Cientistas identificam descendentes de antigas criaturas marinhas nas Cataratas de Sangue da Antártida
O vermelho intenso de uma das paisagens mais curiosas do continente esconde um ecossistema microscópico ligado a um passado muito distante

A paisagem parece saída de um filme de ficção científica. No meio do gelo da Antártida, uma corrente de água avermelhada escorre pela geleira Taylor e forma as chamadas Cataratas de Sangue. Agora, uma equipe de pesquisadores encontrou evidências de que o local abriga uma comunidade de microrganismos com características associadas a antigos ambientes marinhos.
O estudo, publicado na revista Nature Geoscience, analisou 167 amostras de água, sedimentos e ar coletadas na região dos Vales Secos de McMurdo. A partir desse material, os pesquisadores identificaram uma comunidade distinta de microrganismos eucarióticos ligada ao ambiente marinho, justamente na área onde a água avermelhada emerge da geleira.
O que existe por baixo do gelo
Apesar da aparência impressionante, as Cataratas de Sangue não têm essa cor por causa de sangue ou algas. Na verdade, o tom avermelhado vem da água extremamente salgada e rica em ferro que permanece presa sob a geleira.
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Quando a água entra em contato com o oxigênio na superfície, o ferro sofre oxidação e produz uma coloração semelhante à da ferrugem. Dessa forma, o fenômeno aparece no ponto em que a salmoura subterrânea chega ao exterior da geleira Taylor.
Os pesquisadores consideram essa água subterrânea um possível remanescente de um antigo ambiente marinho. A principal hipótese é que o mar tenha inundado a região durante períodos mais quentes do passado. Depois, quando o nível do oceano caiu e a geleira avançou, parte dessa água teria ficado isolada sob o gelo.
Criaturas marinhas ainda vivem ali?
É importante fazer uma distinção. Os cientistas não encontraram animais marinhos gigantes nem criaturas pré-históricas preservadas no gelo.
Na realidade, a equipe encontrou microrganismos, incluindo grupos de diatomáceas, haptofitas, dinoflagelados e ciliados. Além disso, o material genético analisado indica que algumas dessas linhagens apresentam ligação com comunidades marinhas.
Por isso, a expressão “descendentes de antigas criaturas marinhas” se refere a organismos microscópicos. Suas linhagens apresentam características relacionadas a antigos ambientes oceânicos, e não a animais pré-históricos vivendo atualmente sob a geleira.
Uma espécie de refúgio escondido
Um dos pontos que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a diferença entre a região das Cataratas de Sangue e outras áreas próximas.
Nos sedimentos e no gelo avermelhado junto à geleira, os pesquisadores encontraram uma presença muito maior de linhagens eucarióticas associadas ao mar. Segundo a Nature, 9,34% dos eucariotos encontrados no local compartilhavam características com amostras oceânicas próximas. Em outros pontos dos Vales Secos de McMurdo, essa proporção ficou em apenas 1,15%.
Além disso, os pesquisadores encontraram sinais de atividade biológica. Entre os microrganismos, havia organismos fotossintéticos e outros capazes de responder às condições extremas do ambiente.
Como eles sobreviveram por tanto tempo?
As condições da região estão entre as mais extremas do planeta. Ainda assim, a salmoura subterrânea permanece líquida porque a elevada concentração de sais reduz o ponto de congelamento da água.
Além disso, o ambiente oferece compostos químicos capazes de sustentar diferentes formas de vida microscópica. Estudos anteriores também identificaram comunidades bacterianas associadas à água subterrânea das Cataratas de Sangue.
Agora, a nova pesquisa amplia esse conhecimento. Os resultados apresentam evidências moleculares de uma comunidade marinha mais diversificada na região.
Descoberta ajuda a entender o passado da Antártida
Além de revelar detalhes sobre um dos ambientes mais curiosos do planeta, a descoberta pode ajudar os cientistas a reconstruir mudanças ambientais ocorridas na Antártida.
A presença de organismos associados ao mar reforça a possibilidade de que a água presa sob a geleira tenha uma origem marinha antiga. Ao mesmo tempo, os resultados ajudam a entender como comunidades microscópicas conseguem persistir enquanto o ambiente ao redor passa por grandes transformações.
Assim, as Cataratas de Sangue vão muito além de uma paisagem incomum no continente gelado. Por trás da aparência vermelha provocada pelo ferro, existe um ambiente microscópico que pode guardar pistas sobre uma época em que aquela região tinha uma relação muito mais próxima com o oceano.
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