Do Discord ao barracão abandonado: a linha do tempo dos três dias de desaparecimento da adolescente em Anápolis

Suspeito de 19 anos foi autuado em flagrante por cárcere privado e estupro de vulnerável. Delegada Aline Lopes explicou o que falta esclarecer

Natália Sezil Natália Sezil -
Delegada Aline Lopes deu detalhes do caso Ana Clara e explicou o que ainda falta esclarecer.
Delegada Aline Lopes deu detalhes do caso Ana Clara e explicou o que ainda falta esclarecer. (Foto: Reprodução e Portal 6)

O caso de Ana Clara Silva ganhou uma conclusão na tarde desta quarta-feira (09). A adolescente, de 13 anos, estava desaparecida desde a madrugada da última segunda-feira (07), mas foi encontrada pela Polícia Civil (PC) após três dias de operações.

A hipótese inicial era de que Ana Clara tivesse fugido de casa com um jovem, de supostamente 28 anos, depois de trocarem mensagens pelo Discord. A adolescente dizia ainda que eles se mudariam para o Canadá.

Duas dessas informações foram desmentidas pela investigação. Eles tinham, de fato, conversado pelas redes sociais, mas o jovem tinha 19 anos e não pretendia levá-la para outro país. Inclusive, ela não tinha passaporte e não estava com os documentos.

O objetivo, pelo menos em um momento inicial, era ficarem em Anápolis. Ana Clara foi localizada em um barracão abandonado na Vila Esperança, mas o plano do suspeito era que fossem para uma casa alugada por ele.

Após o resgate, ela revelou à polícia que o jovem a instruiu a fugir de madrugada para não ser flagrada pelas câmeras de segurança. A delegada Aline Lopes, titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), detalhou que os dois fugiram de trajetos onde pudessem ser filmados.

O jovem também orientou que a adolescente quebrasse o próprio celular para que não pudesse ser identificada ou rastreada pelas autoridades.

A família relatou ter sentido desespero enquanto não tinha informações do paradeiro. O pai estava em contato direto com as autoridades e, nesta terça-feira (08), tinha ficado na delegacia até a noite.

Além da vontade de encontrar a filha, a delegada revela que ele se sentiu magoado diante de acusações na internet. Quando a adolescente foi localizada, a sensação foi de alívio.

Plano “à prova de erros”

Aline Lopes também explicou, em coletiva de imprensa, que o jovem descreveu ter elaborado um plano “à prova de erros” para evitar que Ana Clara fosse encontrada.

Aline não deu detalhes da apuração policial para manter em sigilo as investigações de inteligência, mas contou que a adolescente foi deixada no imóvel abandonado enquanto o suspeito estava no trabalho.

O local estava trancado pelo lado de fora, com as portas fechadas por correntes e cadeado, além de tábuas. No interior, havia apenas um colchão.

Apesar disso, Aline detalhou que as autoridades “precisaram ser mais firmes” para que Ana Clara saísse do barracão. A titular contou: “ela estava deitada em um colchão e a princípio ela não queria vir, ela não esboçou nenhum tipo de reação”.

“Tivemos que ser mais firmes com ela para fazer com que ela se levantasse, para que viesse e nos acompanhasse, mas depois ficou tudo bem, ela entendeu”, completou.

A adolescente foi levada até a delegacia para prestar depoimento e, posteriormente, foi ao Instituto Médico Legal (IML), onde passou pelo corpo de delito.

Cárcere privado e estupro de vulnerável

O suspeito, de 19 anos, permaneceu na DPCA até pouco depois das 19h, quando foi conduzido em uma viatura até o IML. Ele foi preso em flagrante, autuado por dois crimes: cárcere privado e estupro de vulnerável.

A delegada explicou ao Portal 6 que Ana Clara não tinha lesões quando foi encontrada e que também não havia indicação inicial de que tivesse sofrido abusos, mas o crime é previsto por lei por conta da idade dela.

“Há elementos que mostram que há uma violência sexual presumida. Não é necessário, por exemplo, que seja forçado propriamente dito, com uso de violência ou grave ameaça”.

A titular descreveu que a situação, em que “um homem de 19 dá instruções para que ela fuja de casa sem ser descoberta, para que a família ou a polícia não a ache, é uma forma clara de aliciamento”.

O jovem era natural de um município próximo, morava em Anápolis já há algum tempo e não tinha antecedentes criminais.

Apuração ainda não acabou

Embora Ana Clara tenha sido encontrada e as buscas pelo suspeito tenham terminado, algumas coisas ainda precisam ser esclarecidas.

Em coletiva de imprensa, Aline Lopes afirmou que a PC ainda vai confirmar se suspeito e vítima já tinham tido contato antes, por exemplo.

“Há indícios que mostram que teria sido a primeira vez e que eles nunca teriam se visto, mas já há outra informação que eles já se conheciam, que foram apresentados inclusive por uma amiga em comum”, compartilhou.

As autoridades devem ouvir os envolvidos, amigas da adolescente e analisar o conteúdo dos celulares. O prazo estimado pela delegada para que isso aconteça é de 10 dias.

Alerta aos pais

A titular da DPCA usou a repercussão do caso para deixar um alerta às famílias: “as famílias não entendem o risco que os seus filhos estão correndo quando eles têm o celular na mão”.

“Uma pessoa completamente desconhecida da família conseguiu entrar na mente [da adolescente] a ponto de fazê-la abandonar uma vida confortável, uma família, toda uma estrutura para ficar, por exemplo, no muquifo em que ela foi encontrada e ia viver ali, sabe-se lá em quais condições”, defendeu.

Aline destacou que não é momento de julgar a família de Ana Clara, mas de aprender com a situação. Ressaltou a importância de restringir o acesso de crianças e adolescentes a celulares, ficar atento aos conteúdos que consomem e aplicativos que têm baixados.

“Uma hora ou outra, ou esse tipo de coisa acontece, ou uma violência sexual virtual, é o que tem acontecido e o que vai continuar acontecendo se os pais não se atentarem”, finalizou.

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Natália Sezil

Natália Sezil

Chegou no Portal 6 como estagiária de jornalismo e foi promovida a repórter. Apaixonada por boas histórias, gosta de ouvir as pessoas, entender contextos e transformar relatos em narrativas que informam e conectam o público.

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