Jejum: mais do que deixar de comer
Quem sabe possamos ouvir a voz do anjo que sussurra aos nossos ouvidos, e que até agora julgamos silente?

O cantor e compositor Alceu Valença tem uma bela canção que até hoje provoca múltiplas interpretações. A letra toca as cordas d’alma e eu quero destacar a linguagem que ele usou. A música se chama Anunciação:
“Na bruma leve das paixões que vêm de dentro; Tu vens chegando pra brincar no meu quintal; No teu cavalo peito nu, cabelo ao vento; E o sol quarando nossas roupas no varal; A voz do anjo sussurrou no meu ouvido; Eu não duvido já escuto os teus sinais; Que tu virias numa manhã de Domingo; Eu te anuncio nos sinos das catedrais; Tu vens, tu vens; Eu já escuto os teus sinais…”.
Não sei o que teria inspirado o compositor. A chegada de um filho? (Tu vens chegando pra brincar no meu quintal (…) e o sol quarando nossas roupas no varal); o nascimento de Jesus? (A voz do anjo sussurrou no meu ouvido…eu já escuto os teus sinais); um cavaleiro medieval voltando para a sua amada? (No teu cavalo peito nu, cabelo ao vento…). São muitas as possibilidades de interpretação.
Uma coisa eu sei: a linguagem que ele usou é religiosa. A linguagem religiosa é poderosa, simbólica, fala de coisas que ocorrem no Fundo da Alma. Sinto, na música, a presença do amor na chegada de uma criança, de um filho. Ah, nada poderia ser mais pleno de vida, esperança, amor, pureza, e paz do que a visão antecipada de crianças brincando, correndo, alegres, cheias de risos e seguras, enquanto “o sol está quarando as roupas no varal”. São sentimentos que não se explicam. São paisagens que moram sossegadas na alma da gente. São sentimentos profundos, emoções misteriosas e uma saudade daquilo que não se conhece. Lembrei- me do teólogo perguntando: “o que seria dos homens se não fosse a ajuda daquilo que não existe”. São as brumas leves das paixões que vem de dentro.
Então, usando de símbolos religiosos, vou sugerir uma atividade que eu acredito ser proveitosa e humanizadora. Sugiro um jejum para o autoconhecimento. Aprendi isso com o escritor e cientista social Paul Freston. Para ele, o jejum não pode ser entendido como “uma arma contra Deus – no sentido de manipulá-lo -, mas uma arma a favor de nós mesmos, um meio de revelar aquilo que nos controla e de lembrar-nos de que a vida é um dom divino”.
P. Freston se inspirou no teólogo Richard Foster (Celebração da Disciplina), e eu, baseado nos dois, escolhi e editei três tipos de jejum:
1) Jejum de conversas – precisamos de tempos de silêncio. O mundo faz ‘barulho’ demais. No silêncio, ficamos, de certa forma, desamparados e impossibilitados de justificar os nossos atos. Daí podermos simplesmente ouvir, estar presente hic et nunc, respirar de forma profunda. Esse jejum é indicado, em especial, para professores, líderes religiosos e políticos que vivem da facilidade com as palavras.
2) Jejum do consumo – viver a vida numa perspectiva que não seja a de adquirir e consumir, e poder enxergar um mundo de desigualdades quase inimagináveis, “para deixar de nos comparar sempre com os “de cima’, atiçando o desejo de adquirir, e nos comparar com os ‘de baixo’, colocando as coisas em suas devidas proporções”.
3) Jejum de smartphone – a visibilidade e a conexão sem pausa empobrecem a nossa vida, nos abduzem, nos distraem, nos afastam de nossa família e de quem está mais próximo. Isso acontece porque achamos que algo vai se perder se desligarmos o smartphone, algo que “poderia ser importante”. Lembro-me de um escritor que propôs algo mais ampliado, um sabá digital, um dia sem telas e com atividades presenciais agradáveis.
O sagrado se manifesta dentro de nós, numa experiência de fundo de alma, assim dizem os monges do deserto – no cristianismo -, mas também na mística de Rumi, no islã, no Tao do místico Lao Tse e de tantos outros sábios.
Como vivemos mergulhados numa rotina impensada de satisfação dos nossos apetites, não ouvimos nada que não seja o eco dos anúncios comerciais, das últimas informações, do lançamento da última tecnologia ou do último show. Estamos nos afastando da simplicidade da vida e dando azo ao consumismo.
O jejum que sugeri é um treinamento. A anunciação é uma realidade que poderá vir com esse treinamento. Quem sabe possamos ouvir a voz do anjo que sussurra aos nossos ouvidos, e que até agora julgamos silente? Quem sabe as manhãs de domingo testemunhem algo maior do que o dobrar dos sinos, e que os sinais de uma paz que excede o entendimento, produzam a visão/declaração: Tu vens! Tu vens!








