Estudante de Engenharia Química e o pai ergueram em menos de um mês uma casa de três quartos feita com barro, plástico e vidro descartados e passaram a morar no protótipo para provar que funciona como qualquer casa de tijolos
Projeto transformou resíduos e terra em uma residência completa, mas tecnologia ainda precisa de testes e certificações antes de ganhar escala comercial

Uma residência de três quartos construída em menos de um mês chama a atenção não apenas pela velocidade da obra. Por trás do acabamento semelhante ao de uma construção convencional, existe uma combinação pouco comum de materiais.
Em vez de depender principalmente de tijolos e argamassa, o imóvel utilizou terra e resíduos que poderiam terminar no lixo. Depois da conclusão, a própria família responsável pelo projeto decidiu ocupar o endereço.
A casa fica em Ennerdale, região de Joanesburgo, na África do Sul. O trabalho foi liderado por Matimba Mabonda, formado em Engenharia Química e estudante de mestrado na Universidade da Cidade do Cabo.
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Mais de 90% das paredes foram feitas com terra e resíduos
Segundo as informações divulgadas pela universidade, mais de 90% das paredes foram produzidas com materiais à base de terra e resíduos plásticos.
Vidro descartado e outros materiais reaproveitados também fizeram parte da proposta. No entanto, os responsáveis não divulgaram a quantidade exata de cada elemento utilizado na composição.
A casa possui sala, cozinha, banheiro, garagem e três quartos. Vista pelo lado de fora, ela apresenta uma fachada semelhante à das demais residências do bairro.
O acabamento esconde a composição alternativa das paredes. Por isso, uma pessoa que passa pelo local dificilmente percebe que o imóvel não foi construído com a alvenaria tradicional.
Família passou a morar dentro do protótipo

(Foto fornecida à UCT News)
Após a conclusão da obra, a família Mabonda mudou-se para a casa. A decisão transformou o protótipo em um teste permanente de conforto, manutenção e durabilidade.
Matimba afirmou que os ambientes permanecem aquecidos durante o inverno e frescos no verão. Segundo ele, essa característica reduz a necessidade de aparelhos de climatização.
As construções com terra podem apresentar elevada massa térmica. Isso significa que as paredes conseguem absorver calor e liberá-lo de maneira gradual.
Porém, o desempenho depende de vários fatores. Espessura das paredes, composição do solo, ventilação, cobertura e posição da casa interferem diretamente no resultado.
Além disso, a universidade não apresentou medições independentes de temperatura ou uma comparação controlada com imóveis de tijolos.
Terra precisa passar por análise antes da obra
A técnica utilizada não consiste apenas em retirar barro do terreno e colocá-lo dentro de formas.
Antes da construção, a equipe precisa analisar a composição do solo. A quantidade de areia, argila e outros elementos influencia a resistência e a estabilidade das paredes.
Um solo com argila em excesso pode encolher e apresentar rachaduras durante a secagem. Já uma mistura com pouca capacidade de ligação pode não alcançar a resistência necessária.
No caso da residência construída em Ennerdale, os responsáveis testaram o material disponível e ajustaram as proporções antes de levantar as paredes.
Matimba explica que cada terreno exige uma nova avaliação. Portanto, a mesma mistura não pode ser reproduzida automaticamente em todos os locais.
Projeto começou com tijolos feitos de resíduos
Antes de construir a casa, o estudante pesquisava a criação de um bloco chamado “lolabrick”.
A proposta era transformar resíduos plásticos e industriais em tijolos produzidos sem água e cimento. O primeiro modelo experimental teria sido desenvolvido em janeiro de 2022.
Matimba criou a empresa LolaGreen para trabalhar com materiais alternativos destinados à construção civil. O projeto chegou a vencer uma competição universitária de empreendedorismo na África do Sul.
Entretanto, a fabricação em larga escala exigia equipamentos industriais caros. Sem os recursos necessários, o jovem passou a estudar técnicas de construção com terra.
A mudança permitiu aproveitar um material encontrado localmente. Assim, a casa tornou-se uma adaptação da ideia inicial, combinando solo, plástico, vidro e outros resíduos.
Experiência do pai ajudou a executar a construção
O conhecimento técnico de Matimba foi combinado com a experiência prática de Ben Mabonda.
Enquanto o filho se dedicou ao desenvolvimento dos materiais e ao reaproveitamento dos resíduos, o pai contribuiu com decisões relacionadas ao canteiro e à execução da obra.
Embora o projeto seja frequentemente apresentado como uma construção feita por pai e filho, outras pessoas participaram do trabalho. A quantidade de integrantes da equipe não foi informada.
Também não foram divulgadas as datas exatas de início e término da obra. A universidade informou apenas que a construção levou menos de um mês.
Casa ainda é considerada um protótipo
A família utiliza o imóvel normalmente, mas isso não significa que a técnica já esteja aprovada para reprodução comercial em grande escala.
Até julho de 2026, não havia sido divulgado um certificado público que confirmasse a liberação do sistema para construção de várias unidades.
Também faltam informações detalhadas sobre resistência estrutural, comportamento diante do fogo, impermeabilidade, durabilidade e necessidade de manutenção.
Morar no protótipo permite observar o desempenho ao longo do tempo. Contudo, essa experiência não substitui ensaios técnicos independentes.
Os responsáveis também não divulgaram o custo total da obra, o preço por metro quadrado ou uma comparação auditada com uma casa convencional.
Aparência semelhante não garante o mesmo desempenho
Matimba afirma que a residência se parece com qualquer casa feita de tijolos e argamassa. O acabamento externo reforça essa impressão.
A semelhança visual mostra que uma construção com materiais alternativos não precisa ter aparência improvisada. Ainda assim, fachadas parecidas podem esconder diferenças importantes.
Antes de uma tecnologia chegar ao mercado, órgãos técnicos avaliam estabilidade, resistência, segurança, umidade e desempenho em diferentes condições.
Por enquanto, a residência de Ennerdale demonstra que a equipe conseguiu levantar e ocupar uma casa completa com paredes formadas principalmente por terra e materiais descartados.
O próximo desafio será comprovar, por meio de testes e certificações, se a solução pode ser reproduzida com segurança e vantagem financeira em outros terrenos.
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