Anápolis 119 anos: O papel da comunidade árabe na construção da cidade
Especial revela como famílias vindas da Síria, do Líbano e da Palestina ajudaram a impulsionar o comércio, a cultura e o desenvolvimento de Anápolis ao longo de mais de um século

Quem caminha hoje pelo Centro de Anápolis dificilmente passa um dia sem esbarrar em um sobrenome de origem árabe.
Eles estão nas fachadas de empresas tradicionais, em hospitais, instituições, escritórios e até na história do futebol anapolino.
O que pouca gente sabe é que boa parte desse legado começou há mais de um século, quando famílias deixaram a Síria, o Líbano e a Palestina para recomeçar a vida no interior de Goiás.
Segundo o livro Os Árabes em Goiás – História, Memória e Cultura, dos pesquisadores Guilherme Verano da Cruz e Francisco Itami Campos, Anápolis se tornou um dos principais destinos desses imigrantes e, mais tarde, uma das cidades onde sua influência seria mais profunda.
Em entrevista ao Portal 6, Guilherme Verano da Cruz destaca que o desenvolvimento da cidade está diretamente ligado ao espírito empreendedor trazido pelos imigrantes.
Das malas às grandes empresas
Ao contrário da imagem construída ao longo das décadas, a maioria dos sírios e libaneses que chegou à cidade não era formada por grandes comerciantes.
Eles desembarcaram no Brasil fugindo de guerras, pobreza e da instabilidade provocada pelo domínio do Império Otomano.
Guilherme explica que praticamente todas as famílias começaram do mesmo ponto: a mascateação.
“Eles chegavam sem patrimônio, mas carregavam uma enorme disposição para trabalhar. A confiança conquistada nas vendas de porta em porta abriu caminho para que muitos construíssem empresas que marcaram a economia de Anápolis”, explica.
Carregavam malas cheias de tecidos, utensílios domésticos e armarinhos e percorriam fazendas e povoados vendendo mercadorias de porta em porta.
A confiança era o principal patrimônio. Muitas vendas eram feitas fiado, baseadas apenas na palavra.
Com o tempo, as malas deram lugar às primeiras lojas. Depois vieram cerealistas, atacadistas, indústrias e empresas que ajudaram a transformar Anápolis em um dos principais polos comerciais de Goiás.
A chegada da Estrada de Ferro, em 1935, acelerou esse processo ao facilitar o transporte de mercadorias e ampliar os negócios.
Uma cidade que cresceu junto
O desenvolvimento da comunidade árabe acompanhou alguns dos momentos mais importantes da história anapolina.
Entre eles está a criação do Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia).
O livro destaca nomes como Sultan Falluh, responsável por coordenar a implantação da infraestrutura do distrito, e Ruy Abdalla, um dos empresários que contribuíram para consolidar o projeto que mudaria definitivamente a economia da cidade.
Mas a participação dessas famílias foi muito além do comércio.
A família que ajudou a erguer uma cidade
Entre os sobrenomes que se tornaram sinônimo do desenvolvimento de Anápolis está o da família Hajjar.
Originários da pequena aldeia de Bdada, na Síria, seus integrantes chegaram ao município no início do século XX e participaram diretamente de diferentes fases do crescimento da cidade.
A contribuição começou pelo comércio, passou pela industrialização e alcançou áreas como construção civil, agronegócio, infraestrutura, esporte, educação e cultura.
Os Hajjar participaram da instalação da primeira máquina de beneficiamento de café em Anápolis, ajudaram a consolidar o município como um dos maiores polos atacadistas de Goiás por meio de empresas como o Armazém Goiás e o Armazém Triângulo e expandiram os negócios para diversos setores da economia.

