Por que o Centro de Goiânia está “morrendo” e o que tem sido feito para revivê-lo?
Entre novas moradias, vida noturna e incentivo ao comércio, várias estratégias surgem para que setor volte a assumir protagonismo na cidade

Seja ir a um banco, comprar uma roupa ou ir ao mercado, diversas atividades costumavam significar, por muito tempo, uma única coisa: ir ao Centro da cidade. O que ainda é verdade em municípios pequenos ou diversos outros lugares pelo mundo parece estar perdendo força em Goiânia.
Ao longo dos últimos anos, moradores e comerciantes que vivem o Setor Central no dia a dia têm notado diversas necessidades: revitalização das fachadas, melhor organização nas calçadas ou transporte público mais acessível.
Para os empresários, o cenário é mais complexo: notam aumento nos aluguéis e dificuldades nas vendas, por diversos motivos – como a popularização do comércio online ou o surgimento de lojas em outros bairros, por exemplo.
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Diante disso, surgem propostas de revitalização e requalificação. Em 2024, a Prefeitura de Goiânia idealizou o Centraliza, sob o objetivo de “levar o goianiense de volta à emblemática região da cidade”.
Em março de 2026, lançou o Morar no Centro, que promete custear 50% do valor do aluguel, por até três anos, para famílias que se mudarem para o Setor Central.
Com um deles em andamento e o outro ainda avançando na Câmara Municipal, a avaliação de especialistas é de que os projetos são passos necessários e ainda em desenvolvimento para devolver vida ao Centro da capital goiana.
O que explica a decadência?
Para Glauco Gonçalves, professor do Programa de Pós-Graduação Projeto e Cidade da Universidade Federal de Goiás (UFG), o cenário vem se desenhando há pelo menos três décadas. Ele destaca que, enquanto cidade planejada, Goiânia deu atenção especial ao Centro em que teve início, mas foi perdendo isso com o tempo.

Glauco Gonçalves, professor do Programa de Pós-Graduação Projeto e Cidade da UFG. (Foto: Arquivo pessoal)
“Goiânia é projetada a partir da Praça Cívica e dessas ramificações que a constituem. Então, isso é algo de muito singular”, começa. Mas aponta que, em todas as grandes cidades, “as centralidades têm períodos. Elas acompanham processos históricos”.
“Há uma grande vitalidade, uma grande pulsão de vida, comércio, circulação, moradia, que depois disso começa a apresentar um declínio”.
Três questões explicam isso para o estudioso: o surgimento de casas e condomínios em bairros estruturados fora do Centro, a facilidade de acessar comércio em outros setores, e a construção de shoppings – que ele define como “simulacro de cidade”, onde várias atividades são possíveis.
Entre os principais problemas, aparecem a falta de segurança (especialmente à noite, quando o bairro fica mais vazio), a ausência de incentivos econômicos e opções limitadas de transportes – “é muito difícil andar a pé, você não vê ciclovias”, aponta Glauco.
Visão dos empresários
Marcelo Baiocchi, presidente da Federação do Comércio (Fecomércio), concorda que o Centro ganha atenção especial por ser justamente onde nasce qualquer cidade.

Marcelo Baiocchi Carneiro, presidente da Fecomércio Goiás. (Foto: Divulgação)
Ecoa, ainda, que as pessoas saíram do setor porque outros bairros passaram a oferecer mais atrativos. Detalha que “os clientes foram morar mais na região do Setor Oeste, depois subiram para o Bueno, Nova Suíça, Jardim América, região do Jardim Goiás, do Shopping Flamboyant, Alphaville. E o comércio caminhou junto”.
O presidente conta que, nas discussões, o bairro aparece como local essencial para desenvolvimento do comércio, mas ele destaca que algo é fundamental: “não adianta nós ficarmos discutindo revitalização no sentido da palavra de pintar, iluminar, melhorar o ambiente físico, sem que haja pessoas para ali estar, ocupar e consumir”.
“Se fizer isso tudo e não tiver gente, não tem comércio, não tem atividade econômica e o Centro vai continuar esvaziado”, pontua. E crava: “há necessidade e há muito espaço para ocupação“.

Ruas do Centro estão cheias de placas de venda e aluguel. (Foto: Natália Sezil/Portal 6)
Hoje com avenidas cheias de placas de “vende-se” e “aluga-se”, o empresário relembra que os primeiros imóveis desocupados no setor foram os dos órgãos públicos. Descreve: “o Governo do Estado, com exceção do Palácio das Esmeraldas, praticamente não tem nenhum órgão mais ali no Centro”.
O cenário pode mudar nos próximos meses. Um antigo prédio da Caixa Econômica Federal, abandonado e depois comprado pelo Governo de Goiás, está sendo transformado em um novo centro administrativo. O Procon deve ser o primeiro órgão a ocupá-lo, com mudança prevista para julho deste ano.
Revitalização
Uma das áreas já afetadas pela requalificação proposta pela Prefeitura é a Região da 44, como conta Sérgio Naves, presidente da Associação Empresarial da Região da Rua 44 (AER44): “já está acontecendo desde julho do ano passado. Foi implantado um totem na região, pórticos também”.

