Goiânia já teve quase um terço dos eleitores longe das urnas; o que pode mudar neste domingo?
Especialistas explicam o que afasta os goianienses das urnas e por que a disputa nacional pode estimular a participação neste domingo (04)

Goiânia tem registrado variações expressivas nas taxas de abstenção ao longo das últimas disputas eleitorais, como mostram dados disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Em 2018 e 2022, quando o eleitorado foi às urnas para definir cargos estaduais e federais, a abstenção em Goiânia se manteve em patamares próximos, de 20,60% e 20,56%, respectivamente.
Já nas eleições municipais, a presença dos votantes foi ainda menor, atingindo o pico de 30,72% de abstenção em 2020 (298.362) e permanecendo elevada em 2024, com 28,23% de ausências (290.868 eleitores).
Em entrevista ao Portal 6, o cientista político Guilherme Carvalho aponta que a participação é maior nas eleições gerais porque o engajamento ideológico nacional atua compensando os custos individuais que o cidadão tem para votar.
“A gente tem que entender que voto é custo. O eleitor sai de casa, ele precisa se informar, então ele precisa de incentivos que transcendem o dia da eleição. E as questões ideológicas fornecem esse incentivo constante para o eleitor”, explicou Guilherme.
Já o cientista político Alaor Bruno pondera que o aumento da abstenção no nível municipal decorre da ruptura do antigo modelo partidário tradicional e da consolidação do bolsonarismo como força nacional, mas sem representação formal única nas cidades.
Segundo o analista, a ausência dessa polarização nacionalizada nos pleitos locais faz com que a população enxergue todos os quadros municipais como integrantes do mesmo sistema.
“E o bolsonarismo é antisistema, mas como não tem bolsonarismo no município, então tudo é sistema, e eu acho que isso desmotiva as pessoas a votarem na política local”, analisou Alaor Bruno.
O papel da complexidade do sistema e da estratégia digital
A frustração com a representação política aliada às dificuldades de entendimento do próprio processo eleitoral contribuem para afastar parcelas significativas da população.
Para Guilherme Carvalho, o perfil do eleitor que deixa de votar é composto majoritariamente por idosos e pessoas de menor renda, os mais afetados por um sistema eleitoral pouco intuitivo, especialmente as proporcionais.
“O nosso sistema eleitoral não é transparente. Ele é muito difícil de entender, e a gente não vê um trabalho de tentar simplificar isso”, afirmou Guilherme à reportagem.
Além disso, a perpetuação de embates nas plataformas digitais gera um estado de alerta permanente que acaba desgastando a militância e o eleitor comum.
O cientista chama a atenção para o fato de que a estratégia digital mantém o debate ativo permanentemente, mas também cria uma sensação de exaustão sobre o processo político.
“Ele serviu para manter o palanque sempre ativo. Então de uma forma ou outra é como se a gente nunca saísse das eleições”, argumenta Guilherme Carvalho.
Com o enfraquecimento da participação, o ambiente democrático enfrenta desafios na validação de suas lideranças. Alaor Bruno defende que a adesão do público depende do dinamismo da campanha e de como as propostas circulam entre os votantes.
“A população quer ver o entretenimento da política, ela quer ver o movimento, e quando o movimento ele é bem engajado, ela sabe visualizar”, observa Alaor Bruno.
Projeções para 2026
Para o pleito de 2026, a expectativa é de que o retorno da disputa focada no cenário nacional volte a atrair o eleitor goianiense para as urnas. Entretanto, o nível de abstenção deve se manter próximo dos 20% na capital goiana.
Para Guilherme Carvalho, a resposta para reduzir a abstenção não passa pelo aumento de punições, como a multa aplicada ao eleitor ausente, mas pelo fortalecimento da cidadania e da transparência pública.
“O caminho não deve ser piorarmos a responsabilização para quem não vota, mas colocarmos o poder público na mesma dimensão do cidadão. É dizer para o cidadão: ‘olha, isso aqui só existe por sua causa e para você’. E isso é processo educacional, mas se a gente não começar a fazer isso um dia, a gente nunca vai conseguir melhorar a cultura participativa no Brasil”, defende Guilherme.
A capacidade das campanhas em traduzir os debates nacionais para a realidade de Goiás também será determinante para reverter a apatia registrada nos últimos anos.
Alaor Bruno reforça que a população precisa recuperar a confiança de que a presença nas urnas gera transformações reais no dia a dia. “Eu acredito que essa dificuldade de entender a nova forma de fazer política dificulta esse engajamento, mas a rede social amadureceu o processo eleitoral”, finalizou Alaor Bruno.
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