Mercado Municipal celebra tradição familiar, resistência e permanência no coração de Anápolis

Portal 6 ouviu alguns dos comerciantes que vivem a rotina do centro comercial, fundado quando a cidade tinha apenas 44 anos

Natália Sezil -
Mercado Municipal Carlos de Pina fica entre as ruas 14 de Julho e General Joaquim Inácio, no Centro de Anápolis.
Mercado Municipal Carlos de Pina fica entre as ruas 14 de Julho e General Joaquim Inácio, no Centro de Anápolis. (Foto: Matheus Araújo/Portal 6)

Roupas, temperos, panelas, verduras e uma variedade de queijos e farinhas. Esses são apenas alguns dos produtos que moradores de Anápolis e turistas podem encontrar ao passar pelas paredes em Art Déco do Mercado Municipal Carlos de Pina.

Situado entre as ruas 14 de Julho e General Joaquim Inácio, conectando duas importantes vias do Centro da cidade, o espaço existe desde 1951. Foi tombado patrimônio histórico em 1984 e, desde então, ganhou vida própria.

Entre comerciantes que chegaram e não quiseram mais sair, funcionários que acabaram se tornando sócios, sobrinhos que passaram a ajudar as tias e imigrantes que se sentiram acolhidos, o mercado assumiu uma atmosfera única.

Segundo dados divulgados pela Prefeitura de Anápolis em 2022, 108 permissionários atuavam no centro comercial. A maioria estava no setor das carnes, frios e laticínios (cerca de 40%).

Também se destacavam a área da alimentação, com lanchonetes, pamonharias e restaurantes (30%); produtos naturais como cereais, grãos, doces e castanhas (15%); e produtos diversos (15%).

O Portal 6 buscou a atualização desses números, mas não conseguiu retorno da Prefeitura até o fechamento desta reportagem.

A estimativa da Administração Municipal era de que 1,5 mil clientes frequentavam a estrutura diariamente – encontrando não só produtos, mas histórias de tradição familiar, permanência e resistência.

Maria Avelino, hoje aos 93 anos, é uma das comerciantes que se aproximou do Mercado Municipal há décadas e nunca mais se distanciou. Foi a primeira permissionária a ocupar o espaço, ainda recém-chegada a Anápolis, aos 18 anos.

Até hoje, pode ser encontrada em uma cadeira na entrada da estrutura, em uma banquinha de roupas onde o filho também trabalha.

Maria contou ao Portal 6 que, quando chegou, levava uma mala antiga nas mãos. Foi a pioneira e, depois, foi acompanhada pela família, seguida pelo pai e pelos irmãos. Lembra-se dos vizinhos de barraca até hoje, mas diz que mudaram muito.

Maria Avelino foi a primeira pessoa a ocupar uma banca no Mercado Municipal de Anápolis.

Maria Avelino foi a primeira pessoa a ocupar uma banca no Mercado Municipal de Anápolis, vendendo roupas. (Foto: Matheus Araújo/Portal 6)

Recorda também que, na época, a estrutura era bastante diferente da atual. “Quando eu cheguei, nem banca tinha. Eles armavam uma banquinha, traziam as verduras da roça, botavam em cima. Quando acabavam de vender, fechavam e iam embora. Começou desse jeito”, detalha.

Com tanta história acumulada, a potiguar que se mudou para Anápolis diz que ama o Mercado Municipal e adora conhecer as pessoas que passam por ali. Pretende continuar naquela banca por muitos e muitos anos, um sentimento que é compartilhado por outros comerciantes.

Cláudio Borges é um deles. Sócio na Casa de Carnes Anapolina desde 2014, ele contou à reportagem que, na verdade, já tem 23 anos de Mercado Municipal. Começou como funcionário em outro estabelecimento, até que surgiu a oportunidade de formar uma sociedade.

Clãudio Borges começou como funcionário e acabou se tornando sócio de um açougue.

Clãudio Borges começou no Mercado Municipal como funcionário e acabou se tornando sócio de um açougue. (Foto: Matheus Araújo/Portal 6)

Com mais de duas décadas de trajetória, o açougueiro diz que já esperava passar muitos anos no espaço. “É um lugar bom de trabalhar. O pessoal que a gente contrata, que vem de fora, não quer nem sair daqui. Eles acham bom por causa do horário e também porque não trabalha aos domingos”, explica.

Perfil dos clientes

Mesmo operando em setores diferentes, vários comerciantes do Mercado Municipal compartilham as mesmas sensações quanto a alguns assuntos, como o perfil do público que costuma frequentar o local.

Para Cláudio e também para Ronaldo Rodrigues, que trabalha na Boutique das Frutas há oito anos, os clientes costumam ser idosos. Por isso, eles dizem ter sentido muita diferença a partir da pandemia da Covid-19.

Cláudio defende que “o público aqui é idoso, pessoas de idade. As pessoas infelizmente vão morrendo, e a gente não tem renovação de cliente. E o mercado só vai apagando, porque vai acabando essas pessoas mais antigas”.

