Anapolina vira alvo de eurodeputado na Polônia após foto com símbolo do PT; político fala em deportação
Parlamentar pediu informações sobre duas brasileiras, falou em expulsão do país e chegou a usar referência a quadro de Gugu para ironizar o episódio

Uma fotografia tirada em frente ao local de votação brasileiro em Varsóvia, na Polônia, colocou duas brasileiras no centro de uma repercussão política que atravessou fronteiras e chegou a envolver pedidos públicos de identificação, menções a deportação e debate sobre os limites da legislação polonesa.
As brasileiras foram inicialmente identificadas como Anna Clara Oliveira Queiroz, natural de Anápolis, e Morgana Bettega.
Na imagem, registrada durante as eleições brasileiras no domingo (4), as duas aparecem fazendo o gesto de “L” com as mãos. Uma delas também usa um broche vermelho em formato de estrela com a inscrição “PT”.
O caso ganhou projeção depois que o eurodeputado polonês Dominik Tarczyński publicou a fotografia no X e pediu informações sobre as mulheres.
“Se alguém tiver informações sobre essas senhoras, por favor, entre em contato por mensagem privada. URGENTE”, escreveu.

Dominik Tarczyński publicou a imagem das brasileiras e pediu que seguidores enviassem informações sobre elas por mensagem privada. (Imagem: Reprodução/X)
Até o momento, porém, não há confirmação pública de que as autoridades polonesas tenham aberto investigação criminal ou procedimento migratório contra as brasileiras.
Também não foi divulgada nenhuma comunicação oficial de polícia, Ministério Público ou órgãos de imigração da Polônia.
Deputado fala em deportação
A repercussão aumentou depois que Tarczyński voltou ao assunto e passou a falar explicitamente em deportação.
Em publicação no Instagram, ele afirmou que ajudaria pessoalmente uma das brasileiras a “arrumar as malas antes da deportação” e sustentou que promover o comunismo seria proibido na Polônia.
Na mesma postagem, o eurodeputado também pediu votos para Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência que avançou ao segundo turno das eleições brasileiras.
A montagem usada pelo parlamentar trouxe ainda uma referência conhecida dos brasileiros. A imagem foi produzida com a frase “De Volta Para a Minha Terra”, numa alusão ao quadro televisivo popularizado por Gugu Liberato.

Em nova publicação, o eurodeputado usou uma montagem inspirada no quadro de Gugu Liberato para ironizar uma possível deportação das brasileiras. (Imagem: Captura de tela/Reprodução/Instagram)
O programa ficou conhecido no Domingo Legal, especialmente nos anos 2000, por acompanhar famílias que haviam deixado suas cidades de origem e desejavam retornar. O quadro frequentemente mostrava viagens, reencontros e a mudança de volta para a terra natal.
No post de Tarczyński, porém, a referência foi usada como ironia para sugerir o retorno das brasileiras ao Brasil.
O que diz a legislação polonesa
Embora o eurodeputado tenha relacionado o episódio à proibição do comunismo na Polônia, o enquadramento jurídico não é automático.
A legislação penal polonesa prevê punição para a promoção pública de regimes nazista, comunista, fascista ou de outros sistemas totalitários. Isso, porém, não significa que qualquer uso isolado de uma estrela vermelha ou de um símbolo político resulte, por si só, em crime.
Em 2011, o Tribunal Constitucional da Polônia declarou inconstitucional parte do artigo 256 do Código Penal que criminalizava de maneira ampla objetos que carregassem símbolos fascistas, comunistas ou de outros regimes totalitários.
A Corte considerou que uma proibição genérica desse tipo poderia alcançar objetos de significado ambíguo e gerar insegurança jurídica.
No caso das brasileiras, o broche registrado na fotografia traz uma estrela vermelha, mas com a identificação explícita “PT”, referente ao Partido dos Trabalhadores.
Por isso, até agora, não existe confirmação de que o uso do acessório ou o gesto feito na fotografia tenham sido considerados crime por alguma autoridade polonesa.
Quem é o eurodeputado
Dominik Tarczyński representa a Polônia no Parlamento Europeu e integra o partido Lei e Justiça (Prawo i Sprawiedliwość, PiS) e o grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus.
Ele também integra as comissões de Comércio Internacional e de Assuntos Jurídicos, além da delegação responsável pelas relações do Parlamento Europeu com os Estados Unidos.
O político mantém atuação pública ligada a pautas conservadoras e, no episódio envolvendo as brasileiras, manifestou apoio explícito a Flávio Bolsonaro.
Itamaraty foi procurado
Diante da repercussão, o Portal 6 procurou o Ministério das Relações Exteriores para saber se a Embaixada do Brasil em Varsóvia acompanha o caso, se Anna Clara e Morgana solicitaram assistência consular e se houve alguma comunicação oficial das autoridades polonesas.
Até a publicação desta matéria, o Itamaraty não respondeu. O espaço segue aberto.
A reportagem também buscou contato com as duas brasileiras citadas na matéria, mas, até o momento, não conseguiu localizar canais pelos quais pudesse ouvi-las. O espaço segue aberto para manifestação.
*Colaborou Augusto Araújo
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