Segundo a psicologia, pessoas que verificam várias vezes se trancaram a porta costumam apresentar estes comportamentos em comum
Voltar para conferir uma última vez pode parecer apenas excesso de cautela, mas a repetição produz um efeito curioso na própria memória

A pessoa gira a chave, testa a maçaneta e começa a se afastar. Poucos passos depois, surge a dúvida: “Será que tranquei mesmo?”. Ela volta, confere novamente e, às vezes, repete o processo mais uma vez.
Verificar uma porta por segurança é perfeitamente comum. Quando a checagem acontece repetidamente, porém, pesquisas em psicologia mostram que alguns mecanismos podem estar atuando por trás do comportamento.
Entre eles estão dificuldade para tolerar a incerteza, preocupação com possíveis consequências e, curiosamente, uma confiança cada vez menor na própria memória.
Necessidade maior de certeza
Um dos padrões mais estudados é a chamada intolerância à incerteza.
Pessoas com essa característica têm mais dificuldade para encerrar uma situação enquanto existe alguma possibilidade de que algo tenha dado errado. Um estudo encontrou associação entre intolerância à incerteza e maior frequência de comportamentos de checagem.
Assim, saber racionalmente que a porta provavelmente está fechada pode não produzir a sensação de certeza necessária para ir embora.
Preocupação com as consequências
A checagem também aparece associada a um senso elevado de responsabilidade.
O pensamento pode seguir uma lógica semelhante a: “Se eu não conferir e alguém entrar, a culpa será minha”.
Pesquisas mostram que responsabilidade percebida e preocupação com possíveis ameaças podem aumentar a vontade de verificar novamente.
Menos confiança na própria memória
Aqui aparece o efeito mais curioso.
Checar repetidamente não parece melhorar muito a memória sobre o que aconteceu. Na verdade, pode fazer justamente o contrário com a confiança que a pessoa deposita nela.
Uma meta-análise que reuniu 29 estudos e 2.180 participantes concluiu que a checagem repetitiva provocou uma queda considerável na confiança da memória, enquanto a precisão das lembranças mudou muito pouco.
É diferente da situação em que a pessoa realmente está esquecendo tarefas por estar com a mente sobrecarregada e com dificuldade de registrar informações.
A checagem pode alimentar a própria dúvida
Quanto mais alguém verifica, mais familiar aquele gesto se torna. Isso pode deixar a lembrança da última checagem menos nítida e criar a sensação de “não sei se estou lembrando de agora ou de ontem”.
Experimentos feitos inclusive com pessoas sem diagnóstico de TOC descobriram que repetir uma checagem reduz a vivacidade e os detalhes da lembrança.
Forma-se, então, um ciclo: a dúvida leva à checagem, a checagem diminui a confiança e a falta de confiança provoca uma nova checagem.
Isso não significa que verificar duas vezes uma porta indique transtorno obsessivo-compulsivo. O comportamento merece mais atenção quando se torna difícil de controlar, toma tempo significativo ou provoca sofrimento e prejuízos à rotina.
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