Sérgio Naves, presidente da Associação Empresarial da Região da Rua 44. (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
Sérgio explica que a região conta com uma emenda parlamentar para revitalizar algumas ruas, o que deve se concretizar até 2027. Uma das propostas é reforçar o pavimento, “para que tanto o pedestre quanto o carro se movimentem nessas avenidas”.
O presidente da AER44 vê com bons olhos o projeto desenvolvido para levar mais moradores ao Setor Central. Além de fomentar novos comércios essenciais no bairro, como supermercados, ele considera que mais habitantes podem suprir a necessidade de vendedores no polo têxtil.
“Estamos hoje com 13 mil lojas e 2.600 feirantes, e todos ali empregam pelo menos um vendedor”. “Se trouxer essas famílias, elas vão estar mais próximo ao trabalho”.
Vida Noturna
Outro lugar no Centro de Goiânia que tem renascido nos últimos anos é a Rua do Lazer. Inaugurado em 1981, o local era um ponto de grande movimento na vida noturna da capital, mas foi perdendo aos poucos o número de frequentadores e se esvaziando.
Contudo, no final de 2024, antes mesmo da revitalização da Prefeitura, iniciativas de particulares começaram a se instalar na região, abrindo novos bares.
Rapidamente, o espaço foi ganhando notoriedade e atraindo outros empreendedores. Hoje, a Rua do Lazer conta com cinco bares, e movimenta a vida noturna, com direito a mesas e cadeiras nas calçadas, músicas dos mais variados gostos e um grande número de frequentadores.

Implementação da Rua do Lazer tem trazido movimento para o Centro de Goiânia. (Foto: Reprodução/Instagram)
Diante desse novo cenário, no final de abril de 2026, o local foi reconhecido como patrimônio imaterial de Goiânia, sendo considerada cenário cultural efervescente e palco fundamental na requalificação do Centro.
Boom imobiliário?
Dados do índice Fipe Zap, que avalia a valorização imobiliária em capitais com base em anúncios online, aponta que o Setor Central segue em crescimento constante. Em abril de 2022, o setor aparecia na 10ª posição entre os mais valorizados de Goiânia.
À época, o metro quadrado no Centro custava R$ 3.249 – o que já era resultado de um aumento de 24% entre abril de 2021 e abril de 2022.
No último levantamento, o Fipe Zap mostrou que o bairro continua na mesma posição, mas em constante evolução. Com valorização de 23,7% entre abril de 2025 e o mesmo mês de 2026, o metro quadrado agora vale R$ 5.997.
Para Nathália Martins, gestora comercial da URBS Infinity, o crescimento está dentro do esperado para “uma capital moderna, jovem e estruturada para receber as pessoas”. Ela tenta exemplificar na prática: “se hoje Goiânia parasse de lançar [empreendimentos], em um prazo de dois anos todo o nosso estoque seria zerado”.

Nathália Martins, gestora comercial da URBS Infinity. (Foto: Arquivo pessoal)
A profissional explica que o Centro volta a crescer em um momento em que outros setores, que se verticalizaram muito rápido, já alcançaram o auge, como o Marista, o Bueno e o Jardim Goiás.
“As incorporadoras começaram a ver o Centro como uma grande oportunidade para a moradia porque os prédios que temos hoje na região são muito antigos”, conta. “Tem taxas de condomínio muito altas, plantas muito grandes e muitas vezes mal distribuídas”.
O Sindicato das Imobiliárias e Condomínios do Estado de Goiás (Secovi) reforça a visão. O presidente, Antônio Carlos da Costa, destaca que o bairro ainda oferece mercados e oportunidades com alguns incentivos, como o IPTU mais barato para as empresas e o transporte público.

Antônio Carlos da Costa, presidente do Sindicato das Imobiliárias e Condomínios do Estado de Goiás. (Foto: Divulgação)
Antônio considera que investimentos feitos pelo Governo de Goiás podem ajudar a impulsionar a região. Seria o caso da compra de um antigo prédio da Caixa Econômica Federal, que deve ser transformado em moradia social.
O ex-presidente do sindicato, Ioav Blanche, ressalta que “o importante do Centro é induzir habitação”. “A gente descobriu que os melhores revitalizadores são onde se incentivou habitação, principalmente para jovens”.
Nathália ecoa: “esses empreendimentos que vieram para o Centro são muito também para a primeira moradia. É para trazer um público mais jovem, justamente para poder permanecer a cultura, mas trazer uma renovação para que constituam famílias ali”.
“Goiânia é uma cidade que funciona muito bem dentro do programa Minha Casa, Minha Vida, e funciona muito bem no alto padrão”, crava.
Posicionamento oficial
Em nota enviada ao Portal 6, a Prefeitura de Goiânia afirmou que “a requalificação e revitalização da Região Central seguem como prioridade da gestão municipal”, destacando como prioridades habitação, infraestrutura urbana, cultura, segurança e fortalecimento da atividade econômica.
“Entre as iniciativas já executadas estão as melhorias de iluminação por meio do programa Brilha Goiânia, sendo o Centro o primeiro bairro contemplado pela modernização em LED”, informou.
Continuou: “a gestão também realizou ações de ocupação cultural e incentivo à convivência na região, como a edição especial do Grande Hotel Vive o Choro no aniversário de Goiânia, edições do Bora Lá Goiânia e outros eventos culturais promovidos no Centro”.
A Administração Municipal disse manter diálogo com comerciantes, empresários, donos de bares e investidores, e ressaltou que o principal processo em andamento é o Morar no Centro, em tramitação na Câmara.
*Colaborou Augusto Araújo
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