Registro mostra a transformação da fachada do Armazém Goiás, símbolo do empreendedorismo da comunidade sírio-libanesa em Anápolis. (Foto: Arquivo pessoal/Daniela Hajjar)
Também contribuíram para a chegada das linhas telegráficas, incentivaram a vinda de outras famílias árabes para a cidade e participaram da formação de gerações de médicos, engenheiros, advogados, empresários e professores.
Para a professora, escritora e pesquisadora Daniela Hajjar Farah de Melo, descendente da família, essa história nunca foi apenas sobre prosperidade financeira.
“Minha família veio da Síria, mas escolheu Anápolis para plantar raízes. Hoje, quando eu olho para a história da cidade, eu sinto que a nossa história também faz parte dela.”
Ela explica que o empreendedorismo era consequência da necessidade de reconstruir a vida em um país desconhecido. Essa trajetória, entretanto, começou de forma muito diferente da realidade vivida pelos descendentes atualmente.
Segundo Daniela, seus pais nasceram na Síria e enfrentaram uma travessia de quase quatro meses até o Brasil.
“Minha mãe contava que foi muito sofrimento para as crianças. Elas chegavam doentes, magras, comiam praticamente pão com nada durante a viagem.”

O passaporte traz o nome de Wahibe, avó da família, já que os filhos ainda eram menores de idade. (Foto: Arquivo pessoal/Daniela Hajjar)
Mesmo diante das dificuldades, a família encontrou em Anápolis o lugar onde decidiu permanecer definitivamente.
O primeiro comércio foi instalado na região dos antigos armazéns e cresceu junto com a cidade. Com o passar dos anos vieram novas empresas, empreendimentos imobiliários e investimentos que ajudaram a impulsionar a economia local.

Um dos primeiros membros da família a desembarcar em Anápolis, Jorge Pedreiro, irmão de Farah Hajjar e tio de Daniela Hajjar, registra um dos empreendimentos que ajudaram a transformar a economia da cidade: uma máquina de beneficiamento de arroz e café. (Imagem: Arquivo/Daniela Hajjar)
Mas Daniela faz questão de destacar que o maior patrimônio deixado pelos imigrantes não pode ser medido apenas pelos negócios.
“A contribuição da comunidade árabe participou diretamente do crescimento da cidade, principalmente por meio do comércio, do empreendedorismo e da valorização da família. O maior legado vai além dos negócios: é a cultura da perseverança, da resiliência e da construção de relações.”
Essa preservação também acontece dentro de casa.
Enquanto a irmã mantém uma cozinha dedicada às receitas tradicionais sírias, Daniela continua produzindo alimentos típicos da família e faz questão de preservar o modo original de preparo.
“Eu procuro fazer as receitas sem mudar. Quero fazer exatamente do jeito que aprendi na Síria. Se a gente muda, acaba perdendo parte da nossa cultura.”
Ela acredita que a culinária árabe se tornou uma das marcas da cidade.
“Hoje qualquer anapolino sabe o que é um quibe, um charuto de repolho ou uma coalhada. A culinária árabe deixou uma marca enorme em Anápolis.”
Professora há mais de três décadas, Daniela também transformou a sala de aula em espaço para preservar essa memória.
O compromisso da família com a preservação da história também ajudou a eternizar a memória da imigração árabe em Goiás. Foi do empresário Georginho Hajjar a iniciativa de reunir pesquisadores para registrar a trajetória dessas famílias no livro Os Árabes em Goiás – História, Memória e Cultura, evitando que parte desse legado desaparecesse com o tempo.
Da medicina ao futebol
Outro personagem marcante foi o ortopedista Osvaldo Abraham.
Filho de libaneses, escolheu Anápolis para viver na década de 1960, fundou o Hospital Ortopédico Alfredo Abrahão e se tornou um dos médicos mais respeitados da cidade.
Apaixonado pelo Anápolis Futebol Clube, dedicou décadas de trabalho voluntário ao time, depois de integrar a equipe médica da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1966.
Um legado que atravessa gerações
Para Guilherme Verano, uma das maiores heranças deixadas pelos imigrantes foi a valorização da família, da educação e da continuidade dos negócios.
Os filhos dos mascates tornaram-se médicos, engenheiros, advogados, empresários e professores, mantendo vivos sobrenomes que ainda hoje fazem parte do cotidiano da cidade.
O autor destaca que conhecer essa trajetória também é uma forma de compreender a própria formação de Anápolis.
Ele também defende que a contribuição da comunidade árabe permanece espalhada pela economia, pela cultura, pela saúde e pela memória da cidade.
“Quando a gente caminha pelo Centro de Anápolis, está passando por lugares que ajudaram a construir essa história. É um legado que faz parte da identidade do município”, destaca.
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