Concurso da Câmara de Goiânia é suspenso por suspeita de favorecimento a candidato que trabalhava na banca
Decisão interrompe certame por 90 dias após denúncias apontarem que primeiro colocado em vaga de administrador recebia bolsas do Instituto Verbena

O Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás (TCMGO) determinou a suspensão imediata, por 90 dias, do concurso público da Câmara Municipal de Goiânia.
A medida cautelar, assinada monocraticamente pelo conselheiro-relator Humberto Aidar, atende a denúncias de candidatos e interrompe o certame após a identificação de graves indícios de favorecimento, conflito de interesse e fragilidade na segurança das provas.
A organização do processo seletivo está sob a responsabilidade do Instituto Verbena, vinculado à Universidade Federal de Goiás (UFG).
A principal linha de investigação da Secretaria de Controle Externo de Atos de Pessoal aponta privilégios na aprovação de Luã Lírio de Souza Cruz, classificado em primeiro lugar para a vaga de administrador.
Os técnicos do tribunal constataram que o candidato manteve vínculo ativo com a banca organizadora durante a preparação do concurso.
Ele representou o Instituto Verbena em eventos oficiais meses antes dos exames e continuou recebendo diárias e remunerações por projetos da instituição, mesmo após sua cessão à Defensoria Pública da União (DPU).
Os autos indicam que as atividades envolviam justamente o setor de planejamento institucional e concursos.
Diante do cenário, a área técnica do TCMGO foi taxativa e registrou que, mesmo sem uma prova material de fraude, “a mera quebra da isonomia entre candidatos já é suficiente para macular a validade do concurso público”.
O Instituto Verbena rebateu as acusações e alegou que o candidato informou o potencial conflito de interesses em dezembro.
Segundo a banca, houve o bloqueio imediato dos acessos do concorrente aos sistemas internos do certame para assegurar que ele não participasse da elaboração, revisão ou logística das provas.
A entidade admitiu, porém, que manteve o primeiro colocado como bolsista no projeto “Gestão Visionária”, que desenvolve inteligência artificial aplicada exatamente à realização de concursos públicos.
Outros casos
O escopo da apuração do tribunal revela que o suposto favorecimento a colaboradores da banca afetou outros cargos.
Uma candidata que alcançou o sexto lugar para a função de revisor de texto também atuava como bolsista do Instituto Verbena durante o período do seletivo, o que viola as regras expressas do edital.
Para este caso, os auditores recomendaram o bloqueio de uma eventual nomeação, sem a necessidade de anular todo o processo.
No cargo de técnico em iluminação, os concorrentes apontam que o candidato que obteve a nota máxima na prova prática possui vínculos profissionais e acadêmicos diretos com os avaliadores da banca, além de histórico de trabalho nos próprios espaços da UFG que sediaram os testes.
Falhas na aplicação
A fiscalização falha durante o dia de aplicação das provas também motivou a decisão do TCMGO. Candidatos denunciaram a ausência de detectores de metais e de identificação biométrica, além de total liberdade para a escolha de assentos e descontrole no acesso aos banheiros.
A denúncia ainda cita que fiscais de sala orientaram os candidatos de que o toque de aparelhos celulares não resultaria em eliminação imediata, contrariando as práticas comuns de segurança em exames públicos.
Embora reconheça que biometria e detectores não sejam obrigatórios por lei, o tribunal considerou o conjunto de falhas grave o bastante para exigir esclarecimentos.
Próximos passos do concurso
Com a determinação da paralisação, o presidente da Câmara de Goiânia, Romário Policarpo (Cidadania), a presidente da comissão do concurso, Cassandra Arruda de Sousa Araújo, e a diretora executiva do Instituto Verbena, Claci Fátima Weirich Rosso, receberam notificações para apresentar documentos e esclarecimentos detalhados.
A corte de contas avalia a aplicação de multas caso comprove o desrespeito aos princípios da impessoalidade e da moralidade administrativa.
Durante este trimestre de suspensão, o TCMGO planeja realizar perícias técnicas nos sistemas da banca e cogita o compartilhamento das provas com o Ministério Público de Goiás, a Procuradoria Federal junto à UFG e a própria DPU, antes de dar o veredito sobre a validação ou a anulação definitiva do certame.
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