tem a mesma opinião.

Já o South China Morning Post afirma que Zhang foi acusado de não controlar associados próximos, como familiares ou parentes, além de não ter relatado as questões à liderança do partido em um primeiro momento.

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