Ele diz ter sentido que o movimento caiu pela metade ao longo do tempo. Detalha, ainda, que os mais jovens também visitam o espaço, mas não com tanta frequência. Ronaldo concorda, mas argumenta que outro fator também pesa: a adesão às vendas virtuais.

Ronaldo Rodrigues assumiu as vendas na banca da tia após ela ficar doente.

Ronaldo Rodrigues assumiu as vendas na banca da tia após ela ficar doente. (Foto: Matheus Araújo/Portal 6)

“Depois da pandemia, os clientes mudaram. As pessoas migraram mais para o online, e começou a pegar um público mais jovem. Até mesmo porque na pandemia, em decorrência da doença, muitos clientes mais idosos se foram”.

O comerciante de frutas considera que o público mais novo se interessa não só pelos produtos comercializados no Mercado Municipal. “O pessoal gosta da estrutura, mesmo sendo antiga. Gostam da cultura, do patrimônio que o mercado tem para oferecer”, diz.

Para ele, o Mercado Municipal é a primeira coisa que os turistas de uma cidade costumam querer conhecer.

Tradição familiar

Entre as coisas que o “Mercado Municipal tem a oferecer”, a tradição familiar aparece sem precisar procurar muito. Além de Maria Avelino, que foi acompanhada pela família ao trabalhar no espaço, Ronaldo também é exemplo disso.

Embora esteja no comércio “só” há oito anos, ele contou ao Portal 6 que a Boutique das Frutas começou 41 anos atrás, com a tia dele. Em certo momento, ela ficou doente e o convidou para ajudar.

Hoje, ela continua cuidando de parte das operações, mas conta com a administração do sobrinho. Os dois são os únicos que cuidam da barraca.

João Paulo Ramos é um terceiro exemplo da tradição que preenche o Mercado Carlos de Pina. Trabalha ali há 15 anos, vendendo queijos e farinhas, desde que comprou a banca do pai.

“Ele e os irmãos tinham muito comércio aqui, muito tempo atrás. Aí eu comprei e passou de geração”. E se antes vários parentes estavam espalhados pela estrutura, hoje não é diferente.

João Paulo Ramos está no Mercado Municipal desde 2007, seguindo o exemplo do pai e dos tios.

João Paulo Ramos está no Mercado Municipal desde 2007, seguindo o exemplo do pai e dos tios. (Foto: Matheus Araújo/Portal 6)

Atualmente, o filho e a irmã de João Paulo também mantêm bancas no mercado. Mesmo com a história, ele conta que já cogitou se mudar. “Já pensei em sair, mas a gente hoje não tem muita opção. Você tem que agarrar com o que tem e valorizar”, defende.

Entre as coisas que mudaram com o tempo, o comerciante destaca a concorrência, que considera que tornou mais difícil manter o negócio. “Antigamente o supermercado não trabalhava com esse produto que trabalhamos aqui. Hoje todo supermercado tem, então a clientela separou muito”, afirma.

Para uma comerciante, que preferiu não se identificar, o costume familiar também tem se modificado ao longo das décadas. Há cerca de 20 anos no Mercado Carlos de Pina, ela recordou que muitos vizinhos costumavam compartilhar o ponto com parentes, mas já venderam as bancas para “pessoas de fora”.

Organismo vivo

Ao conversar com alguns dos permissionários presentes no Mercado Municipal Carlos de Pina, a sensação que muitos têm é de que se trata de um organismo vivo, que funciona à parte.

É como se ele estivesse localizado no Centro de Anápolis, mas fosse uma comunidade única. Bechara, libanês que se mudou para a cidade há cinco anos e tem uma banca ali dentro há um ano e meio, diz que se sentiu acolhido.

“Encontrei vizinhos aqui considerados como irmãos. Me trataram muito bem, mesmo não me conhecendo antes. Fui recebido com muito respeito e muito apoio”, conta.

Bechara chegou no Mercado Municipal há um ano e meio e foi acolhido pelos outros comerciantes.

Bechara chegou no Mercado Municipal há um ano e meio e foi acolhido pelos outros comerciantes. (Foto: Matheus Araújo/Portal 6)

Um dos vendedores, que também preferiu não se identificar, compartilhou que um dos pontos fortes do empreendimento é que “quem visita, consegue encontrar todos os tipos de produtos no mesmo lugar”.

Questionados sobre a suposta decadência do Centro, que tem levado às discussões sobre revitalização e requalificação, os comerciantes respondem que sentem os efeitos, mas não na mesma proporção.

Como estão ali dentro, não precisam encarar a alta dos aluguéis, mas veem que muitas lojas estão fechando, fazendo com que os clientes migrem para os bairros e deixem de passar próximo ao mercado – afetando também o movimento interno.

*Colaborou Matheus Araújo.

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Natália Sezil

Chegou no Portal 6 como estagiária de jornalismo e foi promovida a repórter. Apaixonada por boas histórias, gosta de ouvir as pessoas, entender contextos e transformar relatos em narrativas que informam e conectam o público.

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